terça-feira, 27 de março de 2012

Lyrikvännen: edição especial Brasil

A revista de poesia sueca Lyrikvännen preparou uma edição especial sobre poesia brasileira. Organizada por Marcia Schuback e Magnus Olsson-William, a seleção conta com poemas de Simone Brantes, Ricardo Domeneck, Laura Erber, Marilia Garcia, Afonso Henriques Neto, todos autores da 7Letras.

Marcia Schuback é professora titular de filosofia na Södertörn University, em Estocolmo. É autora de Olho a olho: ensaios de longe (7Letras, 2011).

A solidão presente na vida e na morte

Resenha de O primeiro dia da segunda morte, de Mara Bergamaschi
Por Ronize Alin, no Prosa & Verso

Nem tudo é o que parece. Esse seria um bom subtítulo para “O primeiro dia da segunda morte”, romance de Mara Bergamaschi que será lançado nesta quarta-feira, dia 14, às 19h, na Travessa de Ipanema (Visconde de Pirajá 572). À primeira vista, um livro despretensioso; no entanto, à medida que a leitura avança, revela-se muito mais complexo, quase a fazer troça dos que ousaram acreditar na sua simplicidade inicial. Poderia-se dizer que o livro trata da morte e da solidão que a acompanha: “Pensavam que eram dores, mas não, era tão somente a perdição, a desesperança, a impossibilidade de retribuições e recomeços, a solidão do fim da vida.” Mas, para além da morte, o livro fala da vida, da mesma solidão também ali presente (“nunca deixei de temer a separação e o abandono”) e das tentativas — bem-sucedidas ou não — de reescrevê-la.



Ter uma segunda chance, viver após a primeira morte o que não se conseguiu viver em vida: essa parece ser uma ideia por demais tentadora. Um acerto de contas com o passado. “Planejei a permanência do meu eu ideal, não do real.” E ter como testemunha ninguém além de uma “menina que não cresce”, personagem emblemática cujo papel a cumprir no destino de Mariana, a protagonista, é uma das agradáveis surpresas do livro.

Uma (im)provável segunda morte serviria para que ela relembrasse seus tempos de nobreza, a vida na corte, e revisitasse o que aconteceu na (e após) sua primeira morte. No entanto, o que encontra é apenas esquecimento: sem rastros, sem marcas, sem sinal de sua passagem por essas terras. “Vejo que meus esforços para preservar minhas origens foram em vão: no meu caso, não houve limites para o esquecimento.” E essa é a verdadeira morte.

A escrita segura e precisa de Mara — que lançou em 2009, também pela 7Letras, o livro de contos “Acabamento” — está ali, desde o primeiro parágrafo, quando já de cara somos instigados a procurar o que existe além de: “Ninguém, nem mesmo quem já está morto, gosta de levar um tiro no peito”. O que muda é o andamento do texto. Se fosse uma sonata, “O primeiro dia...” começaria como um adágio, já que, de forma lenta e gradual, a história vai se apresentando ao leitor. Um andamento lento, de aproximação, de “acomodação” (o termo italiano deriva de “ad agio”, que significa comodamente). Narrativa e leitor estão se acomodando um ao outro.

O texto avança e, com ele, o ritmo. Da metade para o final o adágio vai sendo substituído pelo vivace, um andamento mais rápido, capaz de alterar até mesmo a respiração do leitor para que ele possa acompanhar a escrita cadenciada e as reviravoltas que a autora prepara. Enquanto a primeira parte é lida de forma serena, imergindo pouco a pouco na vida da Condessa Lussac, que nasceu numa fazenda no interior do Brasil, casou-se com um nobre e foi viver em Paris, a segunda é lida de forma entusiasmada, ávida por desvendar quão astuta e audaciosa era Mariana — Dana para os mais chegados —, que sempre se sentiu deslocada na vida de luxos que a própria vida lhe reservou.

