terça-feira, 28 de agosto de 2012

Jogo de varetas


Como no jogo que dá nome ao livro, brincadeira de criança, a escrita de Manoel Ricardo é precisa e afiada. Fala de amor, fala do encontro e da ausência, dialoga com artistas das mais diversas estirpes, e fala da vida: de toda a literatura que cabe nela.

Contar uma história, a tarefa a que os personagens de Manoel Ricardo de Lima se agarram, é forjar
uma possibilidade de vida. A narração proporciona, em certa medida, uma reinvenção de si, a partir da transformação do eu num outro – e do impossível em novamente possível. Quem se põe a contar sua própria história chega sempre a um ponto em que já não conta a própria história. A história e ele mesmo já são outros. Daí que a incapacidade de produzir narrativas seja percebida como um fardo: “Queria ter histórias”, lamenta o personagem de “Os comedores de pão”, “mas não tenho histórias, o que é um problema para mim”. Num dos textos mais fascinantes do livro, “Tabelionato”, um homem encera tábuas ao mesmo tempo em que escreve nelas. O seu gesto é mecânico; a sua vida se reduziu à repetição infinita desse gesto: ele se converteu numa verdadeira máquina de escrever. No entanto, se o único gesto que lhe resta é o de escrever, há esperança: como frisa o narrador, “escrever ainda é humano. – Verônica Stigger

"Jogo de varetas" e "As mãos"


Amor é tudo que nós dissemos que não era


Amor é tudo que nós dissemos que não era reúne uma seleção de poemas de 15 livros do romancista, poeta e ícone da cultura norte-americana Charles Bukowski. Organizada e traduzida pelo escritor Fernando Koproski, a antologia apresenta o melhor da poesia confessional, intensa e direta do velho safado que mistura amor, sexo e álcool em textos líricos e corrosivos que irão deleitar sua legião de fãs.

Uma definição

amor é uma luz à
noite atravessando o nevoeiro

amor é uma tampinha de cerveja
pisada no caminho
do banheiro

amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado

amor é o que acontece
uma vez a cada dez anos

amor é um gato esmagado

amor é o velho jornaleiro na
esquina que
desistiu

amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu

amor é o que desapareceu junto
com a era dos navios encouraçados

amor é o telefone tocando,
a mesma voz ou uma outra
voz mas nunca a voz
correta
(...)

As mãos



Lançado em 2003, numa pequena edição rapidamente esgotada, As mãos chega agora à sua terceira edição. Uma guerra, uma cidade e uma história de amor surgem das páginas deste romance de Manoel Ricardo de Lima, num pequeno e saboroso livro que transita entre as fronteiras imprecisas da narrativa e do poema. Objeto de várias intervenções de artistas de 2003 para cá, a obra foi redesenhando a sua sintaxe com outras vozes – e mantendo, como um móbile, o seu caráter de experiência móvel. Nesta nova edição há trechos suprimidos e reescritos que se aproximam dos contos de Jogo de varetas, lançado em simultâneo. A arte das capas, assinada pela artista portuguesa Rachel Caiano, reforça o diálogo entre as obras, embaralhando esses livros tão distantes no tempo. “É outro livro” – explica o autor – mas “continua a ser, para mim, uma guerra e um corte abrupto. Para Euré, no céu”.


As paredes explicam o corte, abrupto. Explicam que o tempo, a passagem, o esgotamento e o 
cansaço existem nas variantes desorganizadas de meu estado. Se vou ao espelho, a parte tensa 
se desfaz, apareço então como se a vida recomeçasse, um sujeito esguio, magro, com fome e 
sede, barba rala e fedorenta, olhos fundos, quase densos, distantes de um percurso que poderia 
dizer, num desvario provável, me exauriu desta vida, me exauriu pela guerra, pela falta dela, 
talvez, quem sabe, ao certo, e o que antes era uma dor que procurávamos orientar para não 
causar danos na existência do outro, de quem quer passasse aqui, na frente da casa, pela rua, 
ao lado, e que pudesse acenar desejando um sorriso, algo assim, hoje cobre intensamente minha 
vontade de não permanecer mais neste mundo, acho, creio, tenho quase certeza.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Lançamento revista Lado7 #3 em São Paulo


Este sábado, dia 2 de junho, a 7Letras estará em São Paulo lançando a revista Lado 7 #3 e os seguintes livros:

Rapapés e apupos, de Bruna Beber
Furta-cores, de Cristina Parga
Shazam, de Jorge Viveiros de Castro
Atacama, de Maria Cecilia Brandi,
Correnteza e escombros, de Olavo Amaral
O afeto ou caderno sobre a mesa, de Sabina Anzuategui


Local:  Livraria da Vila – Alameda Lorena, 1731, piso superior – São Paulo
horário: das 16h às 19h

"Atacama", de Maria Cecilia Brandi


Ao percorrer as páginas de Atacama, o leitor é transportado de seu confortável lugar de espectador para o território árido, perigoso, belo onde vibra sua poesia. Madri, América do Sul, Amsterdã são alguns dos cenários percorridos nesta escrita-viagem que, elíptica entretece narrativas, enquadramentos e diálogos – fundindo diferentes gêneros e estruturas em poemas vibrantes.
Cada linha molda a matéria volátil das emoções, modulando-as numa espiral de tensão, que se expande quando menos se espera, surpreendendo em sua força. Pequenos flagrantes do cotidiano são peças fundamentais neste tabuleiro poético, onde a autora experimenta, com habilidade no pulso e ousadia na voz, diferentes formas, temporalidades, gradações.
Com sensibilidade e precisão, os versos de Maria Cecilia desnovelam nós, revelando o que há de mais intenso, sereno e dolorido na cena mais comum – como só a verdadeira literatura é capaz de fazer.



