sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922 - 2010)

Saramago por Sebastião Salgado


"O primeiro som, aquele de que todos os outros virão a nascer, filhos, discípulos ou gomos, ou bagos de romã justapostos, ou favos que se respondem como a luz de uma vela entre espelhos paralelos, o primeiro som, em tão grande silêncio nascido que poderia ser a primeira de todas as vagas quebrada sob os nevoeiros e as sombras do mundo recém-criado
o primeiro som é apenas o da corrente de ar que nos foles do órgão se
introduz,
ou talvez não,
o primeiro som será o da respiração necessária para que a donzela aia faça o tão pouco esforço de levantar o punho do fole, e neste e nos pulmões o ar circulando com o secreto rumor da seda arrastada na lua, que por longe ser não ouvimos mas sabemos, e sem que percebendo-se percorre o interior das narinas húmidas e vivas, e docemente inflando os pulmões e também a escuridão interior do fole de pele curtida, ainda cheirante ao fartum quente dos gados nos currais ou no chão solto e macio das grandes sestas sob as árvores, e quem sabe se distante contendo o tilintar finíssimo das campainhas dos rebanhos em manhãs também de névoa de um mundo muito mais velho.
Esse, ou este, ou ambos porque mutuamente se requerem, são o primeiro som. A música ainda não se ouve, esta é a última pausa viva, o segundo final de consolação dos afogados que no ponto de morrer revivem: todos os sons estão neste primeiro, e todos são o mesmo silêncio, ou a mesma demonstração da sua impossibilidade. [...]"

trecho de "O ouvido", de Poética dos cinco sentidos revisitada (7Letras)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

os favoritos de Paula Cajaty

A poeta Paula Cajaty — que recentemente lançou "Sexo, tempo e poesia" —   fala sobre os livros que marcaram sua vida no blog do boletim Tempo de Letras, da CBN.

TL – Qual o primeiro livro que marcou sua vida?

PC – O primeiro livro que me marcou demais foi O menino do dedo verde (mais do que Reinações de Narizinho), porque ele mexeu com as minhas sensações de uma forma muito real. Reinações eram mais livros de aventura, enquanto Tistu era incrivelmente poético, com toda aquela simbologia contida nos personagens e nas passagens. O pequeno príncipe foi um livro que eu li depois, então já não dá para chamar de primeiro…

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quarta-feira, 9 de junho de 2010

lançamento de "Sexo, tempo e poesia"

Zaven Paré Cyber art

Zaven Paré é um dos pioneiros na arte cibernética, criando marionetes eletrônicas que espelham, em seus movimentos e trejeitos, a incrível complexidade do ser humano. Zaven Paré Cyber art, que reúne algumas das obras do autor de Máquinas e do mais recente “O robô e a maçã” está em exposição até dia 11 de julho em Salvador. Além de expor os seus trabalhos, o artista visual francês dará uma palestra sobre animismo tecnológico e organizará uma oficina de marionete eletrônica.

ficção e autobiografia

Quais são os limites entre ficção e autobiografia?
Para responder a essa pergunta, o JB reuniu as escritoras Paloma Vidal e Tatiana Salem Levy numa conversa sobre as fronteiras entre realidade e ficção. Paloma, que publicou em 2009 o romance Algum Lugar e Tatiana, autora de A Chave de Casa (Ed. Record), exploram as relações entre real e ficcional, personagem e autor em suas obras literárias.

JB: A autoficção representaria o desejo do público de hoje por um compromisso com a “verdade” (podemos citar o sucesso dos reality shows)?

Tatiana: A autoficção é bem diferente dos programas ou dos textos que têm um compromisso com a “realidade”. Seu propósito é justamente o de embaralhar realidade e ficção, diluir seus contornos, mas nunca em proveito do referente, do que está fora do texto. Autoficção continua sendo literatura, embora procure dissolver as fronteiras entre autor, narrador e personagem. O compromisso com a verdade é o mesmo que o de qualquer texto literário: não tem nada a ver com ser ou não ser fiel à realidade. A literatura é essa eterna contradição: buscamos a verdade através da mentira. Muitas vezes, quando nos atemos demais aos fatos, mais nos distanciamos da verdade. É uma ingenuidade achar que ela se encontra nisso a que chamamos de “realidade”.

Paloma: Com certeza, é possível estabelecer uma relação entre diversos fenômenos que buscam um contato com a “vida real”. Acabei de traduzir um livro da argentina Leonor Arfuch chamado O espaço biográfico, em que essa trama complexa que envolve múltiplas esferas, como a literatura, a arte, as ciências sociais e os meios de comunicação, é muito bem exposta. Trata-se efetivamente de uma discussão muito ampla sobre um percurso que tem mais de dois séculos, de crescente demanda de exposição da subjetividade, da verdade do sujeito, de sua intimidade, que na contemporaneidade se acirrou de maneira exemplar. O romance é uma instância desse percurso, como também o são a autobiografia, as cartas, os livros de viagem, o diário e várias outras formas que têm o indivíduo como figura central. Agora, dentro desse processo histórico, acho que há formas problematizadoras e outras cristalizadoras. (...)