Tal qual uma Penélope moderna, Mara vai costurando e descosturando sua história enquanto deixa pistas, rastros pelo caminho, para que possamos juntar os retalhos. “Da primeira vez, morri mais velha, aos 44 anos...”, diz a protagonista em determinado momento, para, mais tarde, emendar “Doença, tristeza ou suicídio, um depois do outro ou tudo junto, não importa: o fato é que não foi difícil morrer quando ainda era uma jovem senhora.” E o que temos à nossa frente é um instantâneo daquilo que, na realidade, demorou anos para acontecer. “Amadurecera: nem entusiasmo com o mundo interior nem sofrimento com o exterior. Engana-se quem pensa que isso se chama sabedoria. O nome certo é morte”, diz Mariana. E quando pensamos que finalmente compreendemos suas decisões, há um novo (des)fazer dessa trama. E assim amadurece Mariana, ainda que precise morrer uma primeira vez para que isso aconteça, e amadurece Mara, num texto que vai ganhando em intensidade.

Escrita na forma de um fluxo de consciência, a narrativa traz pensamentos, lembranças, desejos, dúvidas, digressões de uma personagem construída a partir de uma complexidade tão própria dos seres de carne e osso: “O estranho é que queria desaparecer e, ao mesmo tempo, ser lembrada”. Mas a história vai muito além do que está sendo contado, e algo ainda mais perturbador vai aos poucos vindo à tona. E falar mais seria revelar a carta na manga. Ou, nesse caso, o último e perfeito retalho costurado aos demais. Já que nem tudo é o que parece.

sexta-feira, 16 de março de 2012

"A dor dorme com as palavras", de Mariana Camilo de Oliveira


Em A dor dorme com as palavras, Mariana Camilo de Oliveira mergulha na obra de Paul Celan, conduzindo o leitor com paixão e rigor pelos pontos-chaves da escrita deste autor que, desafiando Adorno, reinventou a poesia em alemão após o Holocausto. Evitando o biografismo e a historiografia – armadilhas fáceis na leitura de um poeta que perdeu os pais num campo de concentração e se suicidou no Sena –, a autora reflete sobre o impacto da dor, da catástrofe e sobre a relação entre o trauma e o real na escrita de Celan. Uma relação que desafia os limites da representação, nutrindo a escrita e fazendo da poesia a porta-voz do indizível. Unindo sensibilidade ao apurado estudo de fontes, este livro abre portas e ilumina um universo poético vertiginoso; mais do que tentar decifrá-lo, cada página o amplia, fazendo ecoar o seu silêncio.

Leia um trecho de A dor dorme com as palavras  – A poesia de Paul Celan nos territórios do indizível e da catástrofe:


Pesadez
conduzida pelo silêncio
Paul Celan – A morte é uma flor.

Com essas palavras fala a poesia da qual nos aproximamos. As silenciosas, leves, insonoras e, simultaneamente, de peso talvez material – “um íntegro silêncio, uma pedra” –, que engendram a dor em seu interior, feridas, cicatrizes, coágulos, “palavra-limiar”, da qual se deseja ser retirado “feito casca”. São as palavras que, como o poeta, fizeram a travessia “sem saída, no beco da História” do século xx. Que deixam em suspensão a possibilidade do dizer. Perpassadas de impossibilidades – indizíveis –, contudo, escritas.


É nesse beco da História que viveu Paul Celan. Pseudônimo anagramático e literário de Paul Antschel, nasceu na cidade romena de Czernowitz, Bucovina (hoje pertencente à Ucrânia), aos 23 de novembro de 1920, filho de judeus falantes de alemão. No ano de 1942, os pais de Celan foram deportados para um campo de extermínio em Michailowka e ali morreram. Celan foi deportado para um campo de trabalho onde
esteve durante 18 meses. Residiu em Bucareste, onde trabalhou como tradutor e leitor em uma editora, em Viena, até estabelecer-se em Paris, em 1948. (...) 


