segunda-feira, 5 de março de 2012

"Ciclo do amante substituível" no Prosa & Verso

Resenha de Ciclo do amante substituível, de Ricardo Domeneck
Prosa & Verso de 3/03/2012
Por Laura Erber

O poeta é um fingidor. O poeta não presta. O poeta já era. O poeta é um lixo. É um sismógrafo, sedutor, bandido, antena da raça. O poeta é uma graça. O poeta é sexy mas pode ser cruel. É delicado mas pode até morrer. Desde que foi posto pra correr da República de Platão o poeta não parou de despertar paixão e ódio, desconfiança, indiferença, alguma fofoca, sussurros, gritos e curiosidade. Mas afinal, o que pode e o que não pode o poeta? Em teoria, ele pode fazer e dizer tudo, mas na realidade da poesia e do seu sistema de valores, nem tudo pode ser dito ou feito. Há um acordo tácito que interdita certos temas e certas formas de dizê-los. Por exemplo: a confissão amorosa, a autobiografia deslavada e a elegia hedonista, até segunda ordem, continuam proibidas. Ao menos é essa a postura dos que ainda acreditam que força poética e matéria afetiva sejam termos antagônicos.

Pois Ricardo Domeneck, poeta, editor, tradutor e Dj, acaba de lançar um livro irresistivelmente lírico e extremamente bem urdido. Ciclo do amante substituível, editado pela 7 Letras, é um belo atrevimento. E não apenas pela alta voltagem homoerótica de certos poemas, mas porque vem balançar alguns pressupostos sobre os quais ainda se ancora boa parte da poesia produzida entre nós. Em tempos de excessiva espetacularização da intimidade, quando nem mais o cronista quer tocar o mundo sem antes invocar papai, mamãe e titia, a questão que se coloca logo de saída a este livro é: como criar uma voz profundamente lírica sem aprisioná-la na armadura tediosa do “eu mesmo”, no redundante narcisismo nosso de cada dia. Domeneck consegue desfazer essa armadilha transitando entre escombros de espelhos, mal-estar, exaltações, mitos literários, e atrizes mortas. Sem medo de mesclar referências atualíssimas e formas arcaicas – especialmente a elegia e a ode - sua poesia avança em ritmo frenético, hipnotizada pela sombra perturbadora do amor ausente, e sob o risco de se perder no fundo sem fundo da fossa. Recusando as facilidades do cinismo contemporâneo, mas rindo de si mesmo enquanto chora, o lirismo confessional desse livro parece ter saído diretamente dos versos de Drummond: “amar o perdido / deixa confundido / este coração”.

Vivendo em Berlim há vários anos, mas presente no Brasil através da revista Modo de Usar & Co., da qual é editor e co-fundador, Domeneck estreou em 2005 com o elogiado Carta aos anfíbios. De lá pra cá, sua produção assumiu também formas performáticas – tanto em vídeos quanto em recitais –, mas em Ciclo do amante substituível o performático deixa de ser sinônimo de vocalização do texto escrito e se apresenta como questão de sustentação de uma voz poética numa posição de enunciação desafiadora. Dividido em cinco partes, e com poemas escritos entre 2006 e 2011, o livro percorre o ciclo do amor-desamor, a começar pelo “amante substituível”, passando pela deliciosa “arte de substituir o insubstituível” e chegando finalmente ao “Por que todo poeta sonha escrever seu próprio epitáfio” que retoma um dos poemas do seu livro anterior,Cigarros na cama, lançado discretamente pelas Edições Modo de Usar em 2011. Ali também havia morbidez melancólica filtrada pelo humor e, em ambos, o corpo e o corpo da linguagem se confundem: “a escrita / por cópula / de signos / em metamorfose / na Ilha / de Páscoa / após contacto /com europeus”. A língua comparece em sua dupla significação, é tanto o idioma que marca a distância entre o poeta e o ex-amor, quanto o músculo que ligava aqueles dois corpos. “destarte escrevo este texto na língua de que nem sílaba você domina, esta língua que é meu sistema de signos e também com o que o lambo, língua em que “vontade” é-me ao mesmo tempo aquilo que impera e aquilo que implora”. Como nos fragmentos amorosos de Barthes, o vivido é gerador de reflexões sobre as contradições do sentimento amoroso, que se traduz num tom deliberadamente contraditório, comicamente grandioso, em versos quase sempre breves e sonoros.

Às vezes o “eu” é objetivado na terceira pessoa e torna-se um “ele”, tal como indicam vários títulos: “Texto em que o poeta sente-se impelido a dizer a Jannis Birsner em Zurique o que Frank O’Hara quis dizer a Vincent Warren em Nova Iorque”. Que o leitor não se assuste diante da enxurrada de referências: “Nossa pátria era a língua de Maysa, / mas também a de Maki Nomiya, / e a de Björk, e a de Beth Gibbons”, ou: “Naquele tempo você carregava livros / de Ana Cristina Cesar, eu os de Hilda Hilst / que eu comungava com o mundo em catequese, / mas você recusava emprestar os de sua suicida”. A abundância de nomes citados não torna a leitura hermética, pelo contrário, convida o leitor a participar do ciclo de formação do poeta e é tratada com ironia pelo próprio autor quando escreve: “Nada, no fundo, / importa muito, Maria Schneider. / Em duzentos anos, / quando o acúmulo / de notas de rodapé / para esse meu texto / exceder o número / de caracteres / do próprio / para que possa / ser compreendido, eu também serei / punhado e opróbio / de pó e ossos / como você.” O que interessa é o modo como se articulam e se tensionam os mitos pessoais, leituras, lugares e afetos, de modo que parece dispensavel a inserção de algumas notas incluídas no fim do livro, onde o autor explicita suas fontes num tom explicativo que destoa da organicidade dos poemas.

É possível e talvez desejável ler esse livro como uma ficção poética em que Domeneck transforma a si mesmo em personagem tragicômico de uma trama lírico-reflexiva; um livro em que as relações afetivas e as referências artísticas formam uma massa de sentidos totalmente imbricados. Domeneck parece ter plena consciência de que da modernidade herdamos o anti-expressivismo e o duro divórcio entre poesia e lirismo. É verdade que os ataques ao transbordamento lírico livraram a poesia do sentimentalismo barato e das sublimações soporíferas, abrindo caminho a outros e mais potentes modos de usar. Mas como não deixar o bebê escorrer com água? A tão surrada lírica amorosa, tradicionalmente identificada com uma primeira pessoa do singular autocentrada, tem sido submetida a uma importante revisão crítica nas últimas décadas. Jean-Michel Maulpoix, por exemplo, sugere que o lirismo deixe de ser lido como uma poesia centrada no eu, e que se comece a perceber nela o incessante extravio do sujeito, a “saída de si” de um “eu” alucinado pela força de atração do objeto amoroso. Longe de ser uma forma inocente e impensada de lamento, sua poesia implica um forte trabalho de encenação. A emoção aí não é nem ingênua nem fingida, mas um ato profundamente performático. Trata-se de reconquistar liberdade poética na própria escrita do poema, colocando-se em risco, pois, como já foi dito, “a poesia como o amor arrisca tudo nos signos”. Ciclo do amante substituível mostra que um coração em frangalhos, cavalgado com brio e boas doses de humor, pode render alguns dos mais irresistíveis versos da nossa época.

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