segunda-feira, 23 de maio de 2011

Relógio de Pulso, de Ana Guadalupe


O tempo dos relógios não é o tempo dos poemas.
O tempo dos poemas não se mede em relógios, instante súbito e preciso que salta à margem das horas para marcar o que está além do tempo: um sorvete que nunca derrete, o repetente da quinta série, aerogramas jamais enviados pelo correio.
Ana Guadalupe sabe como encontrar esses lugares, coisas e tempos onde ficam guardados os poemas, e sabe como mostrar pra gente. Sabe tratar as palavras com doçura, combinando sabores e ritmos, harmonizando sutis modulações, cativando o leitor com um texto que consegue dizer muito falando pouco, como só quem é poeta sabe fazer.



Relógio de pulso será lançado na terça-feira, 31 de maio, a partir das 19h, na Livraria da Travessa Leblon, num evento que marca também o lançamento da revista Lado 7 e dos livros Uma cerveja no dilúvio, de Afonso Henriques Neto; Água para viagem, de Lorena Martins; Sessentopéia, de Charles Peixoto; Ramerrão, de Ismar Tirelli Neto e da segunda edição de A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, de Gregorio Duvivier.

Leia dois poemas de Ana Guadalupe:

Sem querer elisa
sem querer elisa
tropeça no tapete
a caminho da cozinha
à meia-noite

sem querer elisa
esqueceu as calcinhas
lavadas no banheiro
há 3 semanas

sem querer elisa
no quarto da frente
borrifa saliva
nas folhas



Aspen

olhando por esse lado
eles nunca mais
vão viver juntos
num quarto cheio
de mosquitos
atraídos pelas latas
de feijão debaixo
do armário
eles não vão
nem morrer juntos
e isso não é
o fim do mundo
é só um desperdício
que tarde ou cedo
ela morra em silêncio
ou ele
ao contrário
nos vazios civilizados
das escadas rolantes
ou antes
engasgados com café
na área de serviço

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satara