quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Chove nos campos de cachoeira

A primeira edição de Chove nos campos de Cachoeira foi publicada em 1940, depois que o romance ganhou o prêmio “Dom Casmurro” oferecido pela Editora Vecchi. O prêmio e a publicação deste seu primeiro livro abriram caminho para que Dalcídio Jurandir se tornasse um dos mais importantes autores brasileiros do século XX, com uma obra que revela o universo urbano e provinciano de uma região afastada dos grandes centros, ao mesmo tempo em que toca naquelas questões universais do ser humano que permeiam toda boa literatura.

A este romance seguiram-se outros nove para formar uma série que ficou conhecida como “Extremo-Norte”, reunindo as principais obras do autor.

Reeditado em 1976 pela Editora Cátedra e esgotado desde então, Chove nos campos de Cachoeira chega agora às mãos dos leitores do século XXI numa versão inédita, preparada a partir de anotações, correções e emendas feitas pelo próprio Dalcídio num exemplar da primeira edição – localizado recentemente na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, para onde foi doado o acervo do escritor – após minucioso cotejo e preparação do texto pela professora e pesquisadora Rosa Assis.
Como aquelas obras clássicas que sobrevivem ao tempo, Chove nos campos de Cachoeira é um romance que vai muito além do regionalismo (presente tanto no estilo quanto no universo retratado pelo autor), revelando novos e diversos sabores aos leitores de hoje.


"Quando as chuvas voltavam, então era que d. Amélia sentia mais desejos de levar Alfredo para Belém. Já está crescido, ele, mas tudo pode acontecer com aquelas águas que iam e vinham, mornas e silenciosas. Os jijus vinham na enchente e para Alfredo não pareciam peixes, pareciam filhos de sapo e de cobra. No chalé não se comia daquele peixe porque era como se comesse lama. Mas Alfredo gostava das grandes chuvas. Podia ter medo mas era enorme a sensação de ouvir, uma noite, o ronco dum jacaré debaixo da casa. As montarias andavam pelos campos. Didico ia com o seu pequeno barco pegar porfia com o barco do Roldão, na lagoa atrás da casa do Dr. Adalberto. Aqui, deste lado de Cachoeira, não se andava mais a pé, se navegava. 
Alfredo sentou-se na escada. O caroço nos campos, perdido. Agora tem que ir ao tanque escolher outro que fale, lhe mostre os prados da Holanda, o arranque destes escampados mormacentos.
A vila caía num sono como uma menina doente. Por que sua mãe não resolvia logo o caso do colégio? Alfredo não sabia que voltava com a escura solidão dos campos queimados, estava mole, com um indefinido esmorecimento. Ouve sempre Major Alberto dizer a d. Amélia:
– Uma gente que não se corrige. Não se convencem que não devem queimar os campos. Por que... Ouviste? Psiu. – Major puxa pela manga da blusa de d. Amélia. – Por que... Esteriliza... Ouviste? – Major explica, e Alfredo ouve a explicação, meio sonolento. Quando está em sua rede, à noite, sempre ouve os dois conversarem, e a conversa toma um ar misterioso, um ar de histórias que eles contassem para o adormecer. D. Amélia pouco fala. A voz dela vai para o quarto naquele mesmo tom com que pediu a ele que não contasse a queda no poço. E naquela noite, última noite em que Major Alberto falou dos campos comidos pelo fogo, lá fora, o clarão era grande e Alfredo sonhou que o fogo também queimava o chalé e via as mãos de sua mãe como carvões. Alfredo tem um sono como aqueles campos ardendo, como aquela noite queimada. E quando o vento cresce sobre o chalé ouve-se gemer a terra e a noite que o fogo queimou."

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