terça-feira, 28 de agosto de 2012

As mãos



Lançado em 2003, numa pequena edição rapidamente esgotada, As mãos chega agora à sua terceira edição. Uma guerra, uma cidade e uma história de amor surgem das páginas deste romance de Manoel Ricardo de Lima, num pequeno e saboroso livro que transita entre as fronteiras imprecisas da narrativa e do poema. Objeto de várias intervenções de artistas de 2003 para cá, a obra foi redesenhando a sua sintaxe com outras vozes – e mantendo, como um móbile, o seu caráter de experiência móvel. Nesta nova edição há trechos suprimidos e reescritos que se aproximam dos contos de Jogo de varetas, lançado em simultâneo. A arte das capas, assinada pela artista portuguesa Rachel Caiano, reforça o diálogo entre as obras, embaralhando esses livros tão distantes no tempo. “É outro livro” – explica o autor – mas “continua a ser, para mim, uma guerra e um corte abrupto. Para Euré, no céu”.


As paredes explicam o corte, abrupto. Explicam que o tempo, a passagem, o esgotamento e o 
cansaço existem nas variantes desorganizadas de meu estado. Se vou ao espelho, a parte tensa 
se desfaz, apareço então como se a vida recomeçasse, um sujeito esguio, magro, com fome e 
sede, barba rala e fedorenta, olhos fundos, quase densos, distantes de um percurso que poderia 
dizer, num desvario provável, me exauriu desta vida, me exauriu pela guerra, pela falta dela, 
talvez, quem sabe, ao certo, e o que antes era uma dor que procurávamos orientar para não 
causar danos na existência do outro, de quem quer passasse aqui, na frente da casa, pela rua, 
ao lado, e que pudesse acenar desejando um sorriso, algo assim, hoje cobre intensamente minha 
vontade de não permanecer mais neste mundo, acho, creio, tenho quase certeza.

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