segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Cartas trocadas - Lançamento


Estas cartas entre paciente e terapeuta contam a história de Elizabeth, que revisita seu passado para curar feridas íntimas e melhorar sua qualidade de vida. A cada missiva, o leitor entra em contato com uma história fascinante de superação pessoal, e é convidado a refletir sobre as dificuldades e os ganhos do próprio processo terapêutico.

Leia um trecho de "Cartas Trocadas"

Perdi a conta do número infindo de vezes que me senti violentamente exposta e invisível. Antes e após as cirurgias era fotografada, e reconheço a importância médica do fato. Mas aos 18, 19 e 20 anos, o momento era outro. Sempre para estudar, mostrar o caso aos residentes. Sempre perante vários médicos, que examinavam minhas coxas e virilhas, observando o sucesso cirúrgico. Quando reclamei, ouvi de minha mãe que aquele era um trabalho muito importante para o ensino e tive que calar a minha dor com mais uma bronca de quem deveria me proteger.

(...)Mais situações vieram quando reli o que você escreveu. Passei por várias experiências emocionais complicadas, no entanto esta foi muito marcante. Estava com 19 anos, tive alta no carnaval, quando a vida fica complicada. O meu desejo era voltar para casa, descansar da rotina do hospital e de mais uma cirurgia, precisava de acolhimento. Contudo, minha mãe decretou que iríamos para Petrópolis. Atitude absurda, argumentei. Tempo inutilizado: com minha mãe não havia diálogo. Em vez de contratar uma ambulância, pois eu ainda não podia andar, ela arranjou uma kombi. É, exatamente, minha mãe contratou uma kombi para me levar até Petrópolis. Colocou um colchonete no chão, e, sob o olhar perplexo das enfermeiras, fui em direção a Petrópolis em prantos. A invisibilidade me corroía em uma dor difícil de ser superada sozinha.

Como estávamos no carnaval, o trânsito era caótico por conta da festa, das alegorias, dos carros das escolas de samba etc. O pior era que parte da estrada era de paralelepípedo – eu seguia trepidando no chão da kombi por entre as curvas da estrada. A dor física era imensa, tanto quanto a emocional. Após esse episódio, passei a sonhar com o desejo de gritar e a voz não saía. Meu grito ficou interrompido como um grito mudo.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Onde terminam os dias


O novo livro de contos do premiado escritor mineiro Francisco de Morais Mendes traz a prosa certeira de um mestre do gênero, que costura seus espaços de memória e suas experiências de infância com reflexões sobre o ofício de escrever e sobre as relações pessoais num texto denso, intenso e original. O ambiente é urbano, o cenário é o humano, o tempo é paralelo e a linguagem apurada dá sentido ao conjunto. O leitor que termina o livro nunca será o mesmo que o começou, como só as grandes obras são capazes de fazer.

Leia Para evitar Leila, conto de Onde terminam os dias, de Francisco de Morais Mendes:

Onde terminam os dias

Os doze nomes e outros contos


Esta coletânea de contos – que sucede o aplaudido romance Os unicórnios – vem confirmar o talento de Marcelo Cid como um dos mais interessantes e inventivos escritores brasileiros da atualidade. Seu novo livro se destaca pelo universo ficcional riquíssimo, tramas fantásticas, e pela ágil transgressão de gêneros e papéis, aliada ao pleno domínio da intemporal arte de narrar.

Leia O hérmio, conto de Os doze nomes e outros contos, de Marcelo Cid.

Os doze nomes e outros contos

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Luzia


Um papel importante espera Luzia nos palcos da vida. Riscando histórias no seu caderno e arriscando-se nos palcos, ela percebe que, em vez de viver assombrada, deve ser mais rápida que seus próprios medos. Ao realizar testes para um filme, Luzia se lança no mar aberto da vida: nos braços de Joaquim Marino redescobre o próprio corpo, nas ruas de Esperanza encontra novas recordações para reescrever seu passado.

Susana Fuentes tece uma narrativa delicada, em que menina e mulher se fundem num passado e presente que se querem novos, num novo futuro. Entre ler, escrever, atuar e viver, essa personagem embarca numa viagem íntima que a levará a reinventar a sua inocência ferida na infância e a redescobrir sua força.

Leia um trecho de Luzia, de Susana Fuentes:

Luzia

Na barriga do boi


Com ritmo fluido e imaginário vibrante, o livro de estreia de Zé McGill ousa na experimentação, mesclando vozes, estilos e temas de forma criativa e original. Com um tom às vezes irônico ou mordaz, estas pequenas histórias se inscrevem na linha das obras de Twain, Fante e Bukowski – autores que sabem, como ninguém, trazer vida a cada frase destilada no papel. Numa escrita desnudada, sem afetações, os contos de McGill conquistam o leitor de uma só tacada e – das primeiras linhas aos desfechos surpreendentes – devem ser lidos num só fôlego.

Leia um conto de Na barriga do boi, de Zé McGill:
Na barriga do boi

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Toda a verdade sobre a tia de Lúcia


Embora guardem características que configuram o apreciado universo ficcional da autora, os contos deste livro trazem uma Sonia Coutinho diferente e renovada. Uma das novidades é a constante presença, como personagens, de figuras das artes e da literatura como Joseph Beuys, Van Gogh e Kasimir Maliévitch; ou Clarice Lispector e Vladimir Maiakóvski, entre outros. Entre contos longos, surgem alguns que se estendem por apenas duas ou três linhas. É a nova microficção de Sonia Coutinho, às vezes escrita diretamente nas redes sociais da internet, e que ela publica pela primeira vez. Experimental, mas de leitura fácil e atraente, “Toda a verdade sobre a tia de Lúcia” é um convite irresistível para quem gosta de literatura. Vale a pena conferir.

Leia um conto de Toda a verdade sobre a tia de Lúcia, livro de Sonia Coutinho.

