segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Cartas trocadas - Lançamento


Estas cartas entre paciente e terapeuta contam a história de Elizabeth, que revisita seu passado para curar feridas íntimas e melhorar sua qualidade de vida. A cada missiva, o leitor entra em contato com uma história fascinante de superação pessoal, e é convidado a refletir sobre as dificuldades e os ganhos do próprio processo terapêutico.

Leia um trecho de "Cartas Trocadas"

Perdi a conta do número infindo de vezes que me senti violentamente exposta e invisível. Antes e após as cirurgias era fotografada, e reconheço a importância médica do fato. Mas aos 18, 19 e 20 anos, o momento era outro. Sempre para estudar, mostrar o caso aos residentes. Sempre perante vários médicos, que examinavam minhas coxas e virilhas, observando o sucesso cirúrgico. Quando reclamei, ouvi de minha mãe que aquele era um trabalho muito importante para o ensino e tive que calar a minha dor com mais uma bronca de quem deveria me proteger.

(...)Mais situações vieram quando reli o que você escreveu. Passei por várias experiências emocionais complicadas, no entanto esta foi muito marcante. Estava com 19 anos, tive alta no carnaval, quando a vida fica complicada. O meu desejo era voltar para casa, descansar da rotina do hospital e de mais uma cirurgia, precisava de acolhimento. Contudo, minha mãe decretou que iríamos para Petrópolis. Atitude absurda, argumentei. Tempo inutilizado: com minha mãe não havia diálogo. Em vez de contratar uma ambulância, pois eu ainda não podia andar, ela arranjou uma kombi. É, exatamente, minha mãe contratou uma kombi para me levar até Petrópolis. Colocou um colchonete no chão, e, sob o olhar perplexo das enfermeiras, fui em direção a Petrópolis em prantos. A invisibilidade me corroía em uma dor difícil de ser superada sozinha.

Como estávamos no carnaval, o trânsito era caótico por conta da festa, das alegorias, dos carros das escolas de samba etc. O pior era que parte da estrada era de paralelepípedo – eu seguia trepidando no chão da kombi por entre as curvas da estrada. A dor física era imensa, tanto quanto a emocional. Após esse episódio, passei a sonhar com o desejo de gritar e a voz não saía. Meu grito ficou interrompido como um grito mudo.

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