quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

"A vida pede um tempo", de Clara de Góes






Quando você sai, 
a vida pede um tempo 
vai ao banheiro 
toma café, e volta 
quando você vem.

Clara de Góes





Clara de Góes combina em seus poemas a densidade e a leveza numa escrita em que ecoa uma delicada e intensa voz. O amor, as fragilidades e as pulsões são alguns dos temas presentes num livro em que o protagonista é o tempo – que desliza e vacila, seduzindo o leitor numa dança pelas páginas. Mais do que a alma, em A vida pede um tempo é o corpo quem sente a carícia dos dias nas rugas, nas mãos. Um corpo de poema que se deseja tocar, inquieto de palavras – que saboreia a passagem das horas na manhã que desliza entre lençóis, nas memórias guardadas nas dobras da pele.

Leia dois poemas de A vida pede um tempo:

O desejo não conhece a regra do lugar
o costume da casa
ante-sala de coisa nenhuma.
O desejo não limpa os pés no tapete.
Chafurda na lama,
deita,
rola
e o rastro é ruim de apagar.


*

Numa caixinha de metal
meu coração virou cristal
e irradia cores a cada
anoitecer. Um arco-íris dança na janela.
Pode-se ver o pote de ouro oscilando entre
gotinhas de orvalho e um gnomo obsceno
que espalha moedas a sua volta.
A menina dorme. Os cabelos voltam à cabeça
e o olhar, aos olhos dela.
Está pálida e ausente mas os cabelos
estão lá e o olhar e o gato.

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