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Para saber mais sobre a presença da primeira pessoa na literatura contemporânea leia Escritas de si, escritas do outro, de Diana Klinger.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Lançamento de "O clube como vontade e representação", de Bernardo Borges Buarque de Hollanda



Amanhã, dia 8 de junho, Bernardo Borges Buarque de Hollanda lançará O clube como vontade e representação, na Livraria Blooks, a partir das 19h.


Leia abaixo um trecho do livro:



“O ano de 1968 também foi marcado por agitações e revoltas nas arquibancadas do Maracanã. Em um período de crise no desempenho de equipes como Flamengo e Fluminense, grupos juvenis de aficionados torcedores enfrentam dirigentes de grandes clubes cariocas, por meio de protestos, manifestações e até passeatas fora do Estádio Mário Filho. Sob inspiração do slogan internacional Poder Jovem, estes recém-formados agrupamentos adotam de igual modo uma postura crítica face ao tradicional modelo de torcida, as Charangas, oriundas da década de 1940. Ao longo do decênio de 1970, as Torcidas Jovens afirmam-se no cenário esportivo e estimulam o surgimento de pequenas e médias agremiações, que revestem o ato de torcer de significados associativos, culturais e recreativos até então inexistentes. A culminância deste processo ocorreria no início da década seguinte, quando chefes de torcida tentam se agrupar em torno de interesses comuns e, entre 1981 e 1984, deflagram uma onda de sucessivas greves, piquetes e boicotes pela redução do preço dos ingressos, entre outras reivindicações”.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

"A máquina das mãos" ganha Prêmio ABL de Poesia

Nesta última quarta-feira foram anunciados os nomes dos vencedores dos Prêmios Literários ABL de 2010, entre os quais está A máquina das mãos (7Letras), de Ronaldo Costa Fernandes.

A obra do poeta maranhense foi premiada na categoria poesia pela comissão de acadêmicos formada por Lêdo Ivo, Affonso Arinos de Mello Franco e Alberto da Costa e Silva. Os vencedores nas categorias ficção (conto, romance, teatro), literatura infanto-juvenil e tradução foram, respectivamente, Rodrigo Lacerda, Ângela-Lago e Milton Lins. A cerimônia de entrega dos Prêmios será o Petit Trianon, dia 20 de julho, data do 113º aniversário da ABL.



A máquina das mãos é o quinto livro de poesia de Ronaldo Costa Fernandes, maranhense criado no Rio e radicado em Brasília, que estreou em 1997 com Estrangeiro. A poética de Ronaldo Costa Fernandes é dotada de um sentimento trágico da vida, criando um repertório conceitual e imagético de força impressionante a partir de elementos cotidianos. Em A máquina das mãos, este sentimento trágicocômico face às futilidades do dia a dia é revestido pela agudeza crítica, humor afiado e lirismo surpreendente.

“Trata-se de um livro em que a experiência pessoal do poeta, convertida em linguagem, se transmuda em poemas de excelente nível, e nos quais se casam a emoção e a execução apurada, sob a regência de um rigor que não exclui a aventura e a transgressão”, disse no parecer a comissão da ABL.


Leia dois poemas de A máquina das mãos

Dormência
O sono falso da dormência:
esta morte momentânea dos membros
pode atingir a memória:
todo o passado se converter em perna
ou a lembrança virar braço.
O cérebro cheio de formiga,
a cabeça dormente como trilhos
de trem de brinquedo
que roda em círculos.

Hopper
Em Hopper, não há a solidão que todos dizem.
Aquele casal na lanchonete,
as moças no quarto
ou no vagão de trem
estão imobilizados de vida
—de vida tão grave
que nada escapa (como nos buracos negros)
de seu campo de gravidade.

Ali estão os autômatos de Hopper
em sua fantástica viagem em torno de si mesmo.

Não é a vida americana
que é criticada.
O que nos desnorteia em Hopper
— e nos fascina —
é que nos vemos na lanchonete,
na parada de ônibus ou no vagão de trem.
Estamos imobilizados — hopperianos —
em têmpera e colorido,
fixos na tela do tempo,
e, irremediavelmente, presos a nós mesmos,
a vida como um quadro americano
do qual não podemos escapar.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Heitor Ferraz Mello no Prêmio Portugal Telecom

A poesia de Heitor Ferraz Mello chega à maturidade com Um a menos. Lançado em 2009 pela 7Letras, o livro está entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom. Nesta obra, o poeta paulistano mergulha em versos fluidos e tensos, que refletem o avesso do cotidiano mais comum.