Cité
Geometria secular desatropela hoje
as   pessoas   as coisas   a vida

Retas irradiam de circulares boulevards:
sóis que iluminam na terra

Metrópole cortada por cena do advogado
descalço lendo Huxley à beira do rio

Ritmo lento e duro esconde
velocidade subterrânea

Ruas que não renovam onde
o pêndulo suspenso foi em outra direção

Essência forte ou nada em finos corpos rosados
sobrepõe cheiros de vida acumulada

terça-feira, 17 de abril de 2012

"Correnteza e escombros", de Olavo Amaral

Em Correnteza e escombros, Olavo Amaral apresenta uma série de histórias que, esmiúçam o fantástico e dissecam os mais urgentes sentimentos e anseios humanos. Desejo, solidão e medos são temas explorados a fundo com sensibilidade e um olhar agudo sobre o íntimo do homem, com tudo o que há de mais comovente e assustador que lhe é característico. As narrativas curtas de Correnteza e escombros primam pela alta tensão psicológica, que cresce página a página e culmina em reviravoltas surpreendentes. Com uma escrita hábil e uma linguagem simultaneamente clara e rica, Olavo Amaral se destaca como uma das vozes mais autênticas e originais da produção literária contemporânea no país.

Leia aqui o conto "Superfície":

Viu-se cercado de repente pelo terror do movimento. Não chegava a compreender ainda o que deixara do outro lado do vidro, mas olhar de volta para dentro do aquário trazia um misto de dor e nostalgia encharcada de algo que ficava para trás. E depois de um período de transe confuso, em que tentou ainda permanecer, senão em contato com a água, pelo menos em sua cercania, foi arrastado pelo ruidoso fluxo da superfície: a tosse do guarda, a conversa das pessoas que o julgavam insano ao vê-lo ali parado, por fim a sineta que anunciava o fechamento do zoológico. Na rua, a velocidade dos carros quase o derrubou: resquícios da imobilidade ressurgiam no seu corpo em lapsos, e foi por detalhe que escapou do trajeto dos para-choques. Tomou o rumo de casa não soube bem como, pois não se lembrava de alguma vez ter estado lá. Mas mesmo a inexplicável certeza dos passos não impediu o desvio para um mergulho no Quai de la Tournelle, sob o olhar de um casal de bêbados indiferentes.
Em casa, a mulher que ele adivinhou ser sua recebeu-o com óbvio estranhamento, mas preferiu nada comentar. Trouxe roupas secas, pendurou as molhadas em frente ao forno e deixou o prato sobre a mesa, indo dormir receosa: não era a primeira vez que o marido se perdia em algum lugar da Rive Gauche e voltava sem uma boa explicação. No outro dia, na hora do café, ele comeu os sanduíches de queijo com apetite, mas não sem se perguntar por que não devorava também os insetos pendurados no teto do estúdio. Ao sair de casa, surpreendeu-se com sua convicção ao explicar à mulher que ia a um escritório que sequer sabia onde era; uma vez do lado de fora, no entanto, sua vontade foi mais forte e arrastou-o de volta ao aquário do Jardin des Plantes.
Lá chegando, deixou-se ficar inerte em frente ao antigo lar por horas. O silêncio úmido do corredor e o contato firme da barra de ferro contra o corpo traziam-lhe algum alívio, mas aquilo pouco representava frente à angústia de não mais pertencer ao lado de dentro. Por mais que tentasse, não conseguia retornar à paz que outrora o cercara: o menor dos sons o atormentava, fosse o gotejar da umidade nas paredes de pedra ou os tênues rugidos das feras no outro extremo do parque. Ao mesmo tempo, sabia que o sofrimento era mútuo, adivinhando o mesmo desespero, ainda que submerso e silencioso, nos olhos dourados da salamandra que o observava imóvel, com o corpo estirado contra a face oposta do vidro.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

"Luzia", de Susana Fuentes, no Caldo Literário do Baukurs

Amanhã às 19h30 haverá mais um Caldo Literário -- encontros de leitura, interpretação e degustação-- no Baukurs Cultural, em Botafogo. Desta vez, a atriz Deborah Evelyn irá ler e interpretar trechos do livro Luzia, de Susana Fuentes. Saiba mais sobre o evento no site do Baukurs Cultural.

Aproveite para conhecer um trecho de Luzia, romance da escritora Susana Fuentes.

Luzia sofre dessa mania de inventar a vida. Ali onde morre a luz, ou uma sombra treme, Luzia pisca os olhos, escolhe um tempo e dá vida à partitura. É assim que sem notar se perde. É por este estado de flerte com o mundo. Ela se deixa seduzir pelas coisas. Deixa-se beijar pelas coisas. O beijo fica impresso na beirada da boca. E a boca sussurra que não abre mão deste beijo, que a lavem com sabão, e ela se agarra firme nos bracinhos do beijo ali selado. No entanto, é preciso notar: a boca ainda não é a de uma mulher. Nem o beijo é o da paixão: a menina não cresceu. Seu estado de flerte é com o mundo, apenas. Com um homem, nunca. Joaquim Marino talvez seja a sua chance de não ter medo, ao seu lado, em Maraberto, ela cresce curiosa.

