terça-feira, 20 de setembro de 2011

Marcelo Cid e Cezar Tridapalli na edição de Setembro do Rascunho

O jornal literário Rascunho dedicou sua edição de Setembro a dez novos romancistas brasileiros. A lista inclui dois autores da 7Letras: Cezar Tridapalli (Pequena biografia de desejos) e Marcelo Cid (Os Unicórnios).

Ao lado da digressão, Marcelo Cid vale-se com igual competência da ironia, lançada de maneira refinada para quase sempre camuflar uma acidez de caráter machadiano. Talvez seja impossível não comparar o estreante ao Velho Bruxo no que tange ao uso da referida técnica, mas o cotejo não é necessariamente um expediente de fácil submissão do novato ao canônico, principalmente porque o autor soube dar ares novos a uma característica antiqüíssima, tomando como seu algo que é de muitos, como diz o próprio narrador (“Ora, mesmo em literatura, louvamos em autores clássicos artifícios que julgamos ridículos nos que vieram depois”).
(Prosador fingidor, por Marcos Pasche)

Até que ponto a biografia é dos desejos? É um questionamento que pode ser feito sobre a propriedade do título do romance. Desidério vem de desejo, é um ser desejante como as outras criaturas que com ele contracenam. Mas isso será suficiente para defini-lo? As histórias que aqui se narram falam de desejos, mas também de frustrações, de incomunicabilidade, da inércia frente aos obstáculos que a vida inexoravelmente impõe. Que papel teriam os desejos nesse conjunto paradoxal de sentidos, sentimentos, paralisações, ações e reações? Que expectativas do leitor são satisfeitas ou frustradas nesse processo? Cabe, estabelecer as diferenças entre surpresas produtivas e hermetismos impenetráveis. Neste sentido o narrador de Tridapalli esforça-se para garantir coerência em meio a tantos paradoxos.
(A reinvenção da vida, por Vilma Costa)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Cenas de infância no interior


Romance de formação de Elias Fajardo explora a Zona da Mata mineira

(Ronize Aline – O Globo, caderno Prosa & Verso, 10 de setembro de 2011)

Não importa em que lugar, em que língua, se sob o frenético cotidiano de um centro urbano ou na aridez de um sertão distante: a passagem da meninice para a adolescência é sempre cumprida na ânsia de deixar definitivamente para trás os resquícios da infância. E é dessa urgência universal que se tem ocupado o romance de formação, gênero que se dispõe a tentar captar esse momento de fugidia compreensão e traduzi-lo em palavras. O romance de formação (ou Buldungsroman, em alemão) retrata de que forma fatos e acontecimentos externos agem sobre o protagonista, e seus efeitos sobre a gradativa formação interior do mesmo.

À aridez da realidade, contrapõe-se a imaginação
“Ser tão menino”, de Elias Fajardo – que será lançado na próxima quinta-feira, dia 15, a partir de 19h30m, na Moviola (Rua das Laranjeiras 280/Loja B) – , situa-se nessa tradição ao lançar um olhar carinhoso (mas nem por isso condescendente) sobre o menino, assim mesmo, sem nome, que vive na pequena Tebas, situada na Zona da Mata mineira, mas que poderia estar em qualquer lugar do mundo. Para virar moço é preciso, antes, enfrentar não só o “sertão proibido das Gerais”, como também aquele sertão íntimo onde os desejos secam antes mesmo de virarem lembrança. Mas à aridez da realidade nosso personagem contrapõe uma imaginação farta, e constrói memórias que correm soltas em busca de uma mocidade que acredita reservar-lhe grandes promessas. Dos passeios de charrete e jogos infantis, ele parte em busca de sensações desconhecidas, com o primeiro gozo, e experiências que o joguem de vez na mocidade.

Fajardo impinge à escrita a mesma urgência do menino, poupando o texto de supérfluos e fazendo-o jorrar num fluxo constante pontuado por metáforas e figuras de linguagem. O narrador se permite viver a imaginação do menino e contá-la como se história fosse e, assim, transformá-la em memória tal e qual os fatos vividos naquela terra de chão firme. Vez por outra, uma voz invade a narrativa, lembrando os coros gregos, chama a atenção e descortina o não-dito pela boca do narrador. Essa voz parece querer nos lembrar que são de outra gente, outros tempos, as recordações, que não nos pertencem. Como já não pertencem ao narrador, que tenta manter seu “eu”, como se já tivesse ele mesmo feito menino. “Cansei do personagem eu, mas se todos os que surgem nestas páginas somos eu, onde é que vou amarrar minha égua?”

