terça-feira, 28 de agosto de 2012

Jogo de varetas


Como no jogo que dá nome ao livro, brincadeira de criança, a escrita de Manoel Ricardo é precisa e afiada. Fala de amor, fala do encontro e da ausência, dialoga com artistas das mais diversas estirpes, e fala da vida: de toda a literatura que cabe nela.

Contar uma história, a tarefa a que os personagens de Manoel Ricardo de Lima se agarram, é forjar
uma possibilidade de vida. A narração proporciona, em certa medida, uma reinvenção de si, a partir da transformação do eu num outro – e do impossível em novamente possível. Quem se põe a contar sua própria história chega sempre a um ponto em que já não conta a própria história. A história e ele mesmo já são outros. Daí que a incapacidade de produzir narrativas seja percebida como um fardo: “Queria ter histórias”, lamenta o personagem de “Os comedores de pão”, “mas não tenho histórias, o que é um problema para mim”. Num dos textos mais fascinantes do livro, “Tabelionato”, um homem encera tábuas ao mesmo tempo em que escreve nelas. O seu gesto é mecânico; a sua vida se reduziu à repetição infinita desse gesto: ele se converteu numa verdadeira máquina de escrever. No entanto, se o único gesto que lhe resta é o de escrever, há esperança: como frisa o narrador, “escrever ainda é humano. – Verônica Stigger

"Jogo de varetas" e "As mãos"


Amor é tudo que nós dissemos que não era


Amor é tudo que nós dissemos que não era reúne uma seleção de poemas de 15 livros do romancista, poeta e ícone da cultura norte-americana Charles Bukowski. Organizada e traduzida pelo escritor Fernando Koproski, a antologia apresenta o melhor da poesia confessional, intensa e direta do velho safado que mistura amor, sexo e álcool em textos líricos e corrosivos que irão deleitar sua legião de fãs.

Uma definição

amor é uma luz à
noite atravessando o nevoeiro

amor é uma tampinha de cerveja
pisada no caminho
do banheiro

amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado

amor é o que acontece
uma vez a cada dez anos

amor é um gato esmagado

amor é o velho jornaleiro na
esquina que
desistiu

amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu

amor é o que desapareceu junto
com a era dos navios encouraçados

amor é o telefone tocando,
a mesma voz ou uma outra
voz mas nunca a voz
correta
(...)

As mãos



Lançado em 2003, numa pequena edição rapidamente esgotada, As mãos chega agora à sua terceira edição. Uma guerra, uma cidade e uma história de amor surgem das páginas deste romance de Manoel Ricardo de Lima, num pequeno e saboroso livro que transita entre as fronteiras imprecisas da narrativa e do poema. Objeto de várias intervenções de artistas de 2003 para cá, a obra foi redesenhando a sua sintaxe com outras vozes – e mantendo, como um móbile, o seu caráter de experiência móvel. Nesta nova edição há trechos suprimidos e reescritos que se aproximam dos contos de Jogo de varetas, lançado em simultâneo. A arte das capas, assinada pela artista portuguesa Rachel Caiano, reforça o diálogo entre as obras, embaralhando esses livros tão distantes no tempo. “É outro livro” – explica o autor – mas “continua a ser, para mim, uma guerra e um corte abrupto. Para Euré, no céu”.


As paredes explicam o corte, abrupto. Explicam que o tempo, a passagem, o esgotamento e o 
cansaço existem nas variantes desorganizadas de meu estado. Se vou ao espelho, a parte tensa 
se desfaz, apareço então como se a vida recomeçasse, um sujeito esguio, magro, com fome e 
sede, barba rala e fedorenta, olhos fundos, quase densos, distantes de um percurso que poderia 
dizer, num desvario provável, me exauriu desta vida, me exauriu pela guerra, pela falta dela, 
talvez, quem sabe, ao certo, e o que antes era uma dor que procurávamos orientar para não 
causar danos na existência do outro, de quem quer passasse aqui, na frente da casa, pela rua, 
ao lado, e que pudesse acenar desejando um sorriso, algo assim, hoje cobre intensamente minha 
vontade de não permanecer mais neste mundo, acho, creio, tenho quase certeza.
 

satara