Ali-parece-que-Luzia-vai-ter-coragem-de-se-entregar-ao-amor-mas-o-caminho-é-duro-porque-Luzia-há-de-tropeçar-na-má-lembrança.

Se a deixa de fora, aquela tarde de chuva, deixa de fora seu coração também. Precisa trazê-lo de volta. Em Maraberto, a lembrança quer vir à tona com a certeza de que virá também a coragem, a coragem de existir, na cidade de Esperanza.

Chove lá fora. Com o coração aquecido, no quarto de hotel em Maraberto, Luzia fecha os olhos e vê os tijolos sob a escada, os rolinhos de papel. A lembrança deles na volta da escola antiga, aos treze anos. A lembrança deles quando começou a pensar na viagem a Maraberto. Agora que já viajou até lá, a lembrança da lembrança. Luzia fecha os olhos e deixa vir a tarde dos seus treze anos, a lembrança escondida. Seu pensamento voa para o esconderijo de antes. Antes dos tijolos, o esconderijo era a árvore. Seu esconderijo. Naquela tarde de chuva, é para lá que se vê correndo. Ou não corre, anda sem rumo, o vestido está todo molhado. O molhado é vermelho, é água cor de tinta, é a água sem cor e gelada, a que escorre dela. Quente, vermelha, branco também. Continua a chover. O leite branco na perna, não sente dor, nada sente. Só o gelado da água, não quer tocar o chão, levanta no ar um joelho, depois o outro. Ninguém com quem conversar. Sobe na árvore, o joelho no ar, um e outro. Lá em cima, chora, no galho mais alto, seu esconderijo, chora uma dor sem culpa, não tinha mais um corpo seu.

terça-feira, 27 de março de 2012

Lyrikvännen: edição especial Brasil

A revista de poesia sueca Lyrikvännen preparou uma edição especial sobre poesia brasileira. Organizada por Marcia Schuback e Magnus Olsson-William, a seleção conta com poemas de Simone Brantes, Ricardo Domeneck, Laura Erber, Marilia Garcia, Afonso Henriques Neto, todos autores da 7Letras.

Marcia Schuback é professora titular de filosofia na Södertörn University, em Estocolmo. É autora de Olho a olho: ensaios de longe (7Letras, 2011).

A solidão presente na vida e na morte

Resenha de O primeiro dia da segunda morte, de Mara Bergamaschi
Por Ronize Alin, no Prosa & Verso

Nem tudo é o que parece. Esse seria um bom subtítulo para “O primeiro dia da segunda morte”, romance de Mara Bergamaschi que será lançado nesta quarta-feira, dia 14, às 19h, na Travessa de Ipanema (Visconde de Pirajá 572). À primeira vista, um livro despretensioso; no entanto, à medida que a leitura avança, revela-se muito mais complexo, quase a fazer troça dos que ousaram acreditar na sua simplicidade inicial. Poderia-se dizer que o livro trata da morte e da solidão que a acompanha: “Pensavam que eram dores, mas não, era tão somente a perdição, a desesperança, a impossibilidade de retribuições e recomeços, a solidão do fim da vida.” Mas, para além da morte, o livro fala da vida, da mesma solidão também ali presente (“nunca deixei de temer a separação e o abandono”) e das tentativas — bem-sucedidas ou não — de reescrevê-la.



Ter uma segunda chance, viver após a primeira morte o que não se conseguiu viver em vida: essa parece ser uma ideia por demais tentadora. Um acerto de contas com o passado. “Planejei a permanência do meu eu ideal, não do real.” E ter como testemunha ninguém além de uma “menina que não cresce”, personagem emblemática cujo papel a cumprir no destino de Mariana, a protagonista, é uma das agradáveis surpresas do livro.

Uma (im)provável segunda morte serviria para que ela relembrasse seus tempos de nobreza, a vida na corte, e revisitasse o que aconteceu na (e após) sua primeira morte. No entanto, o que encontra é apenas esquecimento: sem rastros, sem marcas, sem sinal de sua passagem por essas terras. “Vejo que meus esforços para preservar minhas origens foram em vão: no meu caso, não houve limites para o esquecimento.” E essa é a verdadeira morte.

A escrita segura e precisa de Mara — que lançou em 2009, também pela 7Letras, o livro de contos “Acabamento” — está ali, desde o primeiro parágrafo, quando já de cara somos instigados a procurar o que existe além de: “Ninguém, nem mesmo quem já está morto, gosta de levar um tiro no peito”. O que muda é o andamento do texto. Se fosse uma sonata, “O primeiro dia...” começaria como um adágio, já que, de forma lenta e gradual, a história vai se apresentando ao leitor. Um andamento lento, de aproximação, de “acomodação” (o termo italiano deriva de “ad agio”, que significa comodamente). Narrativa e leitor estão se acomodando um ao outro.

O texto avança e, com ele, o ritmo. Da metade para o final o adágio vai sendo substituído pelo vivace, um andamento mais rápido, capaz de alterar até mesmo a respiração do leitor para que ele possa acompanhar a escrita cadenciada e as reviravoltas que a autora prepara. Enquanto a primeira parte é lida de forma serena, imergindo pouco a pouco na vida da Condessa Lussac, que nasceu numa fazenda no interior do Brasil, casou-se com um nobre e foi viver em Paris, a segunda é lida de forma entusiasmada, ávida por desvendar quão astuta e audaciosa era Mariana — Dana para os mais chegados —, que sempre se sentiu deslocada na vida de luxos que a própria vida lhe reservou.