O pintor se imiscui nas artes do escritor, que desde 1980 expõe aquarelas e pinturas, fazendo de cada parágrafo uma imagem a ser vislumbrada. “Mudas testemunhas de gestos ensaiados, as lentas lembranças do velho barbeiro tentam reter fugidias melodias; a falta de atenção do moço de ouvidos moucos quebra os acordes como uma marreta tritura a pedra fina.” Ou “os postes também galopam para não perder o baile da eletricidade, mas quem corre é o nosso herói, seguro na boleia do caminhão”.

Ao largo dos personagens principais vão desfilando outros personagens, que podem aparecer uma única vez mas, nem por isso, são menos importantes para entender o turbilhão que vai no peito do menino. É, principalmente, pelo olhar dos outros, habitantes daquela mesma terra e companheiros nas mesmas desventuras, que conseguimos defini-lo. E o autor dedica igual atenção e esmero a todos, seja a “cigana que se chega pro pai dizendo coisas, tocando pandeiro, cantando”, sejam as “mangas (que) amadurecem, pensativas, antes de desabar no chão”. Ou, ainda, a “casa que espia por quatro janelas dos lados e três na frente e sorri, tímida, através da pequena varanda, aliás chamada alpendre”.

Em alguns raros momentos o uso de ditados e clichês arraigados na tradição ameaça romper o tênue limite do excessivo. Mas rapidamente a sensação incômoda dá lugar ao jogo cadenciado das palavras, que Fajardo dispõe com maestria, voltando a imprimir seu ritmo singular à narrativa.

Em determinado momento, ele escreve: “As palavras são aves que fugiram de seus ninhos e vieram pousar aqui, nestas páginas que agora você está tentando ler. Cuidado: se fechar o livro de repente, elas levantam vôo e pode-se ouvir nitidamente seu rufar de asas”. É exatamente essa a sensação: o autor mantém as palavras cativas de sua narrativa e, no entanto, são palavras ariscas, fugidias, prontas para alçarem vôo e seguirem o vento rumo a outras histórias de outros meninos-moços. Portanto, é preciso apreciá-las antes que se dispersem.

Um jovem poeta que busca o atraso na escrita

Em ‘Ramerrão’, Ismar Tirelli Neto faz do descompasso com o mundo uma forma irônica de crítica e reflexão

(Franklin Alves Dassie - O Globo, caderno Prosa & Verso, 3 de setembro de 2011)

“Ramerrão” é o segundo livro de poemas do jovem Ismar Tirelli Neto. Publicado três anos após “Synchronoscopio”, parece seguir um dos caminhos trilhados no livro de estreia. Entre um humor quase histérico e uma narratividade melancólica (atravessada, em certo sentido, pela ironia), Ismar parece investir, conscientemente, no segundo caminho. Esse é encenado, entre outras coisas, através de um endereçamento que o autor apresenta no poema que abre o livro? “Remeto uma série de cartas estridentes a R. Um apanhado de provincianismos do peito. Como lá me vão, a íntegra”. A estratégia conjuga uma dimensão pública (a cena do teatro) e outra íntima (o escândalo doméstico) e faz lembrar, assim a noção de “cena” que Roland Barthes não cansava de lembrar.

Essas “cartas estridentes”- esse “apanhado de provincianismos do peito”- são escritas por um personagem que estabelece com os lugares e ventos uma relação deslocada, como se as cenas de “Ramerrão” fossem interpretadas por alguém que está sempre atrasado. E será essa uma das imagens mais recorrentes no livro: “atrasado/ para uma palestra/ atrasado/ para o ano novo/ atrasado/ para o próprio/ apedrejamento”. Atrasado para reconhecer o fim de um acontecimento, como se lê em “Reality roll”: “O medo de perder o que, a rigor, já está”. O atrasado vê as coisas passarem, parece não lidar bem com eventos simples, enfim, se relaciona com as coisas práticas de uma forma “incompetente”. “Ele pensa em fazer a cama” encena isso: “Todos os meus/ vizinhos, os teus inclusos, já/ fizeram as suas/ Por que você não/ tenta?”.

