segunda-feira, 31 de maio de 2010

"Cisão" no Prêmio São Paulo de Literatura 2010


A gaúcha Lívia Sganzerla Jappe é uma das finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2010.  Cisão, seu primeiro romance, concorre na categoria de Melhor Livro de Autor Estreante.

Fundindo ficção com reflexão filosófica, Cisão é um romance conceitual, uma história de amor em prosa lírica cuja força motriz é o tema da separação entre corpo e espírito.  Theodoro e Inácia formam um casal que, do alto de sua erudição, vive o amor como experiência de entrega, fusão e transcendência. O conhecimento apurado da estrutura da língua e o vocabulário culto marcam a literatura desta jovem autora, que faz da linguagem um verdadeiro instrumento artístico.
Leia um trecho de Cisão:
 A vida, por enquanto, inteireza. Inácia partiu insatisfeita. Desejava atacar a fronte intelectual de Theodoro por saber que desequilibrava em melhores condições o que ele carregava em emoções. Intelectualizar a imagem de Theodoro era, para Inácia, redimi-lo da falta de precaução com que lidava com o amor. Eram as fissuras dos diálogos que lhes mantinham. Quando havia compreensão por demais explícita, algo se desorganizava sem que se soubesse dizer o que era. E era ela, então, quem se habilitava a quebrar e
recozer palavras. Comunicavam-se por meio das ardências do pensar, da análise dos fatos do mundo que lhes rodeava e que era, a um só tempo, o mundo deles mesmos e não aquele em que acreditavam pisar. Gabava-se ela de ser tanta enquanto nenhuma era a ele dada a conhecer. Theodoro estudava-lhe a pessoa para possuir-lhe a mente, mas era com o corpo que ela construía a metafísica do que dizia. Havia gestos que prevaricavam por serem apenas profundos relances de coisas que não se diziam por intermédio de verbalidades. Ele tanto quis ir a Tarso e muito fez para esquecer-se lá. Por nada se deixou pertencer.
– Escreverei.
– Mudarei.
– Me faz ver a entranha do que queres dizer.
– Fui devorada. Estou a deixar-me ver.

"Inverdades" no Prêmio Portugal Telecom


Já dizia Mark Twain que “a diferença entre realidade e ficção é que a ficção faz mais sentido”. Definição perfeita para o jogo de esconde-esconde entre real e imaginário de Inverdades, quinto livro de André Sant'Anna -- um dos semifinalistas do Prêmio Portugal Telecom 2010. Em 15 contos, Marilyn Monroe, John Lennon e outros nomes com milhões de entradas no Google são surpreendidos em situações inóspitas, impensáveis, ou, pelo contrário, incrivelmente coloquiais. Situações que os obrigam a retirar a máscara, revelando um lado frágil, desamparado e humano. Seria esse o seu lado verdadeiro? – pergunta o leitor.

No tapete vermelho de Inverdades desfilam presidentes da República, modelos-atrizes, gênios do jazz, astros do rock. Neste duelo entre verdade e mentira, quem sai ganhando é o leitor, brindado com a narrativa dinâmica, o texto provocador, e o olhar agudo sobre a realidade. 

sexta-feira, 28 de maio de 2010

"Boa noite, senhor Soares" no Prêmio Portugal Telecom

A 7Letras apresenta hoje mais um trecho de um dos semifinalistas do Prêmio Portugal TelecomBoa noite Senhor Soares. A obra do escritor português Mário Cláudio é mais uma aposta da 7Letras na prosa contemporânea que se faz do outro lado do Atlântico. De forma original e sedutora, Mário Cláudio estabelece um diálogo com a obra de Fernando Pessoa a partir do seu heterônimo Bernardo Soares. A narrativa gira em torno de António, empregado no armazém de tecidos, e do enigmático tradutor Senhor Soares.

Fazendo ficção da própria ficção, Mário Cláudio descreve o cotidiano de Soares e explora, através do olhar de António, a atmosfera social e emocional que envolve o narrador do Livro do Desassossego.

Além de Mário Cláudio, a editora publica pela primeira vez no nosso país obras de nomes essenciais da literatura lusitana, como Ana Hatherly, Jorge de Sena e Teresa Veiga.


