segunda-feira, 14 de março de 2011

O tempo captado num instantâneo


Em resenha publicada no Prosa & Verso, Diana Klinger explora a relação entre a infância, o tempo e o gesto poético no livro A inocência, do poeta argentino Arturo Carrera.

O Globo – Sábado, 5 de março de 2011

O TEMPO CAPTADO NUM INSTANTÂNEO
Figura central na poesia argentina recente, Arturo Carrera cria “autobiografia lírica”

Arturo Carrera é uma das figuras centrais da poesia argentina atual e “A inocência” (publicado originalmente em 2006 e recentemente saído no Brasil), é parte de um conjunto da sua prolífica obra que constitui o que alguns críticos chamam de uma “autobiografia lírica”. Oito poemas longos compõem uma espécie de caleidoscópio de cenas dispersas em que há repetições e variações de certos núcleos: entre eles, um dos mais presentes é o carpe diem (título de um outro livro de Arturo) do poeta latino Horácio.

Impossível não falar da foto da capa do livro, em preto e branco, um pouco amarelada pelo tempo, em que um menino de uns dois anos avança sozinho em direção à câmera numa vereda de uma cidade de interior, enquanto um homem se afasta em direção contrária. O menino é o poeta, “Arturito”, e a cidade é Coronel Pringles. Sabemos isso porque a fotografia é retomada no último poema do livro, “Causa do Fauno”: “A três quarteirões da minha casa, / pela rua Stegmann, / para o sul, / está o arrio. / ... o mesmo que / na fotografia da capa deste livro / é o ponto de fuga; / para onde se move / o homem que vai caminhando displiscente, / apressado, enérgico mas / talvez perdido... / e o menino ou desejo que avança / parece que desanda nosso próprio dizer (...)”.

Esse último poema é chave para a leitura do livro. Não apenas porque ancora o dado biográfico num particular movimento de retorno à infância, que é um traço de boa parte da obra de Arturo Carrera. Também porque, nesse movimento, sinaliza uma particular relação entre a infância, a inocência e o gesto poético do livro: não se trata de uma identificação banal entre infância e inocência (que aparece, com ironia, no primeiro poema do livro, “O Pequeno Príncipe”). A inocência mais bem parece estar ligada com esse avançar do menino que desanda o dizer.

Como lembra o tradutor, Rodrigo Alvarez, na introdução do livro, o poeta argentino Juan L. Ortiz definiu a poesia como “a realização do estado de infância”. Na infância, o andar e o dizer ainda são instáveis, ainda não se automatizaram. O dizer do poeta “desanda” na quebra das expectativas rítmicas, gramaticais e semânticas. Desanda nas vacilações e constantes interrogações que aparecem nos poemas. Desanda também numa atitude de perplexidade perante a linguagem. Daí a irrupção súbita de “amplexos”, “sizígias” ou “sépalas” (“mas o que é mesmo um amplexo?”, “mas o que é mesmo uma sizígia?”... “o lugar onde toda palavra se evade / e se extravia?”). Na astronomia, a sizígia designa o momento de conjunção e oposição entre um planeta e o sol, conjunto e oposição que podem ser pensadas aqui entre o que há nessa poesia de familiar, de doméstico, de cotidiano e de assombro, de não familiaridade.

Inocência: a infância como limite transcendental da linguagem. Se a poesia moderna encontra seu lugar mais apropriado na crise da experiência, a tentativa do poeta argentino “é trabalhar outra vez com a experiência e, nesse sentido, a inocência seria a vida que nos aproxima da vida”. Como coloca o filósofo italiano Giorgio Agamben ao refletir sobre a infância e a história, o que caracteriza o humano não é a linguagem, mas – precisamente – a falta dela: o homem, à diferença do animal, não nasce com a linguagem. Numa entrevista, Carrera diz: “A poesia vem encher ou preencher a brecha que já na infância se abre entre natureza e cultura.”
Trata-se, também, da inocência do tempo: na infância a noção de sucessão e de fim ainda não substituiu a ideia de um contínuo presente. O gesto poético de Carrera transcende em muito o pessoal e o biográfico porque não se dirige à recuperação do passado e das memórias e sim à tentativa de capturar momentos ou sensações difusas. (“soltar um morcego, / registrar um vôo instantâneo, e (...) com o flash que explode crivar / cada imagem”). “A ideia de uma instantânea e lúcida captação do tempo nos leva a pensar na reconciliação com o cotidiano”, diz o poeta. Em sua forma e sua distribuição na página, os poemas de “A inocência” lembram por vezes o haicai, que, como disse Barthes, “é um átomo de frase que anota um elemento tênue da vida ‘real’, presente, concomitante”. Como o haicai, como a fotografia da capa do livro, a poesia de Arturo Carrera se apresenta menos como representação e mais como tentativa de captação da vida no instante que morre (carpe diem), de capturar o que há de infinito e perdurável no minúsculo presente-cotidiano que se desvanece a todo instante.

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