Tal qual uma Penélope moderna, Mara vai costurando e descosturando sua história enquanto deixa pistas, rastros pelo caminho, para que possamos juntar os retalhos. “Da primeira vez, morri mais velha, aos 44 anos...”, diz a protagonista em determinado momento, para, mais tarde, emendar “Doença, tristeza ou suicídio, um depois do outro ou tudo junto, não importa: o fato é que não foi difícil morrer quando ainda era uma jovem senhora.” E o que temos à nossa frente é um instantâneo daquilo que, na realidade, demorou anos para acontecer. “Amadurecera: nem entusiasmo com o mundo interior nem sofrimento com o exterior. Engana-se quem pensa que isso se chama sabedoria. O nome certo é morte”, diz Mariana. E quando pensamos que finalmente compreendemos suas decisões, há um novo (des)fazer dessa trama. E assim amadurece Mariana, ainda que precise morrer uma primeira vez para que isso aconteça, e amadurece Mara, num texto que vai ganhando em intensidade.

Escrita na forma de um fluxo de consciência, a narrativa traz pensamentos, lembranças, desejos, dúvidas, digressões de uma personagem construída a partir de uma complexidade tão própria dos seres de carne e osso: “O estranho é que queria desaparecer e, ao mesmo tempo, ser lembrada”. Mas a história vai muito além do que está sendo contado, e algo ainda mais perturbador vai aos poucos vindo à tona. E falar mais seria revelar a carta na manga. Ou, nesse caso, o último e perfeito retalho costurado aos demais. Já que nem tudo é o que parece.

sexta-feira, 16 de março de 2012

"A dor dorme com as palavras", de Mariana Camilo de Oliveira


Em A dor dorme com as palavras, Mariana Camilo de Oliveira mergulha na obra de Paul Celan, conduzindo o leitor com paixão e rigor pelos pontos-chaves da escrita deste autor que, desafiando Adorno, reinventou a poesia em alemão após o Holocausto. Evitando o biografismo e a historiografia – armadilhas fáceis na leitura de um poeta que perdeu os pais num campo de concentração e se suicidou no Sena –, a autora reflete sobre o impacto da dor, da catástrofe e sobre a relação entre o trauma e o real na escrita de Celan. Uma relação que desafia os limites da representação, nutrindo a escrita e fazendo da poesia a porta-voz do indizível. Unindo sensibilidade ao apurado estudo de fontes, este livro abre portas e ilumina um universo poético vertiginoso; mais do que tentar decifrá-lo, cada página o amplia, fazendo ecoar o seu silêncio.

Leia um trecho de A dor dorme com as palavras  – A poesia de Paul Celan nos territórios do indizível e da catástrofe:


Pesadez
conduzida pelo silêncio
Paul Celan – A morte é uma flor.

Com essas palavras fala a poesia da qual nos aproximamos. As silenciosas, leves, insonoras e, simultaneamente, de peso talvez material – “um íntegro silêncio, uma pedra” –, que engendram a dor em seu interior, feridas, cicatrizes, coágulos, “palavra-limiar”, da qual se deseja ser retirado “feito casca”. São as palavras que, como o poeta, fizeram a travessia “sem saída, no beco da História” do século xx. Que deixam em suspensão a possibilidade do dizer. Perpassadas de impossibilidades – indizíveis –, contudo, escritas.


É nesse beco da História que viveu Paul Celan. Pseudônimo anagramático e literário de Paul Antschel, nasceu na cidade romena de Czernowitz, Bucovina (hoje pertencente à Ucrânia), aos 23 de novembro de 1920, filho de judeus falantes de alemão. No ano de 1942, os pais de Celan foram deportados para um campo de extermínio em Michailowka e ali morreram. Celan foi deportado para um campo de trabalho onde
esteve durante 18 meses. Residiu em Bucareste, onde trabalhou como tradutor e leitor em uma editora, em Viena, até estabelecer-se em Paris, em 1948. (...) 


A poesia celaniana é, antes, vazia, elíptica, avessa à pretensão de completude, fraturada, deixa apenas vestígios e restos daquilo que escapa à simbolização. A leitura se dá num local de permanente risco: o leitor,
frequentemente, não sabe como reagir diante da obra de um autor que experimentou o traumático ou irrepresentável.

Paul Celan, um realista singular

A dor dorme com as palavras, de Mariana Camilo de Oliveira, é destes ensaios que conseguem simultaneamente ser um trabalho feito com paixão e com rigor. Não é fácil estudar a poesia de Paul Celan, um dos melhores poetas do século xx, mas também, reconhecidamente, um autor complexo, que demanda maturidade e estudo daqueles que se aproximam de sua obra. Neste ensaio, percebemos como sua autora enfrenta essa dificuldade aliando disciplina e apurado estudo das fontes primárias e secundárias a um enorme respeito aos poemas. O resultado é uma escrita enxuta, econômica, que, sem mimetizar seu autor-tema, permite uma inteligente aproximação reflexionante. O teórico e crítico literário tem que ser capaz de abrir portas, de iluminar, de perspectivar a obra estudada. Tudo isto acontece neste ensaio, sem a pretensão ou o vão desejo de ter encontrado alguma maravilhosa “chave de interpretação”. Para um autor que desfaz a hermenêutica, tentar enfrentá-lo com a ideia de decifração seria a receita certa para o fracasso.

