quarta-feira, 14 de julho de 2010

Lançamento de "A volta", de Ítalo Ogliari


O novo livro de Ítalo Ogliari será lançado hoje, 14 de julho, na Livraria Cultura de Porto Alegre a partir das 19h.
Em A volta, o autor de Um sete um e Ana Maria não tinha um braço mostra porque é considerado uma das vozes mais marcantes da prosa contemporânea nacional neste romance sobre um amor juvenil – que retorna anos mais tarde, mostrando o quão insólita e incerta é a trajetória da vida.

Leia um trecho do livro:

Marina, para mim, era única, mesmo sendo alguém comum, mesmo sendo apenas uma menina simples e sem graça na multidão de uma escola pública central. A questão é que todo mundo é comum. Você é comum até que uma outra pessoa descubra sua singularidade, uma singularidade que nem você conhece. É a lei da alteridade. E a singularidade de Marina não estava na tatuagem nem no sinal. A tatuagem e o sinal me deixavam bobo, mas não faziam de Marina uma pessoa única. Uma tatuagem não faz ninguém único. A singularidade de Marina era um pequeno gesto de pressionar o lábio inferior com os dentes superiores enquanto estava distraída, enquanto estava em um mundo próprio, que é o lugar onde estamos quando estamos assim, distraídos. Marina promovia uma pressão mediana com os dentes no lábio inferior que, quando era solto, fazia com que pequenas marcas permanecessem por um ou dois segundos naquele contorno vermelho e que logo se desfaziam. E isso era uma das coisas que mais me roubava a atenção dentro da sala de aula. Uma das coisas mais belas que eu já presenciara. Uma coisa delicada. A forma como Marina mordia de maneira inconsciente seus próprios lábios, olhando quase sempre para o nada, me tirava toda a atenção e me transportava para o meu próprio mundo, ou para o mundo próprio de Marina.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Lívia Jappe, Maria Carolina Maia e a voz feminina na literatura


Desde o final de junho, os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2010 têm se reunido com leitores em diferentes livrarias de São Paulo.

Na quarta feira dia 14 será a vez de Lívia Sganzerla Jappe, (Cisão, 7Letras) e Maria Carolina Maia, (Ciranda de nós, Editora Grua) conversarem sobre “A voz feminina na literatura”. Com mediação de Cadão Volpato, o encontro ocorre das 19h às 20h30 na Livraria da Vila, em São Paulo.
O encontro é gratuito, e os participantes poderão ganhar um par de convites para a cerimônia oficial de entrega do Prêmio, no dia 02/08.

Local: Livraria da Vila - Lorena
Alameda Lorena, 1731
Auditório
Horário: das 19h às 20h30
 

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Rodrigo de Souza Leão no "Prosa & Verso"


Rodrigo de Souza Leão foi homenageado pelo suplemento literário Prosa & Verso, do Jornal O Globo, que publicou uma matéria sobre a vida e a obra deste escritor e pintor carioca.

"Um surto de arte (morte e ressurreição de Rodrigo de Souza Leão)"

"Um ano depois de sua trágica morte, o escritor e pintor esquizofrênico Rodrigo de Souza Leão renasce com novo romance, 35 telas e reedição do livro de estreia

Texto de Arnaldo Bloch

“Só vou morrer se eu ganhar o Nobel”, escreveu Rodrigo de Souza Leão, aos 43 anos, na superfície do último óleo sobre tela que pintou, em 2009. Depois de 20 anos sem sair de casa — exceto quando arranjava uma namorada (via telefone ou e-mail), e os pais o levavam às respectivas alcovas —, ele enfim cedera: começara a frequentar as aulas de João Magalhães no Parque Lage. A produção de telas aumentou até atingir 35, algumas de grandes dimensões. A produção literária também: um ano transcorrido do sucesso cult e da fortuna crítica de Todos os cachorros são azuis (7Letras) — livro que narra o surto em que se manifestou sua esquizofrenia, aos 23 anos —, estava prestes a concluir um romance novo, de fôlego, Me roubaram uns dias contados (a ser lançado no próximo dia 2, primeiro aniversário de sua morte, pela Record).