A poesia celaniana é, antes, vazia, elíptica, avessa à pretensão de completude, fraturada, deixa apenas vestígios e restos daquilo que escapa à simbolização. A leitura se dá num local de permanente risco: o leitor,
frequentemente, não sabe como reagir diante da obra de um autor que experimentou o traumático ou irrepresentável.

Paul Celan, um realista singular

A dor dorme com as palavras, de Mariana Camilo de Oliveira, é destes ensaios que conseguem simultaneamente ser um trabalho feito com paixão e com rigor. Não é fácil estudar a poesia de Paul Celan, um dos melhores poetas do século xx, mas também, reconhecidamente, um autor complexo, que demanda maturidade e estudo daqueles que se aproximam de sua obra. Neste ensaio, percebemos como sua autora enfrenta essa dificuldade aliando disciplina e apurado estudo das fontes primárias e secundárias a um enorme respeito aos poemas. O resultado é uma escrita enxuta, econômica, que, sem mimetizar seu autor-tema, permite uma inteligente aproximação reflexionante. O teórico e crítico literário tem que ser capaz de abrir portas, de iluminar, de perspectivar a obra estudada. Tudo isto acontece neste ensaio, sem a pretensão ou o vão desejo de ter encontrado alguma maravilhosa “chave de interpretação”. Para um autor que desfaz a hermenêutica, tentar enfrentá-lo com a ideia de decifração seria a receita certa para o fracasso.

Antes, Mariana Camilo de Oliveira propõe uma série de movimentos de aproximação e distanciamento do texto, desenhando uma coreografia de leitura que aos poucos leva o leitor ao âmago de várias questões fundamentais quando se trata dos poemas de Celan. Ela evita o biografismo, mas sabe respeitar o teor testemunhal da obra de um poeta que modelou seus poemas com a argila, a terra e as cinzas da época que lhe foi dado viver.

(...)

Márcio Seligmann-Silva, texto de apresentação de A dor dorme com as palavras, de Mariana Camilo de Oliveira. 


terça-feira, 13 de março de 2012

"O primeiro dia da segunda morte", de Mara Bergamaschi

Um tiro assinala a segunda morte de Mariana, atingindo violentamente seu coração, que há muito já não batia. Até então, a eternidade era sempre igual: décadas deslizando pelos corredores do palácio em seus sapatos de cetim, sendo mera espectadora do mundo dos vivos. Vendo e sendo vista apenas por uma menina estranha, igualmente silenciosa e invisível. Agora, ela não sabe o que irá acontecer – só sabe que terá de deixar os limites do palácio, o cenário de beleza e ilusão em que se refugiou – e enfrentar o mundo.

Com rara delicadeza e perícia na arte da escrita, Mara Bergamaschi cria uma biografia imaginada, uma “história fantasmagórica-filosófica de muitos anos em um só dia”. E tece com engenho uma narrativa que une a vida, a morte e a imaginação de duas jovens solitárias, separadas no tempo por mais de um século.


Leia um trecho de O primeiro dia da segunda morte, de Mara Bergamaschi:

Além de absurda e indigna, minha segunda morte neste iní­cio de terceiro milênio foi também injusta. O tiro me acertou aos vinte e poucos anos, no auge da beleza, os cabelos negros, fortes e longos, penteados em trança. Da primeira vez, morri mais velha, aos 44 anos, não souberam exatamente de quê, tan­tas eram as enfermidades indomadas. Mas tive uma morte que poderia chamar de natural, tranquila, na hora mesma do sol poente. Estava deitada em minha cama de dossel e pude con­templar pela janela os verdes montes já desnudos antes de o imenso cansaço me fechar definitivamente os olhos. Ao meu lado, meu marido, que tateava ansiosamente minhas mãos frias, dois doutores e o padre. Também os tempos eram outros, outro lugar, outras condições; eu, outra.