Antes, Mariana Camilo de Oliveira propõe uma série de movimentos de aproximação e distanciamento do texto, desenhando uma coreografia de leitura que aos poucos leva o leitor ao âmago de várias questões fundamentais quando se trata dos poemas de Celan. Ela evita o biografismo, mas sabe respeitar o teor testemunhal da obra de um poeta que modelou seus poemas com a argila, a terra e as cinzas da época que lhe foi dado viver.

(...)

Márcio Seligmann-Silva, texto de apresentação de A dor dorme com as palavras, de Mariana Camilo de Oliveira. 


terça-feira, 13 de março de 2012

"O primeiro dia da segunda morte", de Mara Bergamaschi

Um tiro assinala a segunda morte de Mariana, atingindo violentamente seu coração, que há muito já não batia. Até então, a eternidade era sempre igual: décadas deslizando pelos corredores do palácio em seus sapatos de cetim, sendo mera espectadora do mundo dos vivos. Vendo e sendo vista apenas por uma menina estranha, igualmente silenciosa e invisível. Agora, ela não sabe o que irá acontecer – só sabe que terá de deixar os limites do palácio, o cenário de beleza e ilusão em que se refugiou – e enfrentar o mundo.

Com rara delicadeza e perícia na arte da escrita, Mara Bergamaschi cria uma biografia imaginada, uma “história fantasmagórica-filosófica de muitos anos em um só dia”. E tece com engenho uma narrativa que une a vida, a morte e a imaginação de duas jovens solitárias, separadas no tempo por mais de um século.


Leia um trecho de O primeiro dia da segunda morte, de Mara Bergamaschi:

Além de absurda e indigna, minha segunda morte neste iní­cio de terceiro milênio foi também injusta. O tiro me acertou aos vinte e poucos anos, no auge da beleza, os cabelos negros, fortes e longos, penteados em trança. Da primeira vez, morri mais velha, aos 44 anos, não souberam exatamente de quê, tan­tas eram as enfermidades indomadas. Mas tive uma morte que poderia chamar de natural, tranquila, na hora mesma do sol poente. Estava deitada em minha cama de dossel e pude con­templar pela janela os verdes montes já desnudos antes de o imenso cansaço me fechar definitivamente os olhos. Ao meu lado, meu marido, que tateava ansiosamente minhas mãos frias, dois doutores e o padre. Também os tempos eram outros, outro lugar, outras condições; eu, outra.

Na verdade, minha primeira morte foi calma, mas, é pre­ciso dizer, terrível. Morrer é algo imensamente triste para quem parte. Nas últimas horas, não resistia ao menor toque, à mais leve carícia. Qualquer contato humano, qualquer sinal de amor, fazia-me chorar, no início mansamente, depois com todas as minhas últimas forças. Pensavam que eram dores, mas não, era tão somente a perdição, a desesperança, a impossibilidade de retribuições e recomeços, a solidão do fim da vida.

(...)Mas não contava com esta segunda e estúpida morte: ela traz de volta, de uma só vez, minhas mais fortes lembranças. A verdade é que não gosto muito de pensar no fim da minha vida. Sempre que isso acontece, sinto-me tentada a romantizar a rea­lidade, apagar a tristeza e o desespero, idealizar meu passado, em nome da beleza. Minha vontade é rememorar apenas a parte da minha vida que, se contada, pareceria um conto de fadas. O reino encantado da aparência. Quem gostaria de olhar para trás e ver um quadro de mesquinharias e banalidades? Existem coisas que, mesmo depois da morte, é melhor esquecer. Então,

segunda-feira, 5 de março de 2012

"Ciclo do amante substituível" no Prosa & Verso

Resenha de Ciclo do amante substituível, de Ricardo Domeneck
Prosa & Verso de 3/03/2012
Por Laura Erber

O poeta é um fingidor. O poeta não presta. O poeta já era. O poeta é um lixo. É um sismógrafo, sedutor, bandido, antena da raça. O poeta é uma graça. O poeta é sexy mas pode ser cruel. É delicado mas pode até morrer. Desde que foi posto pra correr da República de Platão o poeta não parou de despertar paixão e ódio, desconfiança, indiferença, alguma fofoca, sussurros, gritos e curiosidade. Mas afinal, o que pode e o que não pode o poeta? Em teoria, ele pode fazer e dizer tudo, mas na realidade da poesia e do seu sistema de valores, nem tudo pode ser dito ou feito. Há um acordo tácito que interdita certos temas e certas formas de dizê-los. Por exemplo: a confissão amorosa, a autobiografia deslavada e a elegia hedonista, até segunda ordem, continuam proibidas. Ao menos é essa a postura dos que ainda acreditam que força poética e matéria afetiva sejam termos antagônicos.