Leia um trecho de Boa noite Senhor Soares

"No armazém havia além de mim, do patrão Vasques, e do senhor Soares, que trabalhava como nosso tradutor, o senhor Moreira, o guarda-livros, o senhor Borges, o caixa, os três rapazes, caixeiros de praça, e o moço de recados. Os três rapazes eram o José, o Sérgio e o Vieira, a quem chamávamos o Alfama por morar a Santo Estêvão, e o moço que tinha a graça de António como eu. De quando em quando apareciam os caixeiros-viajantes, o senhor Tomé e o senhor Ernesto, e tínhamos também o gato, o Aladino, constando que fora o senhor Soares quem lhe pusera o nome. O senhor Moreira, um homem muito engraçado que vivia ao pé da Avenida, não conseguia pronunciar os erres, e fazia-nos rir à socapa com aquelas frases que nós, os rapazes, nos não cansávamos de repetir, e de que nunca mais me esqueci. “O peço do meto do pano cu” fora uma dessas suas saídas que usávamos, se nos apetecia um bocado de pagode. O guarda-livros andava por regra muito mal vestido, fora sempre um enorme comilão, gastava o ordenado com a esposa, a dona Lalá, a encher a barriga, e não me lembro de segunda-feira em que ele não chegasse com saudades dos petiscos da véspera, “Comi cá ontem umas eiroses em Alcochete que nem vos digo, nem vos conto”, ou “Bebi cá ontem uma pinga em Colares que ainda lhe trago o sabor na língua”. Via-se bem que o senhor Soares gostava do senhor Moreira, achando-lhe graça talvez, ou percebendo no seu íntimo que se tratava de um tipo de bons sentimentos, o que de resto se revelava naquela cara bolachuda, coberta de suor no Verão, mas um pouco roxa no Inverno. Embora teoricamente ocupasse o lugar de chefe do tradutor, o senhor Moreira nunca puxava dos galões com ele, nem aliás com ninguém, e apenas censurava a indiferença que o senhor Soares sentia por tudo quanto fosse comida. “Aquilo é uma tristeza”, desabafava o guarda-livros, “o único petisco que lhe passa pelas goelas é uma canja de galinha, e de longe a longe uma postazinha de pescada cozida.” O tradutor parecia não acusar tais brincadeiras, e só muito raramente se divertia a caçoar como senhor Moreira, alcunhando-o de Dom Barómetro. De facto não existia quem como ele se preocupasse com as condições atmosféricas, não porque isso lhe desse qualquer abalo no tocante aos dias da semana, mas porque temia que o almoço dominical, festejo em que depositava as suas alegrias de glutão, se lhe tornasse impossível, devido ao mau tempo."