Na verdade, minha primeira morte foi calma, mas, é pre­ciso dizer, terrível. Morrer é algo imensamente triste para quem parte. Nas últimas horas, não resistia ao menor toque, à mais leve carícia. Qualquer contato humano, qualquer sinal de amor, fazia-me chorar, no início mansamente, depois com todas as minhas últimas forças. Pensavam que eram dores, mas não, era tão somente a perdição, a desesperança, a impossibilidade de retribuições e recomeços, a solidão do fim da vida.

(...)Mas não contava com esta segunda e estúpida morte: ela traz de volta, de uma só vez, minhas mais fortes lembranças. A verdade é que não gosto muito de pensar no fim da minha vida. Sempre que isso acontece, sinto-me tentada a romantizar a rea­lidade, apagar a tristeza e o desespero, idealizar meu passado, em nome da beleza. Minha vontade é rememorar apenas a parte da minha vida que, se contada, pareceria um conto de fadas. O reino encantado da aparência. Quem gostaria de olhar para trás e ver um quadro de mesquinharias e banalidades? Existem coisas que, mesmo depois da morte, é melhor esquecer. Então,

segunda-feira, 5 de março de 2012

"Ciclo do amante substituível" no Prosa & Verso

Resenha de Ciclo do amante substituível, de Ricardo Domeneck
Prosa & Verso de 3/03/2012
Por Laura Erber

O poeta é um fingidor. O poeta não presta. O poeta já era. O poeta é um lixo. É um sismógrafo, sedutor, bandido, antena da raça. O poeta é uma graça. O poeta é sexy mas pode ser cruel. É delicado mas pode até morrer. Desde que foi posto pra correr da República de Platão o poeta não parou de despertar paixão e ódio, desconfiança, indiferença, alguma fofoca, sussurros, gritos e curiosidade. Mas afinal, o que pode e o que não pode o poeta? Em teoria, ele pode fazer e dizer tudo, mas na realidade da poesia e do seu sistema de valores, nem tudo pode ser dito ou feito. Há um acordo tácito que interdita certos temas e certas formas de dizê-los. Por exemplo: a confissão amorosa, a autobiografia deslavada e a elegia hedonista, até segunda ordem, continuam proibidas. Ao menos é essa a postura dos que ainda acreditam que força poética e matéria afetiva sejam termos antagônicos.

Pois Ricardo Domeneck, poeta, editor, tradutor e Dj, acaba de lançar um livro irresistivelmente lírico e extremamente bem urdido. Ciclo do amante substituível, editado pela 7 Letras, é um belo atrevimento. E não apenas pela alta voltagem homoerótica de certos poemas, mas porque vem balançar alguns pressupostos sobre os quais ainda se ancora boa parte da poesia produzida entre nós. Em tempos de excessiva espetacularização da intimidade, quando nem mais o cronista quer tocar o mundo sem antes invocar papai, mamãe e titia, a questão que se coloca logo de saída a este livro é: como criar uma voz profundamente lírica sem aprisioná-la na armadura tediosa do “eu mesmo”, no redundante narcisismo nosso de cada dia. Domeneck consegue desfazer essa armadilha transitando entre escombros de espelhos, mal-estar, exaltações, mitos literários, e atrizes mortas. Sem medo de mesclar referências atualíssimas e formas arcaicas – especialmente a elegia e a ode - sua poesia avança em ritmo frenético, hipnotizada pela sombra perturbadora do amor ausente, e sob o risco de se perder no fundo sem fundo da fossa. Recusando as facilidades do cinismo contemporâneo, mas rindo de si mesmo enquanto chora, o lirismo confessional desse livro parece ter saído diretamente dos versos de Drummond: “amar o perdido / deixa confundido / este coração”.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Entrevista com Narjara Medeiros


O site PodlLer esteve presente no lançamento paulista de Memória de antes cadáver e entrevistou a autora Narjara Medeiros:


BATE-BOLA COM NARJARA MEDEIROS
A fim de conhecer um pouco mais a respeito do romance Memória de Antes Cadáver e sua autora, também fizemos um pequeno bate-bola com a Narjara Medeiros. Vale a pena conferir!

