quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Cenas de infância no interior


Romance de formação de Elias Fajardo explora a Zona da Mata mineira

(Ronize Aline – O Globo, caderno Prosa & Verso, 10 de setembro de 2011)

Não importa em que lugar, em que língua, se sob o frenético cotidiano de um centro urbano ou na aridez de um sertão distante: a passagem da meninice para a adolescência é sempre cumprida na ânsia de deixar definitivamente para trás os resquícios da infância. E é dessa urgência universal que se tem ocupado o romance de formação, gênero que se dispõe a tentar captar esse momento de fugidia compreensão e traduzi-lo em palavras. O romance de formação (ou Buldungsroman, em alemão) retrata de que forma fatos e acontecimentos externos agem sobre o protagonista, e seus efeitos sobre a gradativa formação interior do mesmo.

À aridez da realidade, contrapõe-se a imaginação
“Ser tão menino”, de Elias Fajardo – que será lançado na próxima quinta-feira, dia 15, a partir de 19h30m, na Moviola (Rua das Laranjeiras 280/Loja B) – , situa-se nessa tradição ao lançar um olhar carinhoso (mas nem por isso condescendente) sobre o menino, assim mesmo, sem nome, que vive na pequena Tebas, situada na Zona da Mata mineira, mas que poderia estar em qualquer lugar do mundo. Para virar moço é preciso, antes, enfrentar não só o “sertão proibido das Gerais”, como também aquele sertão íntimo onde os desejos secam antes mesmo de virarem lembrança. Mas à aridez da realidade nosso personagem contrapõe uma imaginação farta, e constrói memórias que correm soltas em busca de uma mocidade que acredita reservar-lhe grandes promessas. Dos passeios de charrete e jogos infantis, ele parte em busca de sensações desconhecidas, com o primeiro gozo, e experiências que o joguem de vez na mocidade.

Fajardo impinge à escrita a mesma urgência do menino, poupando o texto de supérfluos e fazendo-o jorrar num fluxo constante pontuado por metáforas e figuras de linguagem. O narrador se permite viver a imaginação do menino e contá-la como se história fosse e, assim, transformá-la em memória tal e qual os fatos vividos naquela terra de chão firme. Vez por outra, uma voz invade a narrativa, lembrando os coros gregos, chama a atenção e descortina o não-dito pela boca do narrador. Essa voz parece querer nos lembrar que são de outra gente, outros tempos, as recordações, que não nos pertencem. Como já não pertencem ao narrador, que tenta manter seu “eu”, como se já tivesse ele mesmo feito menino. “Cansei do personagem eu, mas se todos os que surgem nestas páginas somos eu, onde é que vou amarrar minha égua?”

O pintor se imiscui nas artes do escritor, que desde 1980 expõe aquarelas e pinturas, fazendo de cada parágrafo uma imagem a ser vislumbrada. “Mudas testemunhas de gestos ensaiados, as lentas lembranças do velho barbeiro tentam reter fugidias melodias; a falta de atenção do moço de ouvidos moucos quebra os acordes como uma marreta tritura a pedra fina.” Ou “os postes também galopam para não perder o baile da eletricidade, mas quem corre é o nosso herói, seguro na boleia do caminhão”.

Ao largo dos personagens principais vão desfilando outros personagens, que podem aparecer uma única vez mas, nem por isso, são menos importantes para entender o turbilhão que vai no peito do menino. É, principalmente, pelo olhar dos outros, habitantes daquela mesma terra e companheiros nas mesmas desventuras, que conseguimos defini-lo. E o autor dedica igual atenção e esmero a todos, seja a “cigana que se chega pro pai dizendo coisas, tocando pandeiro, cantando”, sejam as “mangas (que) amadurecem, pensativas, antes de desabar no chão”. Ou, ainda, a “casa que espia por quatro janelas dos lados e três na frente e sorri, tímida, através da pequena varanda, aliás chamada alpendre”.

Em alguns raros momentos o uso de ditados e clichês arraigados na tradição ameaça romper o tênue limite do excessivo. Mas rapidamente a sensação incômoda dá lugar ao jogo cadenciado das palavras, que Fajardo dispõe com maestria, voltando a imprimir seu ritmo singular à narrativa.

Em determinado momento, ele escreve: “As palavras são aves que fugiram de seus ninhos e vieram pousar aqui, nestas páginas que agora você está tentando ler. Cuidado: se fechar o livro de repente, elas levantam vôo e pode-se ouvir nitidamente seu rufar de asas”. É exatamente essa a sensação: o autor mantém as palavras cativas de sua narrativa e, no entanto, são palavras ariscas, fugidias, prontas para alçarem vôo e seguirem o vento rumo a outras histórias de outros meninos-moços. Portanto, é preciso apreciá-las antes que se dispersem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

 

satara