sexta-feira, 16 de março de 2012

"A dor dorme com as palavras", de Mariana Camilo de Oliveira


Em A dor dorme com as palavras, Mariana Camilo de Oliveira mergulha na obra de Paul Celan, conduzindo o leitor com paixão e rigor pelos pontos-chaves da escrita deste autor que, desafiando Adorno, reinventou a poesia em alemão após o Holocausto. Evitando o biografismo e a historiografia – armadilhas fáceis na leitura de um poeta que perdeu os pais num campo de concentração e se suicidou no Sena –, a autora reflete sobre o impacto da dor, da catástrofe e sobre a relação entre o trauma e o real na escrita de Celan. Uma relação que desafia os limites da representação, nutrindo a escrita e fazendo da poesia a porta-voz do indizível. Unindo sensibilidade ao apurado estudo de fontes, este livro abre portas e ilumina um universo poético vertiginoso; mais do que tentar decifrá-lo, cada página o amplia, fazendo ecoar o seu silêncio.

Leia um trecho de A dor dorme com as palavras  – A poesia de Paul Celan nos territórios do indizível e da catástrofe:


Pesadez
conduzida pelo silêncio
Paul Celan – A morte é uma flor.

Com essas palavras fala a poesia da qual nos aproximamos. As silenciosas, leves, insonoras e, simultaneamente, de peso talvez material – “um íntegro silêncio, uma pedra” –, que engendram a dor em seu interior, feridas, cicatrizes, coágulos, “palavra-limiar”, da qual se deseja ser retirado “feito casca”. São as palavras que, como o poeta, fizeram a travessia “sem saída, no beco da História” do século xx. Que deixam em suspensão a possibilidade do dizer. Perpassadas de impossibilidades – indizíveis –, contudo, escritas.


É nesse beco da História que viveu Paul Celan. Pseudônimo anagramático e literário de Paul Antschel, nasceu na cidade romena de Czernowitz, Bucovina (hoje pertencente à Ucrânia), aos 23 de novembro de 1920, filho de judeus falantes de alemão. No ano de 1942, os pais de Celan foram deportados para um campo de extermínio em Michailowka e ali morreram. Celan foi deportado para um campo de trabalho onde
esteve durante 18 meses. Residiu em Bucareste, onde trabalhou como tradutor e leitor em uma editora, em Viena, até estabelecer-se em Paris, em 1948. (...) 


A poesia celaniana é, antes, vazia, elíptica, avessa à pretensão de completude, fraturada, deixa apenas vestígios e restos daquilo que escapa à simbolização. A leitura se dá num local de permanente risco: o leitor,
frequentemente, não sabe como reagir diante da obra de um autor que experimentou o traumático ou irrepresentável.
Simultaneamente, portanto, impõe riscos a uma crítica que procura resistir à tendência de tornar- se uma “camisa de força” ou “máquina de desleitura” (ou que, de maneira reativa, rejeita o vivido e sua transformação operada através da experiência da escrita). O desafio reside em não circunscrever Paul Celan a uma chave de leitura ou ignorar a complexa relação (ou impossibilidade de recobrimento) entre a linguagem e os acontecimentos.


Para vislumbrar a temática da representabilidade/(in)dizibilidade do trauma, faz-se relevante, ademais, destacar o conflito dos judeus em relação à escrita em língua alemã. Este, que já precedia a Shoah, passa, então, a ter implicações incomensuráveis. A escrita, como vimos, seria tida comumente como um instrumento por meio do qual se pode perceber o esforço em representar o indizível do horror dos campos de concentração. E a narrativa da vivência terrível era, de fato, necessária aos sobreviventes. Intriga-nos, contudo, a escrita de Celan efetuada, em sua integridade, em língua alemã, com tudo o que ela abarca.
Esta, transmitida a Paul Celan por sua mãe, fora a mesma daqueles que a assassinaram, tornou-se um tema caro e recorrente para o poeta – a questão da Muttersprache-Mördersprache. Na mesma língua escrevia seus poemas e a ela dedicava seu trabalho acadêmico em Paris, convivendo permanentemente com essa duplicidade, como se a língua pudesse atravessar a catástrofe e restituir-se.

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