terça-feira, 17 de abril de 2012

"Correnteza e escombros", de Olavo Amaral

Em Correnteza e escombros, Olavo Amaral apresenta uma série de histórias que, esmiúçam o fantástico e dissecam os mais urgentes sentimentos e anseios humanos. Desejo, solidão e medos são temas explorados a fundo com sensibilidade e um olhar agudo sobre o íntimo do homem, com tudo o que há de mais comovente e assustador que lhe é característico. As narrativas curtas de Correnteza e escombros primam pela alta tensão psicológica, que cresce página a página e culmina em reviravoltas surpreendentes. Com uma escrita hábil e uma linguagem simultaneamente clara e rica, Olavo Amaral se destaca como uma das vozes mais autênticas e originais da produção literária contemporânea no país.

Leia aqui o conto "Superfície":

Viu-se cercado de repente pelo terror do movimento. Não chegava a compreender ainda o que deixara do outro lado do vidro, mas olhar de volta para dentro do aquário trazia um misto de dor e nostalgia encharcada de algo que ficava para trás. E depois de um período de transe confuso, em que tentou ainda permanecer, senão em contato com a água, pelo menos em sua cercania, foi arrastado pelo ruidoso fluxo da superfície: a tosse do guarda, a conversa das pessoas que o julgavam insano ao vê-lo ali parado, por fim a sineta que anunciava o fechamento do zoológico. Na rua, a velocidade dos carros quase o derrubou: resquícios da imobilidade ressurgiam no seu corpo em lapsos, e foi por detalhe que escapou do trajeto dos para-choques. Tomou o rumo de casa não soube bem como, pois não se lembrava de alguma vez ter estado lá. Mas mesmo a inexplicável certeza dos passos não impediu o desvio para um mergulho no Quai de la Tournelle, sob o olhar de um casal de bêbados indiferentes.
Em casa, a mulher que ele adivinhou ser sua recebeu-o com óbvio estranhamento, mas preferiu nada comentar. Trouxe roupas secas, pendurou as molhadas em frente ao forno e deixou o prato sobre a mesa, indo dormir receosa: não era a primeira vez que o marido se perdia em algum lugar da Rive Gauche e voltava sem uma boa explicação. No outro dia, na hora do café, ele comeu os sanduíches de queijo com apetite, mas não sem se perguntar por que não devorava também os insetos pendurados no teto do estúdio. Ao sair de casa, surpreendeu-se com sua convicção ao explicar à mulher que ia a um escritório que sequer sabia onde era; uma vez do lado de fora, no entanto, sua vontade foi mais forte e arrastou-o de volta ao aquário do Jardin des Plantes.
Lá chegando, deixou-se ficar inerte em frente ao antigo lar por horas. O silêncio úmido do corredor e o contato firme da barra de ferro contra o corpo traziam-lhe algum alívio, mas aquilo pouco representava frente à angústia de não mais pertencer ao lado de dentro. Por mais que tentasse, não conseguia retornar à paz que outrora o cercara: o menor dos sons o atormentava, fosse o gotejar da umidade nas paredes de pedra ou os tênues rugidos das feras no outro extremo do parque. Ao mesmo tempo, sabia que o sofrimento era mútuo, adivinhando o mesmo desespero, ainda que submerso e silencioso, nos olhos dourados da salamandra que o observava imóvel, com o corpo estirado contra a face oposta do vidro.
Foi despertado do transe uma vez mais pela sineta, cujo ruído o fez deixar o zoológico numa corrida assustada. Ainda voltaria diversas vezes nos dias que se seguiram, semanas talvez, mas com menos entusiasmo. Aos poucos, os sons do cotidiano passaram a assustá-lo menos: continuava a desprezá-los, mas o medo do desconhecido já tinha se desfeito. Após algum tempo a mulher resolveu segui-lo, e ao descobrir o que ele fazia nas tardes de dispensa do trabalho conseguiu que um médico passasse a vê-lo de quando em quando. As visitas ao consultório não o fizeram sofrer menos, mas levaram-no a perceber que era capaz de mentir e de inventar com facilidade inúmeras histórias absurdas para justificar um comportamento que a ele parecia óbvio. Tal capacidade, estranhamente, fez com que aos poucos ele ganhasse a confiança de que, ainda que não pudesse retornar, ao menos seria capaz de sobreviver naquele mundo tão diferente do seu.
Com o passar dos meses, acabou por abandonar o aquário. Pressentia que deixava uma parte de si para trás, e que sentiria falta do contato com os que permaneciam do outro lado. Mas a proximidade da água era dolorosa, e o calvário de retornar ao tempo a cada soar da sineta começava a parecer-lhe desnecessário. Foi então se acostumando com o destino que lhe coubera, confinado a um vasto deserto de efemeridade e declínio. E como todos à sua volta, tomou como um estranho dever a tarefa de seguir vivendo como se não enxergasse o desabamento do mundo ao seu redor. Nas noites sem sono, no entanto, a umidade por vezes voltava a reclamar seu corpo, fazendo-o adentrar um estado sôfrego e febril. Nessas horas, sua verdadeira natureza emergia das escuras águas e não lhe deixava outra opção senão sacar com fúria o caderno da gaveta e começar a escrever.

Um comentário:

  1. maria eneida brasil do amaral3 de maio de 2012 14:24

    uma maneira incrivel de apresentar o realismo fantástico, em momentos aterrozidor e de repente fluindo em romantismo e doçura e uma dose de sensualidade mordaz.( o que quer dizer mordaz? achei que este vocábulo fecharia bem o meu comentário.)gostei e recomendo pra quem sabe ler.

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