— O trabalho do Rodrigo mistura mundo interno e externo de maneira radical. É uma escrita feroz. O cara não brincava em serviço, não escrevia por charme ou pedantismo. Escrevia com imensa coragem, para resistir à loucura, e para existir — reflete o crítico José Castello, colunista do GLOBO. "


Leia na íntegra "Um surto de arte (morte e ressurreição de Rodrigo de Souza Leão)", com texto de Arnaldo Bloch e fotomontagem de Cristina Cariconde.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Nova edição de "Todos os cachorros são azuis"

"Todos os cachorros são azuis" — o único romance publicado em vida por Rodrigo de Souza Leão (1965-2009) — sairá numa nova edição da 7Letras em julho. Leia um trecho da obra, que foi finalista do Prêmio Portugal Telecom 2009, e receberá em breve uma adaptação para o teatro.


"Tudo se apaga. As velas se apagam. Os fósforos se apagam. Nem sei se tem sol lá fora. Fumo um cigarro que não se apaga. Bebo uma vitamina do tempo que não me engorda. Ela me diz que sou bonitinho. Saio de mim duzentas vezes ao dia e volto. Cada vez, saio menos de mim. Contagem regressiva. Cinco, quatro, três, dois, um. Fui de infinito a ínfimo. De ínfimo a infinito. Senti um cheiro do bolo de laranja de mamãe. Sexta-feira.

Quando cheguei em casa nunca havia ouvido tamanho silêncio no meu quarto. Havia recebido alta há poucas horas. Dessa vez o nosso carro não foi seguido por ninguém. Não via Rimbaud e Baudelaire há alguns dias. Quando se tem companhias tão fortes assim, e se tem uma vida em comum, sentimos falta dos amigos. Meu cachorro azul estava lá, encardido pelo tempo, contando muitas histórias.
Andava pela casa e me sentia um ser livre. A liberdade estava nas pequenas coisas: ver os e-mails, abrir a geladeira. Agora era preciso ser mais saudável. Abrir as coisas. Fui abrindo a caixa de fósforos. Abri o gás. Abri o fogo. Abri a caixa com incenso. Fui abrindo, abrindo, abrindo como se estivesse abrindo e descobrindo as coisas pela primeira vez. Parecia que tinha ficado um século fora de casa. Estava tudo igual, mas diferente.
Era uma borboleta borboleteando pelo campo minado, pela zona de força, pelo local onde ocorreram todos os meus escândalos. Estava de volta à minha vida.
Botei uma pizza no forno. Finalmente, ia comer alguma coisa que me apetecia. Devorei a pizza feito um viking comedor de codornas assadas. Depois, deitei-me pra dormir.
Os remédios me faziam tremer e babar.
A noite chegou veloz. Bati um prato de legumes e salada, de lanche. Fui para o meu quarto e dormi.

Homens com crina de pássaro falavam um idioma que eu não entendia. Eu tinha uma teoria estranha: a de que cada animal da Terra tem um planeta onde sua inteligência é igual à humana e eles sobrevivem como nós. Assim, os besouros tinham a besourolândia; os patos, a patolândia. Será que não estava sonhando com a Disneylândia? Havia uma liga que congregava todos os seres do universo. Mas cada um falava a sua língua. K d pocua besourfez biologic Todog.
Acordei de súbito, ouvindo o eco da palavra Todog. Anotei o código e colei na cortiça. O sonho se repetia, mas sempre com uma palavra nova. Sentia-me especial por estar recebendo aquelas mensagens. Achava-me um vidente universal. Alguém que ia ter respostas para o cosmos. Botei um recado no jornal, procurando outras pessoas que tivessem o mesmo poder e a mesma área de atuação.
Apareceram dez pessoas. Resolvemos fazer reuniões chamadas Todog. Ficamos encarregados de criar uma nova língua pelo qual os seres se comunicariam entre si."
 

satara