Pois Ricardo Domeneck, poeta, editor, tradutor e Dj, acaba de lançar um livro irresistivelmente lírico e extremamente bem urdido. Ciclo do amante substituível, editado pela 7 Letras, é um belo atrevimento. E não apenas pela alta voltagem homoerótica de certos poemas, mas porque vem balançar alguns pressupostos sobre os quais ainda se ancora boa parte da poesia produzida entre nós. Em tempos de excessiva espetacularização da intimidade, quando nem mais o cronista quer tocar o mundo sem antes invocar papai, mamãe e titia, a questão que se coloca logo de saída a este livro é: como criar uma voz profundamente lírica sem aprisioná-la na armadura tediosa do “eu mesmo”, no redundante narcisismo nosso de cada dia. Domeneck consegue desfazer essa armadilha transitando entre escombros de espelhos, mal-estar, exaltações, mitos literários, e atrizes mortas. Sem medo de mesclar referências atualíssimas e formas arcaicas – especialmente a elegia e a ode - sua poesia avança em ritmo frenético, hipnotizada pela sombra perturbadora do amor ausente, e sob o risco de se perder no fundo sem fundo da fossa. Recusando as facilidades do cinismo contemporâneo, mas rindo de si mesmo enquanto chora, o lirismo confessional desse livro parece ter saído diretamente dos versos de Drummond: “amar o perdido / deixa confundido / este coração”.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Entrevista com Narjara Medeiros


O site PodlLer esteve presente no lançamento paulista de Memória de antes cadáver e entrevistou a autora Narjara Medeiros:


BATE-BOLA COM NARJARA MEDEIROS
A fim de conhecer um pouco mais a respeito do romance Memória de Antes Cadáver e sua autora, também fizemos um pequeno bate-bola com a Narjara Medeiros. Vale a pena conferir!

PODLER: Como surgiu a ideia para o título do seu romance, Memória de Antes Cadáver?

NM: O título nunca surge inteiramente num rompante de inspiração, ele é sempre trabalhado, manuseado até a exaustão, como o próprio texto literário. Eu penso em algumas palavras que poderiam ser usadas, palavras que naquele momento me seduzem, então durante dias combino essas palavras com outras, como um alquimista que se esforça para reproduzir a química do ouro. Por exemplo, durante a escrita do primeiro livro gostava da palavra “rasteira”, e mais tarde a palavra “caniço” me seduziu sobremaneira. “Caniço” é uma palavra bonita, gosto da sua aparência de mistério e demência e de seu significado simplório. Queria um título que combinasse as duas palavras, então apareceu “rasteira no campo de caniços”. Quanto a “memória de antes cadáver”, a primeira palavra que surgiu em minha consciência foi “cadáver”. Outra palavra que considero forte e bonita. Então devido ao descortinar do texto, ao desenrolar das imagens dramáticas, que se materializaram em forma de memórias, me ocorreu o título completo. Tentei que o segundo título fosse sobretudo fácil, pois o primeiro as pessoas não sabiam o significado da palavra “caniço”. É estranho o
fato de palavras desconhecidas provocarem sensações desagradáveis, em vez de provocarem o contrário, ou seja, a surpresa e a curiosidade. Algumas pessoas tem medo de palavras. Você diz “cutelaria” e a pessoa
fica amuada, se esgueira e corre para longe. Uma palavra estranha é como uma arma engatilhada. É uma pena, pois as palavras estão desaparecendo.

PODLER: A protagonista do seu livro vive um tanto à margem da sociedade, ou até da humanidade. Esse tipo de existência a transforma em heroína, de alguma maneira?

NM: É curioso pensar no conceito de “heroísmo”. Penso que existe na condição humana, impregnado no mais profundo do Ser, uma inclinação para o heroísmo. Assim como estamos essencialmente formatados para comer e defecar. Dessa maneira, qualquer manifestação humana será potencialmente carregada de heroísmo. Da forma como vejo hoje, a personagem do romance realiza o seu heroísmo em segredo, sobrevivendo numa sociedade onde não se sente à vontade. Como exercer o heroísmo num ambiente onde você se sente estrangeiro? Como salvar aqueles que você deseja ver decapitados? Não a vejo como uma heroína no sentido clássico, de promover um grande acontecimento, mas no sentido de manter o equilíbrio numa corda de espetos.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Cida no shopping

Cida no Shopping
José Castello

Entre os contos de "Todo amor tem seu dia de punhal", de Cida Sepulveda (7 Letras) um deles descreve com especial perfeição o impasse que todo escritor vive diante da folha em branco. Chama-se "Diálogo no escuro", ocupa praticamente só uma página, a 22, mas tem a potência de um explosivo.
Resumir um conto? Tentarei, apenas tentarei. Caminhando por um shopping, uma mulher (Cida?) procura por um "segredo". Ele se esconde no fundo do shopping. O segurança lhe aponta a porta de entrada e avisa que, com aqueles sapatos, não conseguiria "entrar lá dentro". Não é fácil pisar um segredo _ não é fácil caminhar pelo desconhecido. Sapatos sociais, "de shopping", são insuficientes para a grande aventura. O segurança lhe adverte.
A mulher lhe pergunta como é o piso no interior do "segredo". Ele responde: "Terra. Terra solta e vermelha". A mulher resolve avançar descalça: um segredo exige um certo desnudamento. É preciso que você se dispa do conhecido, que se iguale um pouco ao que ignora, que tenha forças nas pernas, e equilíbrio, e crueza, ou não avançará. A mulher tira os sapatos. Olha para o segurança e pensa: "Quer me ferrar". Todo "segredo", como nos relatos de Franz Kafka, tem à porta um enigmático sentinela. Enigmático e ameaçador.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Shazam




