segunda-feira, 16 de abril de 2012

"Luzia", de Susana Fuentes, no Caldo Literário do Baukurs

Amanhã às 19h30 haverá mais um Caldo Literário -- encontros de leitura, interpretação e degustação-- no Baukurs Cultural, em Botafogo. Desta vez, a atriz Deborah Evelyn irá ler e interpretar trechos do livro Luzia, de Susana Fuentes. Saiba mais sobre o evento no site do Baukurs Cultural.

Aproveite para conhecer um trecho de Luzia, romance da escritora Susana Fuentes.

Luzia sofre dessa mania de inventar a vida. Ali onde morre a luz, ou uma sombra treme, Luzia pisca os olhos, escolhe um tempo e dá vida à partitura. É assim que sem notar se perde. É por este estado de flerte com o mundo. Ela se deixa seduzir pelas coisas. Deixa-se beijar pelas coisas. O beijo fica impresso na beirada da boca. E a boca sussurra que não abre mão deste beijo, que a lavem com sabão, e ela se agarra firme nos bracinhos do beijo ali selado. No entanto, é preciso notar: a boca ainda não é a de uma mulher. Nem o beijo é o da paixão: a menina não cresceu. Seu estado de flerte é com o mundo, apenas. Com um homem, nunca. Joaquim Marino talvez seja a sua chance de não ter medo, ao seu lado, em Maraberto, ela cresce curiosa.

Ali-parece-que-Luzia-vai-ter-coragem-de-se-entregar-ao-amor-mas-o-caminho-é-duro-porque-Luzia-há-de-tropeçar-na-má-lembrança.

Se a deixa de fora, aquela tarde de chuva, deixa de fora seu coração também. Precisa trazê-lo de volta. Em Maraberto, a lembrança quer vir à tona com a certeza de que virá também a coragem, a coragem de existir, na cidade de Esperanza.

Chove lá fora. Com o coração aquecido, no quarto de hotel em Maraberto, Luzia fecha os olhos e vê os tijolos sob a escada, os rolinhos de papel. A lembrança deles na volta da escola antiga, aos treze anos. A lembrança deles quando começou a pensar na viagem a Maraberto. Agora que já viajou até lá, a lembrança da lembrança. Luzia fecha os olhos e deixa vir a tarde dos seus treze anos, a lembrança escondida. Seu pensamento voa para o esconderijo de antes. Antes dos tijolos, o esconderijo era a árvore. Seu esconderijo. Naquela tarde de chuva, é para lá que se vê correndo. Ou não corre, anda sem rumo, o vestido está todo molhado. O molhado é vermelho, é água cor de tinta, é a água sem cor e gelada, a que escorre dela. Quente, vermelha, branco também. Continua a chover. O leite branco na perna, não sente dor, nada sente. Só o gelado da água, não quer tocar o chão, levanta no ar um joelho, depois o outro. Ninguém com quem conversar. Sobe na árvore, o joelho no ar, um e outro. Lá em cima, chora, no galho mais alto, seu esconderijo, chora uma dor sem culpa, não tinha mais um corpo seu.

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