quarta-feira, 23 de março de 2011

Madressilvas em Pucón




Uma trilha de vulcões não extintos rodeia Pucón, no Chile. Vulcões em cinza, silenciosos e invisíveis, como as emoções, que pulsam vivas por debaixo da pele. E que podem nos surpreender a qualquer momento com novas explosões. Nesse cenário de risco, uma escritora percorre o labirinto da escrita, descobrindo uma história de amor que vai muito além dos seus desejos.
Em cartas, contatos e movimentos inesperados, a história se desenvolve através das memórias e pulsões do obscuro Gérard, cuja personalidade enigmática vai aos poucos se desvelando – a cada página.
Com delicadeza e domínio da arte narrativa, Claudia Miranda constrói um romance em que a imaginação funciona como um espelho no qual personagem e leitor se encontram no tempo próprio da narrativa – tempo-espaço único, que só é possível na ficção.

Leia um trecho de Madressilvas em Pucón

"Gérard continuava na festa. Meu olhar fez um movimento de zoom sobre sua mão, que segurava um cálice. Os dedos compridos, nem gordos nem magros, pareciam dedilhar movimentos. Mão que não tinha pressa, nem fugia, tocava, mas não resistia ao contato. Seus gestos pareciam marcar compassos no ar, com precisão. O tempo, companheiro de seus atos. Que semelhanças teria com outros homens que conheci? Não me lembrava ninguém. Certos momentos nem mesmo parecia ser a mesma pessoa. Um conjunto de fragmentos de um enunciado sem nexo. Não queria que notasse minha presença seguindo-o com o olhar. Parecia tão real. Se o fosse, certamente seria um tipo que me daria medo cruzar o olhar em um possível encontro no caminho próximo à cabana do rio. Inspiraria em mim desejo? Hoje só aguça minha curiosidade. Que sensação teria a proximidade de sua boca carnuda? Seu hálito seco como um conhaque nobre.
 
Temeria olhar através dos seus olhos e enxergar além da costumeira tristeza que antepara minha vida? E se encontrasse algo que fizesse sentido? Lançaria anzóis para significados mais profundos? Poderia talvez descobrir que a ideia que faço de seu sorriso é equivocada. Apenas um belo esboço arquitetado pela moldura de seus lábios. Sem nenhuma ver dade. Que parte de seu corpo esconderia alguma verdade? Um corpo esbelto, um pouco sem forma em que as roupas frouxas escorriam sem nenhum medo de desnudá-lo."

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