Toda a verdade sobre a tia de Lúcia

O afeto


Por trás de uma vida confortável, sem sobressaltos, Denise esconde uma tristeza aparentemente sem sentido. A dor silenciosa a leva a tentar apagar a própria existência – embora falte coragem para levar o ato até o fim. Um dia, ao arrumar gavetas, Denise encontra um caderno que a faz rever, como num filme, imagens e emoções daquela época: o dia a dia antes e depois da separação dos pais, o vazio e a solidão da mãe, a relação com as amiguinhas da escola e do prédio, com o irmão, com pai. Por entre desenhos do Snoopy e músicas dos Menudos, o caderno revela a violência sutil de um mundo de diferenças sociais e econômicas, de vazios e afetos reprimidos. Um mundo regulado por leis invisíveis, porém rígidas – e incompreensíveis demais aos olhos infantis.

Leia abaixo um trecho de O afeto ou caderno sobre a mesa, de Sabina Anzuategui.

O afeto

Revista Lado 7 – número 2

Anotem nas agendas: o lançamento da Revista Lado7 número 2 será na próxima terça-feira dia 25 de outubro, na Travessa do Leblon. A revista conta com textos de:

Lu Menezes
Marcos Siscar
Laura Erber
Paulo Stocker
Marcílio França Castro
Luís Quintais
Júlia Studart
Raúl Antelo
Masé Lemos
Luiza Baldan
Felipe Scovino
Sergio Medeiros
Jacques Ancet
invasores de corpos
Manoel Ricardo de Lima
Roberto Alvim
Pedro Süssekind
Edward Lear
Eduardo Jorge
Mariano Marovatto

Além da revista, será lançada uma nova série de títulos com o melhor da ficção brasileira atual.
Esperamos todos vocês.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

OWNED



OWNED - Um novo jogador, de Simone Campos, é um livro-jogo que discute e parodia a cultura de videogames. O OWNED tem uma estrutura de game, à moda daqueles livros-jogos infanto-juvenis (Enrola e Desenrola, Aventuras Fantásticas) e de Cortázar (O jogo da amarelinha). Nele, o leitor vai entrar na pele de André, técnico de informática aficionado por videogames cuja vida começa a virar um videogame. André vai tentar conquistar pelo menos uma dentre sete mulheres, o que vai afetar sua busca e a definição de sua personalidade. O livro tem 18 finais diferentes, e inclui ainda um glossário, um guia de estratégia, e textos extras.

Leia um trecho de OWNED:
Terça-feira - tarde

Por mais que houvesse coisas a fazer no boxe, eu não conseguia me concentrar. Não tinha um chefe me olhando.

Fiquei repassando tudo o que tinha me acontecido. Numa situação destas, qualquer pessoa normal procuraria um psicólogo. Mas eu não tenho dinheiro para uma coisa dessas. Também não tenho a quem pedir indicação. Além disso, é evidente que não sou normal. Tenho mania de conversar comigo mesmo simulando outras pessoas, por exemplo:

– Então, doutor. Uma pessoa normal teria vindo falar com o senhor, mas eu não vim.

– É bem mais barato do que uma sessão de verdade.

– Por favor, não concorde comigo. É perturbador.

– Eu posso concordar com você se isso te fizer sentir desconforto.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Chove nos campos de cachoeira

A primeira edição de Chove nos campos de Cachoeira foi publicada em 1940, depois que o romance ganhou o prêmio “Dom Casmurro” oferecido pela Editora Vecchi. O prêmio e a publicação deste seu primeiro livro abriram caminho para que Dalcídio Jurandir se tornasse um dos mais importantes autores brasileiros do século XX, com uma obra que revela o universo urbano e provinciano de uma região afastada dos grandes centros, ao mesmo tempo em que toca naquelas questões universais do ser humano que permeiam toda boa literatura.

A este romance seguiram-se outros nove para formar uma série que ficou conhecida como “Extremo-Norte”, reunindo as principais obras do autor.

Reeditado em 1976 pela Editora Cátedra e esgotado desde então, Chove nos campos de Cachoeira chega agora às mãos dos leitores do século XXI numa versão inédita, preparada a partir de anotações, correções e emendas feitas pelo próprio Dalcídio num exemplar da primeira edição – localizado recentemente na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, para onde foi doado o acervo do escritor – após minucioso cotejo e preparação do texto pela professora e pesquisadora Rosa Assis.
Como aquelas obras clássicas que sobrevivem ao tempo, Chove nos campos de Cachoeira é um romance que vai muito além do regionalismo (presente tanto no estilo quanto no universo retratado pelo autor), revelando novos e diversos sabores aos leitores de hoje.


"Quando as chuvas voltavam, então era que d. Amélia sentia mais desejos de levar Alfredo para Belém. Já está crescido, ele, mas tudo pode acontecer com aquelas águas que iam e vinham, mornas e silenciosas. Os jijus vinham na enchente e para Alfredo não pareciam peixes, pareciam filhos de sapo e de cobra. No chalé não se comia daquele peixe porque era como se comesse lama. Mas Alfredo gostava das grandes chuvas. Podia ter medo mas era enorme a sensação de ouvir, uma noite, o ronco dum jacaré debaixo da casa. As montarias andavam pelos campos. Didico ia com o seu pequeno barco pegar porfia com o barco do Roldão, na lagoa atrás da casa do Dr. Adalberto. Aqui, deste lado de Cachoeira, não se andava mais a pé, se navegava. 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Versos desgarrados (Correio Braziliense)

Por Felipe Moraes
Correio Braziliense - 18/09/2011

O título do novo livro de poesia de Abel Silva inspira mais do que um par de trocadilhos engraçados. poemAteu (7Letras), designado assim mesmo, com apenas uma letra em maiúsculo, vem sendo escrito há três anos, com uma entrega sem reservas do autor carioca. “Ao escrever o livro, notei que tudo na minha vida foi a palavra. Toda a minha força, a minha expectativa, todos os lucros, todas as vitórias, todas as derrotas, todos os tropeções vieram da palavra. Para mim, ser poeta não é uma escolha”, diz ele. Abel talvez seja mais conhecido pelo trabalho como compositor de canções populares, como "Jura secreta", interpretada por Simone, "Sangue e pudins", por Fagner, e "Festa do interior", em parceria com Moraes Moreira. Na coletânea inédita, o letrista confirma a vocação primeira: a do verso, seja ele musicado ou não.