E depois de se perguntar, afirma: “Atrasado de novo, ele falha/ ao embarque. Enquanto ela parte; o/ mar, lençol badernado”. Atrasado, o personagem das cenas de Ramerrão se define assim no poema “Os arquivos”: “Sou um homem/ detrás do seu tempo. Me ultrapassa o que vim/ fazer aqui”. A experiência de estar sempre atrasado, entretanto, é atravessada nesses poemas por uma autoironia que problematiza uma noção romântica do autor como alguém incompreendido, que não se adapta ao mundo, que está “atrasado” em relação ao tempo presente.

Mas, ao mesmo tempo, tal experiência remete ao passado, a um exercício de memória, que estaria relacionado ao endereçamento que Ismar escolhe como procedimento poético. A terceira parte de “Preocupações épicas” mostra isso: “As primeiras lembranças/ sofrem rasgos/ profundos/ nos lados/ dos indicadores/ cutículas/ arrancadas”. E o poema termina assim: “O menino/ põe sangue entre/ as ferragens/ Sua Olivetti/ gagueja”. Isso, por um lado, é a oportunidade de ver a cena da escrita: a dificuldade de dar forma às “primeiras lembranças”, que se rasgam nesse gesto, e como escrever acaba sendo um gesto corporal, que imprime no corpo outros “rasgos”- indicadores machucados, cutículas arrancadas. Por outro, a cena da escrita mostra como Ismar tensiona os tempos: o passado afeta diretamente o presente, vide o corpo lacerado (a mão que escreve) e, assim, a escrita não se transforma numa espécie de lugar de lamentar aquilo que o atrasado perdeu, deixou escapar. A melancolia é então problematizada e a rotina – que o título do livro sugere – atravessada por um ruído “estridente”.

Resposta a um tempo pautado pelo imediato
A tensão entre passado e presente aparece no poema “A história da riqueza dos homens (uma balada)”, quando Ismar solicita a forma da balada para montar outra cena: “bom,/ cá estou,/ no passo exato/ onde previa estar/ escrevendo/ esquetes humorísticas/ de quinta/ para uma súcia/ de desmiolados”. Esquetes de quinta: e mais uma vez a ironia agindo como potencia capaz de suspender a seriedade que a leitura das narrativas do atrasado poderia suscitar.

“Ramerrão” irá sugerir (ou endereçar), nesse sentido, uma questão: de que forma se colocar diante de um tempo em que o imediatismo parece imobilizar uma forma de pensamento menos “competente”- no sentido de ser menos prático – e que vá além do “no que você está pensando agora?” ou “o que está acontecendo?” das redes sociais. Ismar sugere uma resposta ao figurar nessas cenas alguém que se questiona, mas que volta meia se atrasa, porque talvez tenha ficado preso numa “Cena contínua num restaurante de beira de estrada”, para lembrar outro poema do livro. Preso num lugar em que o passado – os escombros de uma espelunca – é motivo de uma “emoção inculta”. Melhor, que o passado, através da escrita, faz surgir no presente uma “cena contínua” e nem um pouco banal.

Três olhares sobre o contemporâneo

O blog do "Prosa & Verso" publicou  uma entrevista com Paloma Vidal, Carola Saavedra e Michel Laub, autores presentes na Bienal do Rio. Leia aqui a entrevista completa.

A presença de Carola Saavedra, Michel Laub e Paloma Vidal na programação da Bienal sinaliza que o evento, geralmente mais associado a best-sellers e ao público infantojuvenil, receberá este ano parte dos debates correntes sobre a literatura brasileira contemporânea. Nascidos na primeira metade da década de 1970 (os dois primeiros em 1973, a última em 1975) e publicando regularmente ao longo da última década, com boa recepção crítica, os três autores responderam, por e-mail, a perguntas sobre alguns dos temas que têm pautado esses debates, como o posicionamento da crítica em relação à produção atual, os possíveis pontos de contato entre o trabalho dos autores contemporâneos (e a eventual impossibilidade — ou inutilidade — de procurá-los) e o lugar do escritor num país de poucos leitores. Autora de “Paisagem com dromedário” (Companhia das Letras) e outros três livros, a chilena radicada no Brasil Carola Saavedra dividirá a mesa do Café Literário neste domingo, às 14h, com o gaúcho Michel Laub, autor de cinco romances, entre eles o recém-lançado “Diário da queda” (Companhia das Letras). Já Paloma Vidal, que nasceu em Buenos Aires mas vive no Brasil desde a infância, e fez desse trânsito entre culturas tema tanto de seus livros de ficção, como “Algum lugar”(7 Letras), quanto de seu trabalho acadêmico, estará no Café no próximo sábado, dia 10, também às 14h.


 

satara