quinta-feira, 27 de maio de 2010

"Algum Lugar" no Prêmio Portugal Telecom






















Semifinalista do Prêmio Portugal Telecom, Algum Lugar é o primeiro romance de Paloma Vidal, que publicou os livros de contos A duas mãos (7Letras) e Mais ao Sul (Língua Geral).  Na obra, a mudança do Rio de Janeiro para Los Angeles força um casal a lidar com o vazio e a solidão, encarando as próprias fragilidades, desejos, angústias. A cada passo, a narradora se esforça para conquistar a cidade de cartografia exata, impenetrável, de paisagens que deslizam entre o familiar e o estranho , o real e o irreal.  No estranhamento das línguas e culturas que se misturam,  Algum Lugar nos conduz para dentro de uma geografia íntima onde vão se diluindo as fronteiras entre personagem e autora, entre fato, sonho e ficção. 
Leia aqui um trecho de Algum lugar
"O outono começava a dar sinais no hemisfério norte quando meu voo pousou na cidade, às 10:05. Passei pela imigração sem problemas, mostrando meu visto de estudante, e resgatei a bagagem numa das dezenas de esteiras do desembarque. Só me restava procurar um lugar para sentar, diante das quatro horas que faltavam para a chegada de M.
Empurrando o carrinho com a mala azul imensa, vou em direção a um guarda do lado de fora do saguão: estou esperando uma pessoa que chega no voo 3455, da American Airlines. Onde há um café? Não há nada por aqui, o homem responde sorrindo. E cadeiras? Também não há. Você pode usar um desses bancos para deficientes físicos, ele sugere, mas terá que levantar se alguém pedir. That’s the deal? Sigo em frente com o carrinho pelo lado de fora do saguão, desviando com dificuldade dos outros recém-chegados, e encontro por fim umas poltronas no terminal ao lado, onde me deito e observo meus vizinhos até pegar no sono: duas moças orientais conversando animadamente em sua língua, um rapaz, deitado que nem eu, colado à mala, dois negros altos, em pé, com as pernas bem abertas, segurando cartazes com nomes de passageiros. Não consigo entender a voz que sai do alto-falante. É inglês?
Quando acordo, o voo de M já desembarcou. Procuro inutilmente por ele. Os saguões estão lotados. As pessoas vão e vêm, esbarrando umas nas outras, tentando achar sua esteira para poder pegar o que é seu e deixar o mais rápido possível esse aeroporto que faz questão de expulsá- las. Do lado de fora, as filas dos táxis e vans são longas. Não o vejo em nenhuma delas. Nada disso estaria acontecendo se tivéssemos viajado no mesmo voo, penso, e antecipo as recriminações mútuas: ele, por eu ter me precipitado, comprando a passagem quando nem sabíamos se íamos mesmo viajar; eu, por ele ter deixado para comprá- la na última hora. Volto com o carrinho para o meu terminal, com a esperança de que M tenha ido me pegar lá guiado pelo número que rabisquei num pedaço de papel antes da partida. Cruzo com o guarda da chegada, que olha para mim mas não me reconhece. Não consigo acreditar que já estejamos perdidos sem sequer sair do aeroporto. Não quero acreditar: se me deixar levar, verei retrospectivamente a conexão entre muitos sinais antes invisíveis que indicavam o que só agora, sozinha na cidade, sou capaz de entender. A decisão de virmos em voos separados me parecerá um primeiro passo em falso. Pior, o fato de não haver dois lugares num mesmo vôo se mostrará com um sinal que não consegui identificar, mas que punha em dúvida o sentido mesmo da viagem. O choque da lembrança de repente paralisa o meu pensamento: combinamos que nos encontraríamos na locadora de carros. Quando chego, lá está ele, tomando um café e lendo o Los Angeles Times.
Ao ouvir minha voz, M abaixa o jornal e sorri. Depois o deixa no chão, se levanta, vem na minha direção e me abraça, como se intuísse nosso desencontro, que não menciono para não desaproveitar a possibilidade de um recomeço. Chegamos. Deu certo. Em breve, estaremos atravessando a cidade."

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Semifinalistas do Prêmio Portugal Telecom


No sábado, 15 de maio, foram revelados os nomes dos 54 semifinalistas do Prêmio Portugal Telecom  Literatura 2010, no Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro. Seis títulos da 7Letras foram nomeados:  Aleijão (Eduardo Sterzi), Algum Lugar (Paloma Vidal), Boa noite, Senhor Soares (Mario Claudio), Inverdades (André Sant'Anna), Monodrama (Carlito Azevedo) e Um a menos (Heitor Ferraz). Outros autores de nosso catálogo, como Bia Bracher, Dora Ribeiro e Julio Castañon Guimarães, também foram indicados.
A partir de hoje, a 7Letras irá publicar no blog um trecho de cada uma das obras nomeadas para o Prêmio. 

Para começar, apresentamos dois poemas de Aleijão, de Eduardo Sterzi. Nesta obra, Sterzi utiliza a metáfora do aleijão para transformar em poesia a brutalidade do cotidiano.


Mão morta
ofereço a mão morta
em espetáculo; a mão
cadáver, que dança
involuntária e desengonçada
quando a rua chacoalha;
mão de fantoche ou
de espantalho; apêndice
incômodo (oxalá
descartável) que às vezes
escondo, outras mascaro:
eis que salta do bolso
a mão (por ora) palhaço;
queres apertá-la?



Lição de escrita
Não meça
a temperatura: pouco
importa se o corpo
dá-se, agora,
em forma
de colapso.
Esqueça
a máscara tesa
que sequestra o sorriso
por sob
a pele.
Releve
a agulha inclusa
que te paralisa
beijo e protesto.
Reserve
uma hora diária
para afagar tua miséria.
Ou resista:
não vale a escrita.

terça-feira, 25 de maio de 2010

NÃO SOU DE CONFIANÇA











Neste romance de tintas autobiográficas, Vânia Reis nos leva numa prosa saborosa pelos caminhos acidentados da adolescência, do crescimento, das aventuras e desventuras amorosas – e nos envolve com talento e sensibilidade nesse universo em transformação, de menina a mulher. Na saga dessa anti-heroína, nos identificamos entre suas hesitações e angústias, num itinerário em que os caminhos nem sempre seguem os roteiros que escolhemos.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