Ele escreve praticamente todos os dias, mas sem a carga de seriedade de um projeto com prazos rígidos ou temáticas inflexíveis. “Vou fazendo e relendo. Até que os poemas vão, naturalmente, me levando para algum tema, alguma estrutura, alguma espinha dorsal. Pode vir da situação política do país ou de algum fato pessoal”, descreve.

No site da editora, poemAteu é comprimido em 14 faixas—como um disco gratuito —, com poemas lidos por Abel: complemento sonoro de uma produção iniciada em silêncio. “Digo que é para o ouvido e para os olhos. A poesia escrita é para a solidão do olhar do leitor. A pessoa sozinha lendo o poema que alguém escreveu sozinho”, explica. As imagens evocadas por ele se entremeiam em galhos, flores, raízes e rios, num pessimismo que prefere a melancolia à simples ironia: “Eu sinto a mágoa de um mundo gasto/Com mais chorume que água”, ele lamenta em Paisagem.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Marcelo Cid e Cezar Tridapalli na edição de Setembro do Rascunho

O jornal literário Rascunho dedicou sua edição de Setembro a dez novos romancistas brasileiros. A lista inclui dois autores da 7Letras: Cezar Tridapalli (Pequena biografia de desejos) e Marcelo Cid (Os Unicórnios).

Ao lado da digressão, Marcelo Cid vale-se com igual competência da ironia, lançada de maneira refinada para quase sempre camuflar uma acidez de caráter machadiano. Talvez seja impossível não comparar o estreante ao Velho Bruxo no que tange ao uso da referida técnica, mas o cotejo não é necessariamente um expediente de fácil submissão do novato ao canônico, principalmente porque o autor soube dar ares novos a uma característica antiqüíssima, tomando como seu algo que é de muitos, como diz o próprio narrador (“Ora, mesmo em literatura, louvamos em autores clássicos artifícios que julgamos ridículos nos que vieram depois”).
(Prosador fingidor, por Marcos Pasche)

Até que ponto a biografia é dos desejos? É um questionamento que pode ser feito sobre a propriedade do título do romance. Desidério vem de desejo, é um ser desejante como as outras criaturas que com ele contracenam. Mas isso será suficiente para defini-lo? As histórias que aqui se narram falam de desejos, mas também de frustrações, de incomunicabilidade, da inércia frente aos obstáculos que a vida inexoravelmente impõe. Que papel teriam os desejos nesse conjunto paradoxal de sentidos, sentimentos, paralisações, ações e reações? Que expectativas do leitor são satisfeitas ou frustradas nesse processo? Cabe, estabelecer as diferenças entre surpresas produtivas e hermetismos impenetráveis. Neste sentido o narrador de Tridapalli esforça-se para garantir coerência em meio a tantos paradoxos.
(A reinvenção da vida, por Vilma Costa)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Cenas de infância no interior


Romance de formação de Elias Fajardo explora a Zona da Mata mineira

(Ronize Aline – O Globo, caderno Prosa & Verso, 10 de setembro de 2011)

Não importa em que lugar, em que língua, se sob o frenético cotidiano de um centro urbano ou na aridez de um sertão distante: a passagem da meninice para a adolescência é sempre cumprida na ânsia de deixar definitivamente para trás os resquícios da infância. E é dessa urgência universal que se tem ocupado o romance de formação, gênero que se dispõe a tentar captar esse momento de fugidia compreensão e traduzi-lo em palavras. O romance de formação (ou Buldungsroman, em alemão) retrata de que forma fatos e acontecimentos externos agem sobre o protagonista, e seus efeitos sobre a gradativa formação interior do mesmo.

À aridez da realidade, contrapõe-se a imaginação
“Ser tão menino”, de Elias Fajardo – que será lançado na próxima quinta-feira, dia 15, a partir de 19h30m, na Moviola (Rua das Laranjeiras 280/Loja B) – , situa-se nessa tradição ao lançar um olhar carinhoso (mas nem por isso condescendente) sobre o menino, assim mesmo, sem nome, que vive na pequena Tebas, situada na Zona da Mata mineira, mas que poderia estar em qualquer lugar do mundo. Para virar moço é preciso, antes, enfrentar não só o “sertão proibido das Gerais”, como também aquele sertão íntimo onde os desejos secam antes mesmo de virarem lembrança. Mas à aridez da realidade nosso personagem contrapõe uma imaginação farta, e constrói memórias que correm soltas em busca de uma mocidade que acredita reservar-lhe grandes promessas. Dos passeios de charrete e jogos infantis, ele parte em busca de sensações desconhecidas, com o primeiro gozo, e experiências que o joguem de vez na mocidade.

Fajardo impinge à escrita a mesma urgência do menino, poupando o texto de supérfluos e fazendo-o jorrar num fluxo constante pontuado por metáforas e figuras de linguagem. O narrador se permite viver a imaginação do menino e contá-la como se história fosse e, assim, transformá-la em memória tal e qual os fatos vividos naquela terra de chão firme. Vez por outra, uma voz invade a narrativa, lembrando os coros gregos, chama a atenção e descortina o não-dito pela boca do narrador. Essa voz parece querer nos lembrar que são de outra gente, outros tempos, as recordações, que não nos pertencem. Como já não pertencem ao narrador, que tenta manter seu “eu”, como se já tivesse ele mesmo feito menino. “Cansei do personagem eu, mas se todos os que surgem nestas páginas somos eu, onde é que vou amarrar minha égua?”