PODLER: Como surgiu a ideia para o título do seu romance, Memória de Antes Cadáver?

NM: O título nunca surge inteiramente num rompante de inspiração, ele é sempre trabalhado, manuseado até a exaustão, como o próprio texto literário. Eu penso em algumas palavras que poderiam ser usadas, palavras que naquele momento me seduzem, então durante dias combino essas palavras com outras, como um alquimista que se esforça para reproduzir a química do ouro. Por exemplo, durante a escrita do primeiro livro gostava da palavra “rasteira”, e mais tarde a palavra “caniço” me seduziu sobremaneira. “Caniço” é uma palavra bonita, gosto da sua aparência de mistério e demência e de seu significado simplório. Queria um título que combinasse as duas palavras, então apareceu “rasteira no campo de caniços”. Quanto a “memória de antes cadáver”, a primeira palavra que surgiu em minha consciência foi “cadáver”. Outra palavra que considero forte e bonita. Então devido ao descortinar do texto, ao desenrolar das imagens dramáticas, que se materializaram em forma de memórias, me ocorreu o título completo. Tentei que o segundo título fosse sobretudo fácil, pois o primeiro as pessoas não sabiam o significado da palavra “caniço”. É estranho o
fato de palavras desconhecidas provocarem sensações desagradáveis, em vez de provocarem o contrário, ou seja, a surpresa e a curiosidade. Algumas pessoas tem medo de palavras. Você diz “cutelaria” e a pessoa
fica amuada, se esgueira e corre para longe. Uma palavra estranha é como uma arma engatilhada. É uma pena, pois as palavras estão desaparecendo.

PODLER: A protagonista do seu livro vive um tanto à margem da sociedade, ou até da humanidade. Esse tipo de existência a transforma em heroína, de alguma maneira?

NM: É curioso pensar no conceito de “heroísmo”. Penso que existe na condição humana, impregnado no mais profundo do Ser, uma inclinação para o heroísmo. Assim como estamos essencialmente formatados para comer e defecar. Dessa maneira, qualquer manifestação humana será potencialmente carregada de heroísmo. Da forma como vejo hoje, a personagem do romance realiza o seu heroísmo em segredo, sobrevivendo numa sociedade onde não se sente à vontade. Como exercer o heroísmo num ambiente onde você se sente estrangeiro? Como salvar aqueles que você deseja ver decapitados? Não a vejo como uma heroína no sentido clássico, de promover um grande acontecimento, mas no sentido de manter o equilíbrio numa corda de espetos.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Cida no shopping

Cida no Shopping
José Castello

Entre os contos de "Todo amor tem seu dia de punhal", de Cida Sepulveda (7 Letras) um deles descreve com especial perfeição o impasse que todo escritor vive diante da folha em branco. Chama-se "Diálogo no escuro", ocupa praticamente só uma página, a 22, mas tem a potência de um explosivo.
Resumir um conto? Tentarei, apenas tentarei. Caminhando por um shopping, uma mulher (Cida?) procura por um "segredo". Ele se esconde no fundo do shopping. O segurança lhe aponta a porta de entrada e avisa que, com aqueles sapatos, não conseguiria "entrar lá dentro". Não é fácil pisar um segredo _ não é fácil caminhar pelo desconhecido. Sapatos sociais, "de shopping", são insuficientes para a grande aventura. O segurança lhe adverte.
A mulher lhe pergunta como é o piso no interior do "segredo". Ele responde: "Terra. Terra solta e vermelha". A mulher resolve avançar descalça: um segredo exige um certo desnudamento. É preciso que você se dispa do conhecido, que se iguale um pouco ao que ignora, que tenha forças nas pernas, e equilíbrio, e crueza, ou não avançará. A mulher tira os sapatos. Olha para o segurança e pensa: "Quer me ferrar". Todo "segredo", como nos relatos de Franz Kafka, tem à porta um enigmático sentinela. Enigmático e ameaçador.
 

satara