quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Memória de antes cadáver, de Narjara Medeiros

A protagonista de Memória de antes cadáver encara o mundo com uma filosofia muito própria e singular. “Inigualável, inadaptável, indigna”, como bem se define, ela habita uma existência à margem, na periferia da humanidade, à sombra dos cadáveres. Estranha, alheia às convenções sociais, caminha pelas ruas acompanhada por uma solidão indissolúvel – e sua compreensão do mundo ora lança o leitor ao torvelinho da insensatez, ora inflama uma lucidez dolorosa.

Por meio do abismo pessoal desta narradora, Narjara Medeiros confirma seu dom de criar universos ficcionais riquíssimos, numa escrita que prima pela linguagem saborosa e pela força imagética, num enredo mirabolante. As peripécias desta personagem num mundo estranho e tão cruel quanto ela própria fluem num voo lisérgico de imaginação delirante – e são tão habilmente tecidas que enredam, absorvem e tragam o leitor em sua espiral, como só a boa literatura é capaz de fazer.


Leia um trecho de Memória de antes cadáver:

Tentava descobrir algo que fosse legitimamente meu, uma força que estivesse só dentro de mim, um traço que me definisse e me diferenciasse dos demais. Mas não, nada. Dentro de mim o imenso vazio. Dentro de mim um labirinto de paredes invisíveis. Não conseguia atingir essa semente no fundo do peito que as pessoas denominam “alma”. Por mais que procurasse, nada havia dentro de mim. Se não havia nada, como podia eu alcançar alguma coisa? Não sentia o meu corpo como unidade, um espetáculo singular com alma e perspectivas singulares. Considerava “esperança” uma palavra de dicionários, sem sentido aplicável na realidade. Pelo menos na minha realidade. Não conseguia delinear metas, traçar estratégias, não fui feita para carregar entre os ombros a conquista dos heróis. Não fui feita para ter sabedorias terrenas e extraterrenas. Sentia às vezes o cérebro do tamanho de um grão de mostarda. E às vezes não sentia o cérebro. O oco dentro da cabeça. Talvez fosse sensato procurar um médico que atestasse a ausência desse órgão fundamental e atestasse também o tamanho do meu absurdo.

Minha memória era um receptáculo de ventos e mentiras. Não conseguia decorar as informações que encontrava nos livros e jornais e isso me afastava das pessoas porque os temas de suas conversas versavam sobre os assuntos dos livros e jornais. Quando morria o dia morria em mim a experiência desse dia. Eu só decorava o necessário para a manutenção da existência imediata, onde conseguir comida, água, um lugar para defecar e urinar. No entanto me lembrava de algumas coisas, seguramente seis ou sete eventos que realmente aconteceram como verdades na minha vida de perdigoto. O resto me aparecia como um amontoado de ficções embaralhadas, inventadas pela imaginação sem talento. Não usei o amor como deveria, porque não tive ocasião para usá-lo. O meu coração era ineficiente também nessa parte romântica de receber e expressar afetos. E o amor exige a compreensão exata de si mesmo e depois do outro. Ou a motivação e o estímulo para as duas compreensões. E eu me considerava uma folha em branco onde nenhuma caneta pudesse derramar sua tinta, onde nenhuma cabeça pudesse derramar uma ideia. E o outro; uma sombra que sempre escapa.


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