quinta-feira, 26 de maio de 2011

Ramerrão, de Ismar Tirelli Neto




Que o leitor não se deixe (des)enganar: são muitas as leituras que se abrem neste Ramerrão de Ismar Tirelli Neto. Em meio a sutis modulações que nos levam ora para um tom epistolar, ora para o verso da prosa, e em outras horas para algum lugar que fica além do mero poema, o autor mostra que é mestre em fugir do óbvio, em criar novos sentidos com o fino artesanato de quem sabe brincar a sério com as palavras. Cada cena, sequência e corte deste ramerrão nos conduzem cinematograficamente pelos cenários mais diversos: a casa, o quarto, o hotel, ruas e postais do mundo inteiro, num labirinto de imagens que expõe intimidades – que só podem ser nossas, as desses personagens estranhos embora íntimos. Tendo nas mãos a chave-mestra que o autor nos oferece para abrir as portas dos labirintos da linguagem, podemos encontrar aquela matéria oculta e rara de que é feita a poesia.

Ramerrão será lançado na terça-feira, 31 de maio, a partir das 19h, na Livraria da Travessa Leblon, num evento que marca também o lançamento da revista Lado 7 e dos livros Uma cerveja no dilúvio, de Afonso Henriques Neto; Relógio de pulso, de Ana Guadalupe; Sessentopéia, de Charles Peixoto; Água para viagem, de Lorena Martins, e da segunda edição de A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, de Gregorio Duvivier.

Leia "O amigo solteiro" – ou ouça o poema na voz de Ismar Tirelli Neto.

O amigo solteiro
− Três casas num só ano, e um idioma
em vias de sumir, você disse?

Toda a minha vida eles
costeiam. Cordata,
a vista não deixa entrar.
Fiquei. Rendido às formas
da delicadeza. Esgarço
as teias de aranha para
então bordar as minhas,
acerto pelo horizonte
o luto das molduras.
Aos domingos distribuo
ao povo visitas inesperadas.
Me acompanha?
Assino uma carta, atento
ao som rasteiro & tramador
executado por meu próprio nome.
(Lá as pessoas se perdem).
Aos domingos vou ao cinema.
Gargalha-se como incêndios
em grandes edifícios comerciais.
Volto e percebo
que sigo porejando muito fino
das paredes, desde sempre.
Estavam a bem pouco de inventar o telefone.
Fiquei porque o trem não me apanhou.

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satara