O pintor se imiscui nas artes do escritor, que desde 1980 expõe aquarelas e pinturas, fazendo de cada parágrafo uma imagem a ser vislumbrada. “Mudas testemunhas de gestos ensaiados, as lentas lembranças do velho barbeiro tentam reter fugidias melodias; a falta de atenção do moço de ouvidos moucos quebra os acordes como uma marreta tritura a pedra fina.” Ou “os postes também galopam para não perder o baile da eletricidade, mas quem corre é o nosso herói, seguro na boleia do caminhão”.

Ao largo dos personagens principais vão desfilando outros personagens, que podem aparecer uma única vez mas, nem por isso, são menos importantes para entender o turbilhão que vai no peito do menino. É, principalmente, pelo olhar dos outros, habitantes daquela mesma terra e companheiros nas mesmas desventuras, que conseguimos defini-lo. E o autor dedica igual atenção e esmero a todos, seja a “cigana que se chega pro pai dizendo coisas, tocando pandeiro, cantando”, sejam as “mangas (que) amadurecem, pensativas, antes de desabar no chão”. Ou, ainda, a “casa que espia por quatro janelas dos lados e três na frente e sorri, tímida, através da pequena varanda, aliás chamada alpendre”.

Em alguns raros momentos o uso de ditados e clichês arraigados na tradição ameaça romper o tênue limite do excessivo. Mas rapidamente a sensação incômoda dá lugar ao jogo cadenciado das palavras, que Fajardo dispõe com maestria, voltando a imprimir seu ritmo singular à narrativa.

Em determinado momento, ele escreve: “As palavras são aves que fugiram de seus ninhos e vieram pousar aqui, nestas páginas que agora você está tentando ler. Cuidado: se fechar o livro de repente, elas levantam vôo e pode-se ouvir nitidamente seu rufar de asas”. É exatamente essa a sensação: o autor mantém as palavras cativas de sua narrativa e, no entanto, são palavras ariscas, fugidias, prontas para alçarem vôo e seguirem o vento rumo a outras histórias de outros meninos-moços. Portanto, é preciso apreciá-las antes que se dispersem.

Um jovem poeta que busca o atraso na escrita

Em ‘Ramerrão’, Ismar Tirelli Neto faz do descompasso com o mundo uma forma irônica de crítica e reflexão

(Franklin Alves Dassie - O Globo, caderno Prosa & Verso, 3 de setembro de 2011)

“Ramerrão” é o segundo livro de poemas do jovem Ismar Tirelli Neto. Publicado três anos após “Synchronoscopio”, parece seguir um dos caminhos trilhados no livro de estreia. Entre um humor quase histérico e uma narratividade melancólica (atravessada, em certo sentido, pela ironia), Ismar parece investir, conscientemente, no segundo caminho. Esse é encenado, entre outras coisas, através de um endereçamento que o autor apresenta no poema que abre o livro? “Remeto uma série de cartas estridentes a R. Um apanhado de provincianismos do peito. Como lá me vão, a íntegra”. A estratégia conjuga uma dimensão pública (a cena do teatro) e outra íntima (o escândalo doméstico) e faz lembrar, assim a noção de “cena” que Roland Barthes não cansava de lembrar.

Essas “cartas estridentes”- esse “apanhado de provincianismos do peito”- são escritas por um personagem que estabelece com os lugares e ventos uma relação deslocada, como se as cenas de “Ramerrão” fossem interpretadas por alguém que está sempre atrasado. E será essa uma das imagens mais recorrentes no livro: “atrasado/ para uma palestra/ atrasado/ para o ano novo/ atrasado/ para o próprio/ apedrejamento”. Atrasado para reconhecer o fim de um acontecimento, como se lê em “Reality roll”: “O medo de perder o que, a rigor, já está”. O atrasado vê as coisas passarem, parece não lidar bem com eventos simples, enfim, se relaciona com as coisas práticas de uma forma “incompetente”. “Ele pensa em fazer a cama” encena isso: “Todos os meus/ vizinhos, os teus inclusos, já/ fizeram as suas/ Por que você não/ tenta?”.

E depois de se perguntar, afirma: “Atrasado de novo, ele falha/ ao embarque. Enquanto ela parte; o/ mar, lençol badernado”. Atrasado, o personagem das cenas de Ramerrão se define assim no poema “Os arquivos”: “Sou um homem/ detrás do seu tempo. Me ultrapassa o que vim/ fazer aqui”. A experiência de estar sempre atrasado, entretanto, é atravessada nesses poemas por uma autoironia que problematiza uma noção romântica do autor como alguém incompreendido, que não se adapta ao mundo, que está “atrasado” em relação ao tempo presente.

Mas, ao mesmo tempo, tal experiência remete ao passado, a um exercício de memória, que estaria relacionado ao endereçamento que Ismar escolhe como procedimento poético. A terceira parte de “Preocupações épicas” mostra isso: “As primeiras lembranças/ sofrem rasgos/ profundos/ nos lados/ dos indicadores/ cutículas/ arrancadas”. E o poema termina assim: “O menino/ põe sangue entre/ as ferragens/ Sua Olivetti/ gagueja”. Isso, por um lado, é a oportunidade de ver a cena da escrita: a dificuldade de dar forma às “primeiras lembranças”, que se rasgam nesse gesto, e como escrever acaba sendo um gesto corporal, que imprime no corpo outros “rasgos”- indicadores machucados, cutículas arrancadas. Por outro, a cena da escrita mostra como Ismar tensiona os tempos: o passado afeta diretamente o presente, vide o corpo lacerado (a mão que escreve) e, assim, a escrita não se transforma numa espécie de lugar de lamentar aquilo que o atrasado perdeu, deixou escapar. A melancolia é então problematizada e a rotina – que o título do livro sugere – atravessada por um ruído “estridente”.