Que a fantasia seja colorida. Ou de outro planeta. Ou mesmo se algum acidente bizarro – como a picada de um inseto radioativo – de repente acontecer.
O mais importante é também o mais fácil: a identidade secreta. Quando ela disfarça a fantasia, qualquer um de nós pode ser o herói. Às vezes basta apenas descobrir qual a palavra mágica, e – shazam! – revela-se num raio a chave de todos os abracadabras. Então partimos invulneráveis num voo infinito, consertando o mundo e as injustiças.
Talvez cada um tenha sua própria e única palavra (repito baixinho, shazam!, ou exclamo em alto e bom som chamando a chave que não acho, ou grito em silêncio, shazam, shazam!, enquanto não aprendo o som exato, antes que seja tarde), e possa o impossível ao dizê-la. Talvez bastasse saber qual fosse, sem jamais proferi-la – e mesmo assim tudo estaria dito nesse silêncio contido, todas as canções e frases e acontecimentos e histórias, todas as combinações de possibilidades e todos os universos paralelos ou alternativos, reais e imaginários, que pudessem ser narrados. Talvez no silêncio desta palavra jamais descoberta esteja o instante mágico da epifania ou da transformação que nos revela por dentro: como não se diz.


Trecho do livro Shazam.

"Furta-cores", de Cristina Parga


Furta-cores é um daqueles livros que não é apenas para ser lido: é para ser saboreado a cada releitura, em todas as suas texturas, cores, perfumes e sons. Os contos de Cristina Parga nos levam a redescobrir o gosto da língua, num percurso pelas mais íntimas paisagens estrangeiras – revelando com delicadeza os encontros e desencontros entre as mais diversas solidões humanas.

Leia um conto de Furta-cores

O sol estoura as cores do vestido rosa, reflexos brilhantes. Tento tocar meu corpo mas o tecido se desfaz ao contato dos dedos, prata faiscando desfarelando em purpurina pálida. Os pés dançam inconscientes pela casa, pontas de bailarina em sapatilhas de cores pastéis, doces e doidas. O tom suave de gosto artificial, aspartame ácido no fundo da boca. Quando o açúcar se dissolve resta a química, ardendo fria a ponta da língua.

No torpor lisérgico, as cores invadem, embalam, encantam. Azul, rosa, roxo. Lilás como algodão-doce, adstringente como a alfazema. Rosa como o halls light morango, subindo cítrico na garganta. Azul dormonid, dissolvendo-se amargo no céu da boca.


Azul como aquelas hortênsias. Pequenas flores azuis do campo naquele jardim estranho de final de ano. As hortênsias azuis chamando à noite, úmidas na sua textura sonolenta, indecisa. Os casais dormiam nos outros quartos, ela descia descalça as escadas para o jardim madrugada adentro. A umidade colava o vestido à pele.


As flores chamam, mas ela não sabe o que elas dizem. Sem saber ela deita na relva molhada e esquece, todos dormem e ela acorda, pétalas úmidas do sereno, macias, aveludadas e suaves ao toque dos lábios. Acorda descalça na cama, os pés sujos de terra e o vestido rosa de manchas roxas e azuladas. Acorda sozinha. Acorda sem saber.

Lançamento de "Rapapés e apupos", de Bruna Beber

Rapapés & Apupos reúne poemas escritos por Bruna Beber entre 2000 e 2005. Num formato especial (12x18), a nova aquisição da série de poesia da 7Letras traz poemas como “Paulo do almoxarifado”, “discotecas help” e “A paixão é uma altura”, acompanhados por desenhos de Francine Jallageas. Publicado originalmente numa tiragem numerada de 50 exemplares pela Edições Moinhos de Vento, em 2010.

Leia um poema de Rapapés e apupos:

Paulo do almoxarifado

meu coração marinheiro
e sertanejo quer rimar
amor com barco, cheiro
de mar e cheiro de mato
com moda de viola
e garrafão de vinho
ser pirata no farol
e na roça
pra dentro
pra fora
duma moça prendada.

Lançamento dos livros de Ricardo Domeneck e Marília Garcia

Neste sábado, dia 28 de janeiro, Ricardo Domeneck autografa o seu novo livro de poemas Ciclo do amante substituível  e Marília Garcia o seu Engano Geográfico  num lançamento em dupla no Baukurs Cultural, em Botafogo.

O evento vai contar com leituras poéticas de:

Lu Menezes
Alice Sant'Anna
Luca Argel
Ricardo Domeneck
Marília Garcia

Ouça aqui alguns poemas de Lu, Marília e Alice, em áudio gravado no nosso estúdio:

Uma nova beleza, de Lu Menezes
O calco da sua bicicleta, de Marília Garcia
Quarto de hotel, de Alice Sant'Anna

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Engano geográfico, de Marília Garcia

Engano Geográfico é mais que um poema: com seus deslocamentos no tempo e no espaço, Marília Garcia explora em seu novo livro as fronteiras da linguagem – criando uma narrativa poética e uma cartografia íntima muito especial, com suas paisagens, histórias e cenários que soam musicais à primeira leitura.