Heitor Ferraz transpõe para a poesia a solidão e a angústia do homem moderno, que não consegue reter as experiências, que apenas o atravessam. Segura e concisa, sua poesia captura instantâneos do cotidiano: a cidade que se rebobina pelo vidro retrovisor, a manhã que chega com solavancos de pneus, a paisagem que seca na janela, no varal.
 


Um a menos divide-se em três partes. Na primeira, gestos e imagens simples despertam a consciência e o assombro do poeta com o mundo. Na segunda, o vício do cigarro conduz os poemas, em ondas de mesmo tom e ritmo. Um cigarro que, fumado à janela, abre um horizonte de reflexões sobre a vida, o trabalho e o amor. A última parte apresenta uma peça poética, com elementos dramáticos de uma voz presa a um “capacho”, que não se reconhece em lugar algum, que se despedaça. Utilizando as palavras como âncoras, essa voz tenta se fixar na realidade, consciente de que é entre as possibilidades e limitações dessa tarefa que se constrói a poesia.

Leia um poema de Um a menos

Primeiro foi isso: 
ouvir o nome 
deixar o nome
tomar corpo 
enquanto o repetia 
várias vezes o repetia  
dentro e fora
da boca
como quem experimenta
e olha
uma fruta
de sabor exótico
e conhecido
Depois,
foi a própria forma
que foi tomando forma
o vestido verde
silencioso
a tatuagem
um ponto secreto
num mapa de veias
de ruas novas
ondas
onde tudo se bifurca:
lugar fresco
onde se aconchegar
com a palavra
ainda úmida.

terça-feira, 1 de junho de 2010

"Monodrama" no Prêmio Portugal Telecom

 
Lançado em 2009 Monodrama veio quebrar o jejum de 13 anos de Carlito Azevedo, um dos mais importantes poetas brasileiros da atualidade. Finalista do Prêmio Portugal Telecom 2010, este é considerado o livro mais político, irreverente e emocionado do poeta carioca. Dos seus poemas extensos surgem personagens múltiplos nos quais predomina a figura do imigrante, do clandestino que esbarra com as portas fechadas do mundo hostil. O desencanto político dos poemas iniciais dá lugar à ironia e a emoção em “H” — dedicada à experiência da doença e morte da mãe do poeta, a série inaugura uma pauta mais autobiográfica, uma novidade no estilo do autor. Sobre este poema, Bernardo Carvalho escreveu: "Se alguém ainda quiser saber para que serve a literatura, a resposta está dada: para que de vez em quando alguém escreva um poema como esse H., do Carlito Azevedo."

“garota com xilofone e flores na telegraph av.”
Quando ela
tão incrivelmente linda
como você dizia
escrevia os poemas que escrevia
e eu entendo que não levássemos tão a sério os poemas que ela
tão incrivelmente linda
escrevia
sacando de dentro de uma bolsa ácida com pins coloridos
                                                                           [e motivos op
os menores lápis de cor que vimos em toda a vida
para improvisar
a qualquer hora e sobre qualquer superfície
os poemas que ela escrevia
nós dizíamos que não havia mesmo nada ali
além do pitoresco
nada mesmo
ao menos para dois rapazes passados dos trinta
bebericando café entre desespero e risos explosivos
indo e vindo de países diversamente destruídos
e equilibrando entre os dedos
as moedas contadas
e o fim do amor
e com vontades contrárias e confusas
de deslocamento
e invisibilidade
mas refletidos no espelho de um café em Berkeley
e tendo sim provavelmente toda a razão
ao dizer que não havia mesmo nada ali
quando ela escrevia os poemas
sempre os mesmos
que ela escrevia com aqueles dedos que nos impressionavam
cheios de anéis de pedra bruta
e aqueles olhos
chapados
olhos verde-rã
não havia nada ali
a não ser talvez um homem
sempre o mesmo
que reencontrava enfim uma garota
sempre a mesma
e dizia sou eu
e sempre uma revoada de tão incrivelmente fantásticas
                                                 [flores repetia sim veja é ele
e no fim das contas uma
sempre a mesma
garota concordava sim sim é você mesmo e todos os seus colares
só para depois tornarem a se perder um do outro
como numa espécie de outra mágica revoada
e isso sim havia
em todos
em absolutamente todos os poemas dela
tão incrivelmente linda sim
e lá se vão dez
ou treze anos
e eu simplesmente nunca
os/a
consegui esquecer
 

satara