Resposta a um tempo pautado pelo imediato
A tensão entre passado e presente aparece no poema “A história da riqueza dos homens (uma balada)”, quando Ismar solicita a forma da balada para montar outra cena: “bom,/ cá estou,/ no passo exato/ onde previa estar/ escrevendo/ esquetes humorísticas/ de quinta/ para uma súcia/ de desmiolados”. Esquetes de quinta: e mais uma vez a ironia agindo como potencia capaz de suspender a seriedade que a leitura das narrativas do atrasado poderia suscitar.

“Ramerrão” irá sugerir (ou endereçar), nesse sentido, uma questão: de que forma se colocar diante de um tempo em que o imediatismo parece imobilizar uma forma de pensamento menos “competente”- no sentido de ser menos prático – e que vá além do “no que você está pensando agora?” ou “o que está acontecendo?” das redes sociais. Ismar sugere uma resposta ao figurar nessas cenas alguém que se questiona, mas que volta meia se atrasa, porque talvez tenha ficado preso numa “Cena contínua num restaurante de beira de estrada”, para lembrar outro poema do livro. Preso num lugar em que o passado – os escombros de uma espelunca – é motivo de uma “emoção inculta”. Melhor, que o passado, através da escrita, faz surgir no presente uma “cena contínua” e nem um pouco banal.

Três olhares sobre o contemporâneo

O blog do "Prosa & Verso" publicou  uma entrevista com Paloma Vidal, Carola Saavedra e Michel Laub, autores presentes na Bienal do Rio. Leia aqui a entrevista completa.

A presença de Carola Saavedra, Michel Laub e Paloma Vidal na programação da Bienal sinaliza que o evento, geralmente mais associado a best-sellers e ao público infantojuvenil, receberá este ano parte dos debates correntes sobre a literatura brasileira contemporânea. Nascidos na primeira metade da década de 1970 (os dois primeiros em 1973, a última em 1975) e publicando regularmente ao longo da última década, com boa recepção crítica, os três autores responderam, por e-mail, a perguntas sobre alguns dos temas que têm pautado esses debates, como o posicionamento da crítica em relação à produção atual, os possíveis pontos de contato entre o trabalho dos autores contemporâneos (e a eventual impossibilidade — ou inutilidade — de procurá-los) e o lugar do escritor num país de poucos leitores. Autora de “Paisagem com dromedário” (Companhia das Letras) e outros três livros, a chilena radicada no Brasil Carola Saavedra dividirá a mesa do Café Literário neste domingo, às 14h, com o gaúcho Michel Laub, autor de cinco romances, entre eles o recém-lançado “Diário da queda” (Companhia das Letras). Já Paloma Vidal, que nasceu em Buenos Aires mas vive no Brasil desde a infância, e fez desse trânsito entre culturas tema tanto de seus livros de ficção, como “Algum lugar”(7 Letras), quanto de seu trabalho acadêmico, estará no Café no próximo sábado, dia 10, também às 14h.


quarta-feira, 15 de junho de 2011

Charles Peixoto volta à poesia depois de 26 anos sem publicar



O Globo, 15 de junho de 2011
(Miguel Conde)

Quando pensa nos 26 anos que passou sem publicar poesia, um longo período de silêncio agora encerrado com o lançamento de “Sessentopéia” (7Letras), Charles Peixoto lembra o dia em que deu de cara com pilhas de seu livro “Marmota platônica” (1985) armazenadas no estoque da extinta editora Taurus, no Rio de Janeiro. O escritor que nos anos 1970 se destacava em meio às ruidosas performances coletivas da Nuvem Cigana, núcleo criativo da chamada poesia marginal, e que ainda hoje fala da poesia como atividade gregária, um jeito peculiar de comunicar-se com outras pessoas, sentiu o encalhe da própria obra como uma forma de solidão:

- De repente me deu uma sensação de absurdo: todos aqueles livros sem ninguém para ler. “Nunca mais vou fazer isso”, pensei.

‘Surpresas e porradas'

Já o livro que põe fim à resolução de quase três décadas atrás não resulta de um único instante decisivo, mas de uma série de coisas díspares acumuladas nesse tempo: estímulos de amigos, como o poeta Armando Freitas Filho; conversas com escritores mais jovens interessados em seus livros antigos (“isso me alimenta”, ele diz); e, em primeiro lugar, poemas que nesse tempo foram escritos em cadernos, agendas, folhas soltas, guardanapos, o que estivesse à mão. “Sismograma de um cérebro em surto”, como é definido no poema-título, “Sessentopéia” (o autor fez questão de manter o acento banido pela reforma ortográfica) recolhe, entre as poesias criadas desde 1985, aquelas que “se mantiveram mais próximas de mim”, afirma Charles. Um conjunto escrito portanto dos 36 aos 62 anos de idade, período em que viu sua filha crescer, consolidou-se como roteirista da TV Globo e trocou a estranha roupa-armação de arame onde pendurava os poemas declamados com a Nuvem Cigana pelo figurino mais convencional que se vê na foto acima.

- Usar essa palavra é meio difícil, mas acho que o livro mostra um certo amadurecimento, uma vivência de tudo aquilo que a vida te traz, de surpresas e porradas – diz o autor, que lança o livro hoje às 19h na Livraria Argumento do Leblon.

Entre surpresas (“você me deixa fora de órbita como um satélite em transe”) e porradas (“sabor azinhavre que cobre a cópula com a vida sóbria”), a “Sessentopéia” de Charles Peixoto parece fazer desse amadurecimento uma forma de renovação. Comovido (“a visão da minha filha/me emociona como um folhetim enxuto”) ou irônico (“entulhos nós temos aos montes/(...) lembranças, arrependimentos, vaidades, desilusões/assim sendo: disk-entulho/jogue tudo numa caçamba-canção/e saia a flanar”), o poeta arrisca em verso outra definição sugestiva para seu livro: “páginas da biografia secular de um recém-nascido”.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Mensagem, de Fernando Pessoa

Treze de junho será sempre lembrado como a data de nascimento de um dos poetas mais fascinantes da língua portuguesa: Fernando Pessoa. Para assinalar a data em que Pessoa completaria 123 anos, reproduzimos o poema "D. Sebastião, Rei de Portugal" do livro Mensagem, o único que o poeta publicou em vida, quase um ano antes de sua morte. Contando com Cleonice Berardelli e Mauricio Matos como organizadores, a edição da 7Letras é fiel à primeira, de 1934, corrigida pelo próprio autor, e mantém sua ortografia original.