 
Noite de 7 de setembro de 1982. O Movimento Unido Tricolor (MUT), reunião de torcidas organizadas do fluminense, faz manifestação pelas ruas da cidade contra a diretoria do Fluminense. Fonte: Arquivo Histórico do Jornal dos Sports

Entre brigas, alianças, caravanas e emoções de todo tipo, o fenômeno da formação das torcidas futebolísticas apresenta um recorte inovador no campo dos estudos antropológicos e sociológicos. Em  O clube como vontade e representação, Bernardo Buarque de Hollanda revela de que modo as Torcidas Jovens ganharam importância em escala nacional e internacional nas décadas de 1960, 1970 e 1980, e assumiram particularidades histórico-culturais no futebol do Rio de Janeiro.
Partindo de um trabalho de pesquisa e de análise profundo e inovador, a obra de Bernardo Buarque de Hollanda ajuda a compreender os mecanismos e as interações que formaram e que regem as torcidas — atores sociais tão numerosos, importantes, peculiares e ainda pouco estudados desde sua entrada em
cena ao longo do século passado.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Finalistas do Prêmio Portugal -Telecom

Seis títulos da 7Letras estão entre os 54 finalistas do Prêmio Portugal Telecom: Aleijão (Eduardo Sterzi), Algum Lugar (Paloma Vidal), Boa noite, Senhor Soares (Mario Claudio), Inverdades (André Sant'Anna), Monodrama (Carlito Azevedo) e Um a menos (Heitor Ferraz). Outros autores de nosso catálogo, como Bia Bracher, Dora Ribeiro e Julio Castañon Guimarães, também foram indicados.

O Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa distingue obras escritas em português, independentemente da nacionalidade do seu escritor, desde que publicadas no Brasil no ano anterior.

Veja aqui a  lista completa com os 54 finalistas

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Lançamento de "Atire em Sofia"



A comemoração pela nova edição de Atire em Sofia, de Sonia Coutinho será neste sábado, dia 15 de maio, na Casa 6 da Associação de Amigos do Jardim Botânico. No evento, haverá um coquetel e leitura dramática de trechos do livro, pelo ator Edward Boggiss.

Nesta entrevista ao escritor e jornalista Rubem Mauro Machado, Sonia analisa seu livro:

RUBEM MAURO: Fale um pouco do Atire em Sofia.

SONIA C. – O romance, antes de mais nada, fala de um verão em que uma cidade misteriosa se torna palco de aparições, assombrações. E há um assassinato cometido a várias mãos...

RUBEM MAURO – Personagens femininas são predominantes em sua literatura. É assim também em “Atire em Sofia”?

SONIA C. – Neste romance há vários personagens, muitos deles masculinos, mas o destaque é o percurso de Sofia. Na verdade, nunca antes coloquei tantos personagens num texto como aqui. Temos, por exemplo, João Paulo, o jornalista que deixa seu emprego para escrever um romance policial... Há Fernando, um advogado acomodado, que tenta preservar seu conforto, acima de tudo. E Matilde, uma mulher desesperada, que dialoga com Maria Callas... Mas, segundo o Dudu Boggiss, que fará a leitura dramática de trechos do livro, o que se pode chamar de “tema central” do “Atire em Sofia” é o preconceito.

 
Leia a entrevista na íntegra no Jornal Sidarta

Atire em Sofia

Sonia Coutinho é uma das mais importantes escritoras brasileiras da atualidade, tendo ganhado duas vezes o Prêmio Jabuti. Em Atire em Sofia, a autora rompe mais uma vez os tabus da “literatura feminina”, num romance que retrata uma geração de mulheres que desafiam os papéis tradicionais e ousam escrever a própria história.


Leia aqui um trecho de Atire em Sofia:


Ele folheia devagar o álbum de fotografias que está em seu colo, observando com cuidado cada foto amarelada, com rostos e ambientes do seu tempo de escola. Numa das páginas, um grupo de jovens, que ele vai identificando: Sofia, João Paulo, Júlio César, Josué, Maíra, Matilde, Tom, ele próprio. A turma que se encontrava sempre, em locais variados, os grandes amigos de vinte anos atrás.
Dois foram embora da Cidade, Sofia e João Paulo, que tinham um caso de amor crônico, mas interrompido. Os demais ficaram.

