quinta-feira, 1 de março de 2012

Cida no shopping

Cida no Shopping
José Castello

Entre os contos de "Todo amor tem seu dia de punhal", de Cida Sepulveda (7 Letras) um deles descreve com especial perfeição o impasse que todo escritor vive diante da folha em branco. Chama-se "Diálogo no escuro", ocupa praticamente só uma página, a 22, mas tem a potência de um explosivo.
Resumir um conto? Tentarei, apenas tentarei. Caminhando por um shopping, uma mulher (Cida?) procura por um "segredo". Ele se esconde no fundo do shopping. O segurança lhe aponta a porta de entrada e avisa que, com aqueles sapatos, não conseguiria "entrar lá dentro". Não é fácil pisar um segredo _ não é fácil caminhar pelo desconhecido. Sapatos sociais, "de shopping", são insuficientes para a grande aventura. O segurança lhe adverte.
A mulher lhe pergunta como é o piso no interior do "segredo". Ele responde: "Terra. Terra solta e vermelha". A mulher resolve avançar descalça: um segredo exige um certo desnudamento. É preciso que você se dispa do conhecido, que se iguale um pouco ao que ignora, que tenha forças nas pernas, e equilíbrio, e crueza, ou não avançará. A mulher tira os sapatos. Olha para o segurança e pensa: "Quer me ferrar". Todo "segredo", como nos relatos de Franz Kafka, tem à porta um enigmático sentinela. Enigmático e ameaçador.

O homem lhe avisa que o sinal de alerta vai tocar e sugere que ela corra, que avance logo em direção ao "segredo", ou o perderá. Segredo, estranho, enigma: que outro objeto, senão este, tem a literatura? Escrever é avançar por um caminho ignorado, em busca do que se desconhece (Marlow em busca de Kurt, em "Coraçao das Trevas", de Joseph Conrad). É esperar um ataque que não se sabe de onde virá, ou mesmo se virá _ como os soldados de "O deserto dos tártaros", de Dino Buzatti. De nada adianta o conhecimento: a escrita se faz do desconhecimento.
A mulher diz que está com medo e o medo é parte fundamental da literatura. É,
talvez, seu miolo. Talvez seu elemento mais definidor. Vejam vocês: desconhecido, terra
vermelha, enigmas, medo: tudo aquilo que nunca se encontra em um shopping. Todos sabemos disso: shoppings são o universo do esperado. Há poucos meses, entrei em um shopping em Moscou e me senti em São Paulo, mas podia estar também em Bogotá, ou quem sabe em Paris. O shopping é o reino da repetição.
Para escrever, escritores repetem e repetem, refazem e refazem, riscam e riscam, até que, enfim, as palavras surjam. Todo escritor escreve "em um shopping", isto é, parte do conhecido, nele se instala (a mulher caminhando entre as vitrines) para que, de repente, como em um surto, a escrita lhe venha. Por fim, o segurança, mais doce, avisa à mulher: "Moça, lá dentro é seguro; não é escuro, escuro; é uma aventura apenas". E ela, imediatamente, entra. Sim, para escrever é preciso um pouco de coragem, ou nada se faz.

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