segunda-feira, 30 de maio de 2011

"Os unicórnios" no Prêmio São Paulo de Literatura 2011

"Os unicórnios", de Marcelo Cid, é um dos 10 finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria autor estreante. Os vencedores nas categorias livro do Ano e autor estreante serão conhecidos durante a cerimônia de premiação no Museu da Língua Portuguesa, em agosto.


No romance de Marcelo Cid, o professor de literatura francesa Artur Borges perde os dois mil seiscentos e trinta e quatro livros da sua biblioteca quando um incêndio lavra seu apartamento. Os dois unicórnios que encimavam sua estante são os únicos sobreviventes. Para refazer a sua coleção, ele decide montar uma insólita Biblioteca de Livros Furtados. Como um gatuno refinado, este narrador-personagem tem um código de ética: escolher apenas obras-fetiche para subtrair das estantes alheias.

Leia um trecho de Os unicórnios, de Marcelo Cid:

Bibliotecas são coisas vivas, crescem acompanhando nossa vida, nossas esperanças, nossos amores e desilusões. Abrigam, como embaixadores do passado, aqueles livros que ganhamos de pessoas queridas, os que herdamos, os que compramos, os que esquecemos de devolver, até os que roubamos... De qualquer maneira, são sempre retrato de quem as montou, não só nos livros contidos como também na maneira como estão dispostos nas estantes. Algumas pessoas organizam seus livros por assunto, outras pelo nome ou sobrenome do autor, outras não os arrumam de maneira alguma, deixando ao ziguezague dos olhos ou ao acaso a tarefa difícil de recuperar algum volume.

Ernesto, amigo que ainda lhes apresentarei melhor, tem a curiosa certeza de que não é adequado deixar lado a lado livros de autores que se odiavam, embora tenham escrito sobre o mesmo tema. Intrigado por essa aberrante observação biblioteconômica, tratei de fazer o contrário em minha biblioteca: capa a capa, como ombro a ombro, deixei Rousseau e Voltaire, Santo Agostinho e os pagãos, Silvio Romero e Machado de Assis... A provocação suprema era roçarem-se ali um livro de doutrina católica e um manual de magia negra. Curiosamente, esse método (que jocosamente eu chamava de “yin-yang”) parecia facilitar a recuperação de um livro, quando eu precisava dele: dizem que a memória guarda mais facilmente os eventos ou coisas que envolvem alguma emoção.
Ao saber do incêndio, Ernesto não se mostrou surpreso: parecia dizer nos olhos que a culpa era minha, por semear a discórdia entre aqueles volumes, levando-os à doença e por fim à morte. Somente o amor mantém unido o que é diferente, ele dizia; o ódio leva à dissolução, ao pó. Há nisso doutrina de algum filósofo pré-socrático, se não me engano, embora Ernesto pode tê-la derivado de outras fontes – talvez cabalísticas. Como quer que seja, tudo queimou... Quero crer que por razões mais prosaicas.
Dois mil seiscentos e trinta e quatro livros, contando aí os exemplares de coleções e enciclopédias, estavam acondicionados em estantes de metal, um tanto feias, de cor cinza (que não combinavam com o tapete, o que sempre me incomodou), no quarto que eu havia adaptado para a biblioteca. Até então meus livros vagavam pela casa, amontoados aqui e ali, trocando de lugar em cada faxina, apesar de minha insatisfação com as decisões da faxineira. Ela sempre reclamava, dizendo ser impossível fazer uma boa faxina com tantos livros empoeirando em todos os cantos. Movia-os, sem muito cuidado, para espanar os lugares. À noite, quando eu voltava para casa, estranhava o lugar. Se precisasse de algum livro (e, por alguma razão, eu parecia sempre precisar de algum em dias de faxina!), certamente não o encontraria, mesmo espalhando pelo chão todas as pilhas de livros. No dia seguinte, já desenganado, acharia o tal livro por acaso, aos pés da cama, ou no corredor. Esse roteiro chegou a se tornar uma espécie de ritual, algo incômodo. Era imperioso alojar meus livros num lugar adequado.
Em pouco tempo desocupei o quarto das tralhas que os anos acumularam – não com facilidade me livro de coisas velhas –, limpei-o, pintei-o, arejei-o, decorei-o, bem ou mal. De improviso, consegui três estantes de metal, doadas pela bibliotecária da faculdade onde eu lecionava. Mais alguns detalhes e estaria pronta: bastou acomodar os livros, segundo a sistemática yinyang, ainda pouco conhecida, mas bastante eficaz. A casa sem livros por toda parte me pareceu maior e mais limpa. 
Três reproduções de pinturas de Salvador Dalí enfeitavam as paredes da biblioteca, incluindo aquela célebre dos relógios derretidos (A persistência da memória). Uma porta e duas janelas arejavam o ambiente. Das janelas pendiam cortinas azuis, de tecido leve. A poucos passos, num aparador junto a um sofá, onde costumava dormir meu gato de estimação, eu pusera os dois unicórnios de bronze, o dragão de jade e um vaso de papoulas artificiais, que eu esperava logo trocar por um cavalinho alado – o Pégaso, símbolo das belas artes, pois que, segundo a mitologia, com suas patas fez minar um filete d’água que seria a Fonte das Musas. Como disse, gosto das coisas com história. 
Antes do incêndio, eu planejava importantes investimentos em minha biblioteca. As estantes dariam lugar a outras mais belas e caras, de madeira, que um caminhão traria no dia seguinte. Para recebê-las, eu iniciara a deposição das de metal: retirava delas os livros e os colocava no chão, sobre o tapete. Trabalho delicado e cansativo, temperado porém pela nostalgia, quando era mais forte a tentação de abrir certos volumes. Anotações que já não podia decifrar, livros sobre assuntos que já não me interessavam, ou velhas paixões redescobertas, livros cuja leitura não terminei, um cartão, uma fita, várias lembranças... Admirava a rosa ressequida que um deles continha, tentando lembrar em que circunstâncias ela fora posta ali, por que paixão, quando a luz se apagou, mergulhando-me na escuridão – a la vez los libros y la noche, lembrei-me.

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