quarta-feira, 15 de junho de 2011

Charles Peixoto volta à poesia depois de 26 anos sem publicar



O Globo, 15 de junho de 2011
(Miguel Conde)

Quando pensa nos 26 anos que passou sem publicar poesia, um longo período de silêncio agora encerrado com o lançamento de “Sessentopéia” (7Letras), Charles Peixoto lembra o dia em que deu de cara com pilhas de seu livro “Marmota platônica” (1985) armazenadas no estoque da extinta editora Taurus, no Rio de Janeiro. O escritor que nos anos 1970 se destacava em meio às ruidosas performances coletivas da Nuvem Cigana, núcleo criativo da chamada poesia marginal, e que ainda hoje fala da poesia como atividade gregária, um jeito peculiar de comunicar-se com outras pessoas, sentiu o encalhe da própria obra como uma forma de solidão:

- De repente me deu uma sensação de absurdo: todos aqueles livros sem ninguém para ler. “Nunca mais vou fazer isso”, pensei.

‘Surpresas e porradas'

Já o livro que põe fim à resolução de quase três décadas atrás não resulta de um único instante decisivo, mas de uma série de coisas díspares acumuladas nesse tempo: estímulos de amigos, como o poeta Armando Freitas Filho; conversas com escritores mais jovens interessados em seus livros antigos (“isso me alimenta”, ele diz); e, em primeiro lugar, poemas que nesse tempo foram escritos em cadernos, agendas, folhas soltas, guardanapos, o que estivesse à mão. “Sismograma de um cérebro em surto”, como é definido no poema-título, “Sessentopéia” (o autor fez questão de manter o acento banido pela reforma ortográfica) recolhe, entre as poesias criadas desde 1985, aquelas que “se mantiveram mais próximas de mim”, afirma Charles. Um conjunto escrito portanto dos 36 aos 62 anos de idade, período em que viu sua filha crescer, consolidou-se como roteirista da TV Globo e trocou a estranha roupa-armação de arame onde pendurava os poemas declamados com a Nuvem Cigana pelo figurino mais convencional que se vê na foto acima.

- Usar essa palavra é meio difícil, mas acho que o livro mostra um certo amadurecimento, uma vivência de tudo aquilo que a vida te traz, de surpresas e porradas – diz o autor, que lança o livro hoje às 19h na Livraria Argumento do Leblon.

Entre surpresas (“você me deixa fora de órbita como um satélite em transe”) e porradas (“sabor azinhavre que cobre a cópula com a vida sóbria”), a “Sessentopéia” de Charles Peixoto parece fazer desse amadurecimento uma forma de renovação. Comovido (“a visão da minha filha/me emociona como um folhetim enxuto”) ou irônico (“entulhos nós temos aos montes/(...) lembranças, arrependimentos, vaidades, desilusões/assim sendo: disk-entulho/jogue tudo numa caçamba-canção/e saia a flanar”), o poeta arrisca em verso outra definição sugestiva para seu livro: “páginas da biografia secular de um recém-nascido”.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Mensagem, de Fernando Pessoa

Treze de junho será sempre lembrado como a data de nascimento de um dos poetas mais fascinantes da língua portuguesa: Fernando Pessoa. Para assinalar a data em que Pessoa completaria 123 anos, reproduzimos o poema "D. Sebastião, Rei de Portugal" do livro Mensagem, o único que o poeta publicou em vida, quase um ano antes de sua morte. Contando com Cleonice Berardelli e Mauricio Matos como organizadores, a edição da 7Letras é fiel à primeira, de 1934, corrigida pelo próprio autor, e mantém sua ortografia original.

D. Sebastião, Rei de Portugal


Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.


Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Leonard Cohen ganha prêmio Príncipe das Astúrias de Letras

Leonard Cohen foi anunciado hoje como o vencedor do Prêmio Príncipe das Astúrias de Letras,  que já homenageou autores como Paul Auster (2006), Gunter Grass (1999) e Juan Rulfo (1983).


Leia o poema Dance me to the end of love, de Leonard Cohen, na tradução de Fernando Koproski publicada em Atrás das linhas inimigas do meu amor.


Dance-me até o fim do amor

Dance-me até a sua beleza
com um violino ardente
Dance-me pelo pânico
até eu estar calmamente
Hasteie-me como a oliveira
e seja meu pombo orientador
Dance-me até o fim do amor
 

satara