sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

"Furta-cores", de Cristina Parga


Furta-cores é um daqueles livros que não é apenas para ser lido: é para ser saboreado a cada releitura, em todas as suas texturas, cores, perfumes e sons. Os contos de Cristina Parga nos levam a redescobrir o gosto da língua, num percurso pelas mais íntimas paisagens estrangeiras – revelando com delicadeza os encontros e desencontros entre as mais diversas solidões humanas.

Leia um conto de Furta-cores

O sol estoura as cores do vestido rosa, reflexos brilhantes. Tento tocar meu corpo mas o tecido se desfaz ao contato dos dedos, prata faiscando desfarelando em purpurina pálida. Os pés dançam inconscientes pela casa, pontas de bailarina em sapatilhas de cores pastéis, doces e doidas. O tom suave de gosto artificial, aspartame ácido no fundo da boca. Quando o açúcar se dissolve resta a química, ardendo fria a ponta da língua.

No torpor lisérgico, as cores invadem, embalam, encantam. Azul, rosa, roxo. Lilás como algodão-doce, adstringente como a alfazema. Rosa como o halls light morango, subindo cítrico na garganta. Azul dormonid, dissolvendo-se amargo no céu da boca.


Azul como aquelas hortênsias. Pequenas flores azuis do campo naquele jardim estranho de final de ano. As hortênsias azuis chamando à noite, úmidas na sua textura sonolenta, indecisa. Os casais dormiam nos outros quartos, ela descia descalça as escadas para o jardim madrugada adentro. A umidade colava o vestido à pele.


As flores chamam, mas ela não sabe o que elas dizem. Sem saber ela deita na relva molhada e esquece, todos dormem e ela acorda, pétalas úmidas do sereno, macias, aveludadas e suaves ao toque dos lábios. Acorda descalça na cama, os pés sujos de terra e o vestido rosa de manchas roxas e azuladas. Acorda sozinha. Acorda sem saber.

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