terça-feira, 28 de agosto de 2012

Jogo de varetas


Como no jogo que dá nome ao livro, brincadeira de criança, a escrita de Manoel Ricardo é precisa e afiada. Fala de amor, fala do encontro e da ausência, dialoga com artistas das mais diversas estirpes, e fala da vida: de toda a literatura que cabe nela.

Contar uma história, a tarefa a que os personagens de Manoel Ricardo de Lima se agarram, é forjar
uma possibilidade de vida. A narração proporciona, em certa medida, uma reinvenção de si, a partir da transformação do eu num outro – e do impossível em novamente possível. Quem se põe a contar sua própria história chega sempre a um ponto em que já não conta a própria história. A história e ele mesmo já são outros. Daí que a incapacidade de produzir narrativas seja percebida como um fardo: “Queria ter histórias”, lamenta o personagem de “Os comedores de pão”, “mas não tenho histórias, o que é um problema para mim”. Num dos textos mais fascinantes do livro, “Tabelionato”, um homem encera tábuas ao mesmo tempo em que escreve nelas. O seu gesto é mecânico; a sua vida se reduziu à repetição infinita desse gesto: ele se converteu numa verdadeira máquina de escrever. No entanto, se o único gesto que lhe resta é o de escrever, há esperança: como frisa o narrador, “escrever ainda é humano. – Verônica Stigger

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