terça-feira, 13 de março de 2012

"O primeiro dia da segunda morte", de Mara Bergamaschi

Um tiro assinala a segunda morte de Mariana, atingindo violentamente seu coração, que há muito já não batia. Até então, a eternidade era sempre igual: décadas deslizando pelos corredores do palácio em seus sapatos de cetim, sendo mera espectadora do mundo dos vivos. Vendo e sendo vista apenas por uma menina estranha, igualmente silenciosa e invisível. Agora, ela não sabe o que irá acontecer – só sabe que terá de deixar os limites do palácio, o cenário de beleza e ilusão em que se refugiou – e enfrentar o mundo.

Com rara delicadeza e perícia na arte da escrita, Mara Bergamaschi cria uma biografia imaginada, uma “história fantasmagórica-filosófica de muitos anos em um só dia”. E tece com engenho uma narrativa que une a vida, a morte e a imaginação de duas jovens solitárias, separadas no tempo por mais de um século.


Leia um trecho de O primeiro dia da segunda morte, de Mara Bergamaschi:

Além de absurda e indigna, minha segunda morte neste iní­cio de terceiro milênio foi também injusta. O tiro me acertou aos vinte e poucos anos, no auge da beleza, os cabelos negros, fortes e longos, penteados em trança. Da primeira vez, morri mais velha, aos 44 anos, não souberam exatamente de quê, tan­tas eram as enfermidades indomadas. Mas tive uma morte que poderia chamar de natural, tranquila, na hora mesma do sol poente. Estava deitada em minha cama de dossel e pude con­templar pela janela os verdes montes já desnudos antes de o imenso cansaço me fechar definitivamente os olhos. Ao meu lado, meu marido, que tateava ansiosamente minhas mãos frias, dois doutores e o padre. Também os tempos eram outros, outro lugar, outras condições; eu, outra.

Na verdade, minha primeira morte foi calma, mas, é pre­ciso dizer, terrível. Morrer é algo imensamente triste para quem parte. Nas últimas horas, não resistia ao menor toque, à mais leve carícia. Qualquer contato humano, qualquer sinal de amor, fazia-me chorar, no início mansamente, depois com todas as minhas últimas forças. Pensavam que eram dores, mas não, era tão somente a perdição, a desesperança, a impossibilidade de retribuições e recomeços, a solidão do fim da vida.

(...)Mas não contava com esta segunda e estúpida morte: ela traz de volta, de uma só vez, minhas mais fortes lembranças. A verdade é que não gosto muito de pensar no fim da minha vida. Sempre que isso acontece, sinto-me tentada a romantizar a rea­lidade, apagar a tristeza e o desespero, idealizar meu passado, em nome da beleza. Minha vontade é rememorar apenas a parte da minha vida que, se contada, pareceria um conto de fadas. O reino encantado da aparência. Quem gostaria de olhar para trás e ver um quadro de mesquinharias e banalidades? Existem coisas que, mesmo depois da morte, é melhor esquecer. Então,
preferi passar estes cento e poucos anos neste palácio, eterni­zada em minha juventude, bela e rica, como fui um dia.

Nem preciso dizer que nada sei sobre o reino dos mor­tos. Nunca encontrei vultos, almas, luzes, santos ou anjos nisto que chamam de além. Nenhum sopro de Deus nem sombra de demônios. Nada. Nem céu, nem inferno, nem purgatório. Nem pai nem mãe, marido, parente, criada, amigo, vizinho, conhe­cido, nem moço, nem velho, nem criança. Ninguém. Por quê? Não sei. Porque talvez seja assim mesmo – ou talvez seja esse o meu quinhão. No início, isso foi para mim motivo de grande inquietação. Depois, acostumei-me. O que posso dizer é que gosto de estar aqui nesse belo salão frequentado pelos vivos. Gosto de vê-los passar, diferentes a cada época, mas sempre os mesmos, os meus semelhantes, geração após geração. O pre­sente, sempre. Não seria isso a eternidade?

Não sei o que me aguarda na segunda morte. Há uma grande vantagem sobre a primeira: posso dizer que a morte violenta é imediata, franca, dura, concreta, casual, externa, social, pública. Não há margem para considerações pessoais, sofrimentos, sub­terfúgios, indagações, mistérios, poesia. É uma tragédia identi­ficada, classificada, estratificada, um modo funcional de exter­mínio que prescinde de autores, pois decorre de um estado de guerra reinante na minha terra natal há algumas décadas. E, como sempre se disse, guerra é guerra. Os riscos são para todos que desafortunadamente estão ou se aproximam das linhas de tiro, muitas vezes móveis e velozes. Nem os mortos escapam: fui abatida e devo me conformar. Não há muito mais a dizer ou fazer. Temo apenas, em consequência desta segunda morte, ser obrigada a deixar este adorado lugar.

Um comentário:

  1. Querida Mara,
    Seu livro é fantástico, rico em detalhes, me fez viajar em cada passagem que lia, consegui, em minha cabeça, transpor sua escrita em cenas reais.
    Abraços
    Renata Cunha
    Poços de Caldas

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