Leia um trecho de Engano Geográfico:

os mapas podem se sobrepor
e acontecer de se cruzarem em rímini
mas combinam antes no deserto de atacama dali a 50 voltas
porque se mapas podem ser sobrepor
sabe que o tempo não dobra
apenas se vier o acaso fundamental
assim
para nossos espaços se cruzarem
outra vez na vida
e podermos nos reencontrar
é preciso que um acaso fundamental
sobreponha dois mapas
ignorando as montanhas e os acidentes
e que faça um sol
como naquele dia em que o trem seguiu na
direção contrária e que você parta no dia certo
depois de esperar vários anos
ela sabia que era assim
e um homem ficava sentado escondido atrás do muro
esperando eternamente o acaso
e tentando controlar a direção dos trens
na estação não encontra o bilhete para perpignan
onde eu retiro o bilhete para perpignan
você sabe onde fica perpignan
onde eu retiro o bilhete para perpignan
pergunta a um casal de estrangeiros
mas eles não entendem
um casal de estrangeiros olhando para você
você comprou com a carta azul pergunta uma moça bem jovem
seu nome não aparece na lista de passageiros ela diz

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Lançamento de "Memória de Antes cadáver" (SP)


Dia 31 de janeiro haverá o lançamento em São Paulo do romance Memória de antes cadáver, de Narjara Medeiros. O evento será na Livraria da Vila (Pinheiros) a partir das 18h30.

Memória de antes cadáver, de Narjara Medeiros

A protagonista de Memória de antes cadáver encara o mundo com uma filosofia muito própria e singular. “Inigualável, inadaptável, indigna”, como bem se define, ela habita uma existência à margem, na periferia da humanidade, à sombra dos cadáveres. Estranha, alheia às convenções sociais, caminha pelas ruas acompanhada por uma solidão indissolúvel – e sua compreensão do mundo ora lança o leitor ao torvelinho da insensatez, ora inflama uma lucidez dolorosa.

Por meio do abismo pessoal desta narradora, Narjara Medeiros confirma seu dom de criar universos ficcionais riquíssimos, numa escrita que prima pela linguagem saborosa e pela força imagética, num enredo mirabolante. As peripécias desta personagem num mundo estranho e tão cruel quanto ela própria fluem num voo lisérgico de imaginação delirante – e são tão habilmente tecidas que enredam, absorvem e tragam o leitor em sua espiral, como só a boa literatura é capaz de fazer.


Leia um trecho de Memória de antes cadáver:

Tentava descobrir algo que fosse legitimamente meu, uma força que estivesse só dentro de mim, um traço que me definisse e me diferenciasse dos demais. Mas não, nada. Dentro de mim o imenso vazio. Dentro de mim um labirinto de paredes invisíveis. Não conseguia atingir essa semente no fundo do peito que as pessoas denominam “alma”. Por mais que procurasse, nada havia dentro de mim. Se não havia nada, como podia eu alcançar alguma coisa? Não sentia o meu corpo como unidade, um espetáculo singular com alma e perspectivas singulares. Considerava “esperança” uma palavra de dicionários, sem sentido aplicável na realidade. Pelo menos na minha realidade. Não conseguia delinear metas, traçar estratégias, não fui feita para carregar entre os ombros a conquista dos heróis. Não fui feita para ter sabedorias terrenas e extraterrenas. Sentia às vezes o cérebro do tamanho de um grão de mostarda. E às vezes não sentia o cérebro. O oco dentro da cabeça. Talvez fosse sensato procurar um médico que atestasse a ausência desse órgão fundamental e atestasse também o tamanho do meu absurdo.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Textualidade: Modos de Usar


Nesta quinta-feira, dia 26 de janeiro o MAM receberá o Textualidade: Modos de Usar, evento em que os poetas Ricardo Domeneck, Victor Heringer, Ismar Tirelli Neto, Marília Garcia + Dimitri Rebello e Joel Gibb se reúnem para uma noite de leituras, vídeos e canções.

Aproveite para ouvir aqui alguns poemas de Marília Garcia, Victor Heringer, Ismar Tirelli Neto na voz dos próprios poetas, em áudios gravados no nosso estúdio para o lançamento da nova série de poesia da 7Letras:

Preocupações épicas, de Ismar Tirelli Neto 
Posições desconfortáveis, de Victor Heringer 
É uma Love story, de Marília Garcia 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Ciclo do amante substituível


Ciclo do amante substituível é o quinto livro de Ricardo Domeneck, poeta e tradutor paulista radicado em Berlim. No aguardado volume, Ricardo apresenta 72 textos escritos entre 2006 e 2011 em cidades como Budapeste, Buenos Aires, Lisboa, São Paulo, Berlim – numa poesia que trabalha oralidade, escrita e performance em seu texto, borrando fronteiras geográficas, linguísticas e artísticas.


Leia um poema de Ciclo do amante substituível

Teu ex-máquina

Dom
Casmurro c’est moi
por tentar diálogo
com os fantasmas dos natais
passados.
Nem “pré” nem “proto”,
és o ismo no Manifesto
do Allegro
Ma Non Troppo,
extemporâneo & externo
em excisão de apêndice
de prefácio em peça
de um ato, conheço
a trama
das minhas unhas
que sempre crescem
em direção
à exit do ex
oxigênio.
Criatura hábil no ex-
pectorar-me,
admiro a graça
elefantíaca
com que ejectas
os obstáculos,
sem transplante
volto o rosto
e vejo, num instante,
não Eurídice
evaporar-se,
mas Hades
explodir em riso:
don’t mind
me, eu me
infecciono
à toa e só
hoje
entendo sincronia
histórica: diá-
logo com monólogo
de ex à distância
de telefone, quando
qualquer dia
é pós-tudo.
 

satara