terça-feira, 4 de outubro de 2011

Versos desgarrados (Correio Braziliense)

Por Felipe Moraes
Correio Braziliense - 18/09/2011

O título do novo livro de poesia de Abel Silva inspira mais do que um par de trocadilhos engraçados. poemAteu (7Letras), designado assim mesmo, com apenas uma letra em maiúsculo, vem sendo escrito há três anos, com uma entrega sem reservas do autor carioca. “Ao escrever o livro, notei que tudo na minha vida foi a palavra. Toda a minha força, a minha expectativa, todos os lucros, todas as vitórias, todas as derrotas, todos os tropeções vieram da palavra. Para mim, ser poeta não é uma escolha”, diz ele. Abel talvez seja mais conhecido pelo trabalho como compositor de canções populares, como "Jura secreta", interpretada por Simone, "Sangue e pudins", por Fagner, e "Festa do interior", em parceria com Moraes Moreira. Na coletânea inédita, o letrista confirma a vocação primeira: a do verso, seja ele musicado ou não.

Ele escreve praticamente todos os dias, mas sem a carga de seriedade de um projeto com prazos rígidos ou temáticas inflexíveis. “Vou fazendo e relendo. Até que os poemas vão, naturalmente, me levando para algum tema, alguma estrutura, alguma espinha dorsal. Pode vir da situação política do país ou de algum fato pessoal”, descreve.

No site da editora, poemAteu é comprimido em 14 faixas—como um disco gratuito —, com poemas lidos por Abel: complemento sonoro de uma produção iniciada em silêncio. “Digo que é para o ouvido e para os olhos. A poesia escrita é para a solidão do olhar do leitor. A pessoa sozinha lendo o poema que alguém escreveu sozinho”, explica. As imagens evocadas por ele se entremeiam em galhos, flores, raízes e rios, num pessimismo que prefere a melancolia à simples ironia: “Eu sinto a mágoa de um mundo gasto/Com mais chorume que água”, ele lamenta em Paisagem.

Em bosques menos sombrios e pantanosos, ele adere à leveza das coisas belas e frágeis. “Um dia atirei no rio a rosa do sentimento /Ela encolheu-se de frio, mas foi só por um momento”, narra a persona de A pedra e a flor. É a entrada de Abel numa floresta que não esconde segredos místicos ou revela verdades espirituais: é um ser vivo gigante, que nasce, respira, morre. Como qualquer ser humano.

Ceticismo sem vazio
O ateísmo declarado não propõe uma crítica da superstição ou das religiões: é uma tentativa de sentir a natureza não como uma entidade divina, mas um habitat da humanidade. E o pensamento não é de hoje. Filho de um pastor metodista, que era transferido de paróquia a cada quatro anos, na infância Abel começava a combater a religiosidade adquirida com o encanto pelo rádio e o alarido alegre das ruas do Rio de Janeiro.

Anos depois, como estudante e professor de letras e morador do famoso Solar da Fossa, pensão do bairro do Botafogo que, entre 1964 e 1971, abrigou agitadores culturais e artistas, leu Jean-Paul Sartre e poetas existencialistas: desenhava-se um futuro desligado da herança cristã. “Fui vendo que a coisa toda era o ser humano com ele mesmo e o seu ambiente. Ele e a natureza. Era a natureza como nosso destino. E ela é indiferente”, acredita. “Era algo daquela geração. Havia essa coisa de pensar menos de acordo com os parâmetros religiosos e mais de acordo com os políticos e filosóficos. Esse espírito religioso foi voltando e hoje é forte de novo. São as necessidades humanas, as carências. Mas noto claramente que essa  crise é muito provocada pela própria religiosidade”, reflete.

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