quarta-feira, 19 de outubro de 2011

OWNED



OWNED - Um novo jogador, de Simone Campos, é um livro-jogo que discute e parodia a cultura de videogames. O OWNED tem uma estrutura de game, à moda daqueles livros-jogos infanto-juvenis (Enrola e Desenrola, Aventuras Fantásticas) e de Cortázar (O jogo da amarelinha). Nele, o leitor vai entrar na pele de André, técnico de informática aficionado por videogames cuja vida começa a virar um videogame. André vai tentar conquistar pelo menos uma dentre sete mulheres, o que vai afetar sua busca e a definição de sua personalidade. O livro tem 18 finais diferentes, e inclui ainda um glossário, um guia de estratégia, e textos extras.

Leia um trecho de OWNED:
Terça-feira - tarde

Por mais que houvesse coisas a fazer no boxe, eu não conseguia me concentrar. Não tinha um chefe me olhando.

Fiquei repassando tudo o que tinha me acontecido. Numa situação destas, qualquer pessoa normal procuraria um psicólogo. Mas eu não tenho dinheiro para uma coisa dessas. Também não tenho a quem pedir indicação. Além disso, é evidente que não sou normal. Tenho mania de conversar comigo mesmo simulando outras pessoas, por exemplo:

– Então, doutor. Uma pessoa normal teria vindo falar com o senhor, mas eu não vim.

– É bem mais barato do que uma sessão de verdade.

– Por favor, não concorde comigo. É perturbador.

– Eu posso concordar com você se isso te fizer sentir desconforto.

– É verdade.

– Pois o que não lhe traz aqui hoje, senhor... – o doutor consulta a ficha – André?

– É o que anda me acontecendo, doutor. Parece que a minha vida está sendo contaminada por videogames.

Ele faz uma pausa confusa. Meu analista é um senhor, videogames não podem fazer parte da experiência dele. Mas ele logo recupera a face.

– Que tipo de videogame?

– Todo tipo. No começo era online massivo, depois virou uma espécie de shooter com adventure e traços de plataforma, e agora parece que estabilizou num dating game com alguns elementos de ação.

– Fale-me do seu pai.

– Acho que estou alucinando. Mas alucinando com outras pessoas, em lugares públicos? Não é possível.

Ele batucou a caneta no bloquinho.

– Acho que esta conversa está perdendo a substância.

– A cada segundo.

– Essa conversa prova que você não saberia alucinar com tanta coerência.

– Então... o quê?

– Acho que é melhor você viver essa fase da sua vida – ele me deu uma piscada de olho – para depois tentar extrair dela algum sentido.

Dei um pulo com a forte cutucada de Edgar.

– Atende aí o maluco, pô.

Ele apontou o cliente impaciente junto ao balcão. Levantei e fui cuidar da vida.

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