D. Sebastião, Rei de Portugal


Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.


Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Leonard Cohen ganha prêmio Príncipe das Astúrias de Letras

Leonard Cohen foi anunciado hoje como o vencedor do Prêmio Príncipe das Astúrias de Letras,  que já homenageou autores como Paul Auster (2006), Gunter Grass (1999) e Juan Rulfo (1983).


Leia o poema Dance me to the end of love, de Leonard Cohen, na tradução de Fernando Koproski publicada em Atrás das linhas inimigas do meu amor.


Dance-me até o fim do amor

Dance-me até a sua beleza
com um violino ardente
Dance-me pelo pânico
até eu estar calmamente
Hasteie-me como a oliveira
e seja meu pombo orientador
Dance-me até o fim do amor

segunda-feira, 30 de maio de 2011

"Os unicórnios" no Prêmio São Paulo de Literatura 2011

"Os unicórnios", de Marcelo Cid, é um dos 10 finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria autor estreante. Os vencedores nas categorias livro do Ano e autor estreante serão conhecidos durante a cerimônia de premiação no Museu da Língua Portuguesa, em agosto.


No romance de Marcelo Cid, o professor de literatura francesa Artur Borges perde os dois mil seiscentos e trinta e quatro livros da sua biblioteca quando um incêndio lavra seu apartamento. Os dois unicórnios que encimavam sua estante são os únicos sobreviventes. Para refazer a sua coleção, ele decide montar uma insólita Biblioteca de Livros Furtados. Como um gatuno refinado, este narrador-personagem tem um código de ética: escolher apenas obras-fetiche para subtrair das estantes alheias.

Leia um trecho de Os unicórnios, de Marcelo Cid:

Bibliotecas são coisas vivas, crescem acompanhando nossa vida, nossas esperanças, nossos amores e desilusões. Abrigam, como embaixadores do passado, aqueles livros que ganhamos de pessoas queridas, os que herdamos, os que compramos, os que esquecemos de devolver, até os que roubamos... De qualquer maneira, são sempre retrato de quem as montou, não só nos livros contidos como também na maneira como estão dispostos nas estantes. Algumas pessoas organizam seus livros por assunto, outras pelo nome ou sobrenome do autor, outras não os arrumam de maneira alguma, deixando ao ziguezague dos olhos ou ao acaso a tarefa difícil de recuperar algum volume.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A ocasião faz a culpa, de Sérgio Bruno Martins



“Não estou roubando dinheiro”, explicou-se o artista pernambucano Lourival Cuquinha, “o que eu estou fazendo é uma operação de câmbio invertido.” Cuquinha foi a primeira pessoa a interagir “plenamente” com a versão londrina de Ocasião (1974, 2004, 2008), de Cildo Meireles, durante sua abertura, em outubro de 2008, na Chelsea School of Art & Design.

Continue lendo A ocasião faz a culpa, de Sérgio Bruno Martins, na Revista Lado7 – lançamento terça feira dia 31 de maio. 

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Pedro Franz – Revista Lado7


Leia uma prévia do terceiro volume da HQ " Promessas de amor a desconhecidos enquanto espera o fim do mundo", de Pedro Franz, no número de estreia da Revista Lado7.

Ramerrão, de Ismar Tirelli Neto




Que o leitor não se deixe (des)enganar: são muitas as leituras que se abrem neste Ramerrão de Ismar Tirelli Neto. Em meio a sutis modulações que nos levam ora para um tom epistolar, ora para o verso da prosa, e em outras horas para algum lugar que fica além do mero poema, o autor mostra que é mestre em fugir do óbvio, em criar novos sentidos com o fino artesanato de quem sabe brincar a sério com as palavras. Cada cena, sequência e corte deste ramerrão nos conduzem cinematograficamente pelos cenários mais diversos: a casa, o quarto, o hotel, ruas e postais do mundo inteiro, num labirinto de imagens que expõe intimidades – que só podem ser nossas, as desses personagens estranhos embora íntimos. Tendo nas mãos a chave-mestra que o autor nos oferece para abrir as portas dos labirintos da linguagem, podemos encontrar aquela matéria oculta e rara de que é feita a poesia.

Ramerrão será lançado na terça-feira, 31 de maio, a partir das 19h, na Livraria da Travessa Leblon, num evento que marca também o lançamento da revista Lado 7 e dos livros Uma cerveja no dilúvio, de Afonso Henriques Neto; Relógio de pulso, de Ana Guadalupe; Sessentopéia, de Charles Peixoto; Água para viagem, de Lorena Martins, e da segunda edição de A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, de Gregorio Duvivier.

Leia "O amigo solteiro" – ou ouça o poema na voz de Ismar Tirelli Neto.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora (2ª Edição)

Gregorio Duvivier, mais conhecido pelo seu trabalho como ator, revela seu talento como poeta nas páginas de A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, já em sua 2ª edição.

No livro, o humor apresenta uma riqueza de nuances, indo do lúdico ao cáustico. Em outros momentos o autor nos brinda com um “delicado toque lírico”, como define Paulo Henriques Britto. Ainda há espaço para brincadeiras com a poesia visual, como nos poemas “a régua e esquadro”. O ecletismo característico da nova geração de poetas brasileiros está presente em A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora. A multiplicidade de referências e os jogos com a linguagem e a forma são traços marcantes dos poemas de Gregorio.

