terça-feira, 22 de março de 2011

Resenha de 'Coração', de Marco Antonio Figueiredo

O jornalista Elias Fajardo escreve sobre Coração, do poeta Marco Antonio Figueiredo, em resenha publicada no Prosa Online:

O coração e a mente não apenas contemplam o mundo e refletem sobre os elementos naturais: interagem com eles, fazem parte deles, e quanto mais esta simbiose se aprofunda, mais os versos adquirem vida e sentido. E assim caminha o poeta, traçando seu rumo impreciso "costurando entre os limites/ do serrilhado das espumas/ e da areia socada pelo peso do mar". 

Este livro "Coração" faz parte de uma trilogia que começou com "UM" (2007) e continuou com "Europa" (2009), publicados pela 7Letras. Neles, Marco Antonio Figueiredo, terapeuta há décadas e também artista visual, constrói um universo poético muito particular, com um pé na tradição oriental e outro na contemporaneidade.

Ao terceiro volume ele juntou também onze shodos, exemplares de caligrafia japonesa usados tradicionalmente para exprimir estados de espírito ou veicular mensagens filosóficas. Marco Antonio cria seus próprios shodos e não se preocupa em juntá-los mecanicamente aos poemas; eles apenas passeiam pelo livro e indicam possibilidades de significados, assim como uma nuvem pode prenunciar a chuva, antes que o vento a carregue para longe.


Assim, ele presta tributo a formas tradicionais de expressão escrita e também plástica. Já a contemporaneidade aparece aqui de muitas formas, um pouco à maneira das gerações que produziram nos anos 70 e 80: o autor se permite transformar em poesia o seu cotidiano e também procura desprender-se de quaisquer regras ou dogmas. Diante desta liberdade, não há como enganar nem a si mesmo nem ao leitor ou à musa inspiradora dos versos. Mas é preciso estar atento e forte para que o mergulho no cipoal do texto e de suas possibilidades possa chegar a bom termo.

Longe e perto é a poética expressa em "Coração". Longe no sentido de uma vela que flutua no céu azul e branco e "para de repente em preguiçosa calmaria". E perto na medida em que se debruça sobre o sentimento amoroso, mais especificamente, sobre a relação a dois, um tema tão interessante quanto difícil de ser abordado sem cair no lugar comum, já que vem sendo tratado há séculos por autores de diferentes latitudes e longitudes. A chave que Marco Antonio utiliza para tal é a busca do choque poético que o hai-cai nos propõe, como ferramenta para levar o leitor a outros universos e a articular diferentes leituras. O poema, "Romã", por exemplo, é bastante representativo embora não possa ser considerado formalmente um hai-cai: "vida que segue atônita/ ela eclipsou-se em abril e/eu veraneio em maio,/mergulhos/ ruídos de cigarras temporãs". Já "Estação" e "Gotas" são haicais no sentido mais clássico, na medida em que apresentam uma referência à passagem das estações do ano, uma concisão telegráfica e, principalmente, aquilo que Octavio Paz considera "uma pequena cápsula de poesia capaz de fazer saltar a realidade aparente".

Como em todo volume de poesia, há textos mais e menos bem sucedidos. Entre os últimos talvez pudéssemos citar "Hoje", que se refere a um lançamento de um livro do autor e insiste no parto do próximo livro, ou ainda "Tião" que oscila entre a piada e o concretismo.

Aliás, podemos estabelecer alguns parentescos entre o texto poético de Marco Antonio e o dos concretistas brasileiros e também o de Paulo Leminsky, o inspirado paranaense que atravessou fulgurantemente a poesia contemporânea. Mas é preciso que se diga que ter parentescos de qualidade não desmerece ninguém e que, pelo contrário, pode significar a construção de um trampolim capaz de levar o poeta a vôos mais altos.

Marco Antonio Figueiredo já está no ar, e com uma sensibilidade que lhe permite praticar desnudamentos pessoais sem cair no egocentrismo, e uma mistura equilibrada de serenidade, compreensão e aceitação do outro. Seus poemas são doces, carinhosos, irônicos, bem humorados e abertos a quem quiser acessar-lhes o coração.

* ELIAS FAJARDO é jornalista

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