A segunda edição de A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora será lançada na terça-feira, 31 de maio, a partir das 19h, na Livraria da Travessa Leblon, num evento que marca também o lançamento da revista Lado 7 e dos livros Uma cerveja no dilúvio, de Afonso Henriques Neto; Relógio de pulso, de Ana Guadalupe; Sessentopéia, de Charles Peixoto; Ramerrão, de Ismar Tirelli Neto, e Água para viagem, de Lorena Martins.

Água para viagem, de Lorena Martins

A escrita de Lorena Martins é sonora e sensual, tem o doce sabor de saliva da palavra amorosa, tecendo e entretecendo cenas que traduzem uma poesia de beleza singular.




“Livro sentimental, e de exageradas águas: dilúvio, lábios, tempestades, torrentes que batem nas janelas como se fossem portas a lembrar de quem desejamos. Os versos sinalizam: ela se excita com pouco. A poesia sempre foi o mínimo.” – Fabrício Carpinejar.

"Nunca acreditei na poesia classificada por classe social, gênero, raça, cor, religião. Acredito nos bons e maus poetas. Mas percebo que uma coisa não exclui a outra. Ninguém fala de lugar nenhum. É a nossa segunda pele, nossas digitais. A poesia de Lorena deixa claro uma alma feminina, um contínuo viajar num mar sensorial de perfumes, pequenos gestos, sabores, detalhes, interiores. A mulher sente mais. A mulher sente muito. E sente com o corpo. E sente pelos poros. E isso é o tempo todo expresso por Lorena." – Chacal

Leia um poema de Água para viagem

(da sutileza dos poros,
a imersão)


sugiro um mergulho
ou a cáustica fotografia
de meus retalhos
desmesurados
à tua esquina.

sugiro-me assim,
distante.


dos faróis que flertam
com meus insultos olhos,
bebo a metade.

salivo teores
insones

temo voltar.
eu vejo,
cansado
e calado claustro,
o desespero:

diante da porta,
visto
e guardo chuvas.

Água para viagem  será lançado na terça-feira, 31 de maio, a partir das 19h, na Livraria da Travessa Leblon, num evento que marca também o lançamento da revista Lado 7 e dos livros Uma cerveja no dilúvio, de Afonso Henriques Neto; Relógio de pulso, de Ana Guadalupe; Sessentopéia, de Charles Peixoto; Ramerrão, de Ismar Tirelli Neto e da segunda edição de A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, de Gregorio Duvivier.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Chacal no Prêmio Portugal Telecom 2011


O poeta Chacal é um dos finalistas do Prêmio Portugal Telecom 2011 com o seu último livro  "Uma história à margem. Mais do que uma autobiografia repleta de aventuras, artimanhas e peripécias, a história de Chacal é um verdadeiro manual de sobrevivência da poesia – uma arte vivida, falada, escrita e sentida, que não se pauta pelos padrões comerciais da cultura de massa.

Veja aqui a lista dos títulos que concorrem ao Prêmio Portugal Telecom 2011.

Sessentopéia, de Charles Peixoto



Mais de 25 anos depois da Marmota Platônica, que reunia os textos de suas primeira publicações mimeografadas, Charles Peixoto apresenta esta Sessentopéia de múltiplas faces – todas elas revelando um dos poetas mais inventivos e criativos de nossa língua.

É com o mesmo talento presentes em 1971 em sua estreia com os 100 exemplares de Travessa Bertalha 11 – que ajudou a batizar e a forjar a chamada “Geração mimeógrafo” –, que Charles marca presença novamente em 2011. Entre suas linhas habilmente aliteradas por sinuosas figuras de linguagem, e diante da explosão de sons e ruídos surgidos desde que uma nuvem cigana passou por aqui, podemos ouvir a voz viva do poeta: no verso da margem, oráculo de seu tempo.


Leia – ou ouça – o poema Minha seriedade conjugal é um camelo, de Charles Peixoto

Minha seriedade conjugal é um camelo
o redondo universo azul ainda parece um pavão infantil
massacra menos a presença dela que os multinacionais furacões
                                                            da passividade matrimonial ltda
não faço mais árias longas ou pequenas e contundentes melecas
ando mastigando um chiclete de segunda
tô cometa rabudo sem conexão terra
um gato de rua
um elemento distinto
o quinto dos infernos com programação divina
teias do ofício
sei que no fundo do vício ainda caio na cama
e depois de proclamar minha ressaca universal
saio de pé em pé pelas pedras rio acima
rio abaixo
como um canastrão rola compondo cruas polentas

Maria Laet - revista Lado7




 Maria Laet é a artista plástica convidada para o número de estreia da revista Lado7.

Vem aí....revista Lado7


arte + poesia + contos + quadrinhos + ensaios + dramaturgia em revista 

segunda-feira, 23 de maio de 2011

"Uma cerveja no dilúvio", de Afonso Henriques Neto



“Que negócio é esse de poesia-magia? Bonsbocados de alquimia (introjetar/exsudar paisagens)? Inconsciente de cosmos? Sonhoso selvagem? Dor do imaginário? (Desconhecer é que nos delira?). Seja como for, ainda seguir com o melhor Rimbaud”. – Em Uma cerveja no dilúvio, Afonso Henriques Neto mostra que é muito mais do que um ícone da poesia marginal – e se consagra como uma das vozes mais singulares e originais da poesia contemporânea brasileira.

Afonso Henriques Neto lança o seu  Uma cerveja no dilúvio  na terça-feira, 31 de maio, a partir das 19h, na Livraria da Travessa Leblon.  No mesmo evento, a 7Letras lança a novíssima revista Lado7 e os títulos de poesia Relógio de pulso, de Ana Guadalupe; Água para viagem, de Lorena Martins; Sessentopéia, de Charles Peixoto; Ramerrão, de Ismar Tirelli Neto e a segunda edição de A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, de Gregorio Duvivier.


Ouça Basta de poesia na voz do próprio poeta.

Basta de poesia

nuvens de cimento não pertencem à paisagem
ventos de granito em discursos descabelados
porque arte não é coisa de amadores
é matéria pra profissional mesmo
assim é melhor botar a juventude pra fora da sala
e do tempo
os jovens costumam delirar demais
pela arte
que no fim das contas é coleção de febres & abismos de transe
vulcões empedrados & fumo gelado pra velhos vagabundos
salvos do incêndio na galeria desesperançada

pois aqui só leva o prêmio quem não apostar porra nenhuma
ou quem mijar de tanto rir da cara
desses senhores que flutuam por entre acervos de museus
e colam maus poetas e artistas amigos em edições de luxo
mais literatura marqueteira nas grandes editoras & feiras
falando da arte como se fosse um empíreo
de fabulações fabulosas a mastigar
solenes voragens de ouro
& brinquedinhos semânticos com palavras estripadas
pelos profissionais das vanguardas
todos criticamente estupidamente bem penteados
em teorias ideologias midiáticas pulsantes
e vai se ver é tudo isso junto mesmo


no fundo a poesia está pouco se lixando
para o lixo que as cidades costumam empilhar
poesia que sempre é chamada para lavar
lençóis nebulosos de epidemias criminosas
mesmo se ninguém saiba que merda de poesia é essa
um áspero lautréamont no semear neblinas negras
(venha venha oh sublime silêncio constelado
para expulsar os demônios e limpar os escarros
desses delírios que vícios escamaram)

Relógio de Pulso, de Ana Guadalupe


O tempo dos relógios não é o tempo dos poemas.
O tempo dos poemas não se mede em relógios, instante súbito e preciso que salta à margem das horas para marcar o que está além do tempo: um sorvete que nunca derrete, o repetente da quinta série, aerogramas jamais enviados pelo correio.
Ana Guadalupe sabe como encontrar esses lugares, coisas e tempos onde ficam guardados os poemas, e sabe como mostrar pra gente. Sabe tratar as palavras com doçura, combinando sabores e ritmos, harmonizando sutis modulações, cativando o leitor com um texto que consegue dizer muito falando pouco, como só quem é poeta sabe fazer.



Relógio de pulso será lançado na terça-feira, 31 de maio, a partir das 19h, na Livraria da Travessa Leblon, num evento que marca também o lançamento da revista Lado 7 e dos livros Uma cerveja no dilúvio, de Afonso Henriques Neto; Água para viagem, de Lorena Martins; Sessentopéia, de Charles Peixoto; Ramerrão, de Ismar Tirelli Neto e da segunda edição de A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, de Gregorio Duvivier.

Leia dois poemas de Ana Guadalupe:

Sem querer elisa
sem querer elisa
tropeça no tapete
a caminho da cozinha
à meia-noite

sem querer elisa
esqueceu as calcinhas
lavadas no banheiro
há 3 semanas

sem querer elisa
no quarto da frente
borrifa saliva
nas folhas

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Quenga de plástico

Em Quenga de plástico, a ex-atriz pornô, atual dançarina e futura professora de balé Leysla Kedman narra, sem medos e sem pudores, suas peripécias afetivo-sexuais: o encontro com Rony Claus na rodoviária, a paixão fulminante pelo Capitão Renascimento (do peitoral "tropa de elite"), as agruras da convivência com a colega Lurdirinha ou a relação com Maíra, a trava que queria ser a mulher da relação. Destilando ironia e bom humor, Leysla abre suas intimidades aos leitores e mostra que não tem vergonha de explorar os paus alheios nem de levar seus amantes ao amoricídio - sim, Leysla não é inventiva só no sexo: seu texto e seu vocabulário também são perigosas armas de sedução.

Leia abaixo um trecho de Quenga de plástico, romance de Juliana Frank.

Quenga de Plástico

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O tom da infância

A difícil convivência com a mãe superprotetora é o fio condutor de uma narrativa diante da qual é impossível ficar indiferente. Cada cena, cada gesto, cada pequena conquista da menina diante de um mundo muitas vezes hostil nos remete à inocência perdida de uma infância pontuada por dificuldades, mas que deixa uma bela lição de vida, de coragem e de superação.


Leia abaixo um trecho de O tom da infância, de Fany Aktinol

O tom da infância

Quenga de plástico






Neste livro impróprio para menores, a ex-atriz pornô Leysla Kedman narra com os maiores detalhes suas peripécias sexuais, sem medo e sem pudores. O leitor iniciado irá se deleitar com o estilo direto dessa narradora sem meias-palavras, que abre sua vida interior (abre os braços, o coração e as pernas...) com desprendimento para que possamos penetrar nas profundezas de suas intimidades mais recônditas. Destilando ironia e bom humor, Leysla é uma companheira de viagem divertida e deliciosa, uma personagem impagável, moderna e bem resolvida, sem vergonha de explorar os paus alheios ou de levar seus amantes ao amoricídio - sim, Leysla não é inventiva só no sexo: seu texto e seu vocabulário também são perigosas armas de sedução, e revelam o talento de uma escritora com pleno domínio da arte narrativa, que merece ser descoberta, saboreada e desfrutada pelos leitores de paladar mais exigente.


Quenga de plástico, ou "A filosoquenga do Baixo Augusta" foi a leitura pop indicada pela edição de 1 de maio da Ilustríssima (Folha de São Paulo):

"Por causa da lei Kassab", que acabou com os luminosos das boates, a "filosoquenga" e ex-atriz pornô Leysla Kedman arrumou o emprego de distribuidora de panfletos de inferninhos na rua Augusta. Ali ela conhece o capitão Renascimento ?e outros personagens do submundo paulistano - policiais, putas, dançarinas, motoristas de táxi que pipocam na noveleta de estreia de Juliana Frank, nascida em 1985. Na forma de crônicas que se entrelaçam, a narradora vai entornando pérolas filosóficas sobre as agruras e alegrias da vida no bas-fond. Lançamento na Livraria da Vila (rua Fradique Coutinho, 915), na sexta-feira, às 18h30. (Paulo Werneck)
7Letras | 68 págs. | R$ 28
 

satara