Menos Josué, que partiu de outra maneira – morreu de leucemia, aos 30 anos. (...)

Procura lembrar onde essa foto do grupo foi tirada, mas não consegue. Pelo que parece, na avenida à beira-mar, um dos pontos de encontro deles, em frequentes fins de tarde. Estão encostados numa amurada recortada e pintada de branco, a mesma que ainda existe lá.
Examina outra vez a fotografia, detendo-se agora em Sofia adolescente, já um rosto de época, com sua maquilagem pesada, as sobrancelhas muito largas obviamente pintadas a lápis, os cabelos duros de laquê e um vestido sem dúvida comprado numa loja de departamentos no Centro, a mais elegante da Cidade, naquele tempo.

E, rabiscado num pedaço de papel, entre as páginas do álbum, ele encontra de repente um texto misterioso, que ela escrevera ou copiara para ele, e lhe enviara, alguns anos atrás. Lê:

Eu, Lilith. A primeira companheira de Adão, a mulher suja de sangue e saliva que lhe perguntou: “Por que devo deitar-me embaixo de você? Por que devo abrir-me debaixo do seu corpo? Por que ser dominada por você? Também fui feita de pó, sou sua igual.”

Voei então para muito longe, para as margens do Mar Vermelho, e Jeová decretou: “O desejo da mulher é para seu marido. Volte para ele.” Ao que respondi: “Não quero mais nada com meu marido.” 

Jeová mandou à minha procura uma formação de anjos, que me alcançaram nas charnecas desertas do Mar Arábico, cujas águas atraem os demônios. 

Eu estava cercada de criaturas das trevas, quando chegaram os anjos enviados por Jeová. Eu lhes disse: “Não vou, este é meu lugar.” E fiquei, e conquistei minha liberdade e minha solidão.
Sofia, uma pessoa muito especial, pensa Fernando. Deixou um marido advogado e fazendeiro sem cobrar nada, saiu sem tostão.

Era talentosa, atriz, pintora, embora acabasse não desenvolvendo nada disso. No Rio, segundo soube, mesmo sem o diploma tornou-se uma jornalista profissional. Teve notícias, também, de que ela continuava “infeliz no amor” – ou, pelo menos, era o que as pessoas pensavam a seu respeito.

Sofia, que continuava alvo de uma condenação geral na Cidade, por ter deixado suas duas filhas, ainda bebês; embora tenha tentado, em repetidas viagens para cá, de alguma forma recuperá-las – o que nunca conseguiu, diante da oposição do seu ex-marido e até da sua própria mãe, já viúva.

Uma sina determinada, ele sabe, por vários acontecimentos da infância de Sofia, traumas, maus-tratos. Mas ninguém na Cidade pareceu jamais levar isso em conta, todos sempre prontos a falar mal dela.

Daí sua imensa surpresa quando soube, alguns meses atrás, da volta de Sofia à Cidade. Logo ao chegar, ela lhe telefonara, marcando um encontro. Outra surpresa, a volta de João Paulo, que não entrara em contato com ele, só se encontraram mais recentemente, e por acaso.

Fernando examina mais uma vez a foto do grupo. Sim, são seus Antigos Amigos, os personagens de um verão esquisito que, de alguma forma, reuniu a todos, quase vinte anos depois.

Verão que ele procurou ignorar, mas que agora lhe volta, com seu perfume de violetas murchas, com um brilho fanado de sol ao entardecer ou com a acre carícia do vento cheio de poeira avermelhada. A poeira que doura a Cidade, sob um céu inesperadamente escuro e relampejante.


Sonia Coutinho nasceu em Itabuna (BA) e mora no Rio de Janeiro. Jornalista e tradutora, é autora de Os venenos de Lucrecia (Prêmio Jabuti — 1979) Os seios de Pandora (Prêmio Jabuti —1999), O último verão de Copacabana, entre outros. Participou de diversas antologias no Brasil e no exterior.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Lançamento: Contos de Mary Blaigdfield, a mulher que não queria falar sobre o Kentucky (e outras histórias), de Lucas Viriato de Medeiros


Leia um trecho do conto "Mary Blaigdfield — a mulher que não queria falar sobre o Kentucky (III)":

Leões! Ela jamais gostou de leões. Eles não fazem nada! As leoas, sim, essas trabalham, caçam, cuidam da prole. As leoas são as verdadeiras rainhas da selva. É como num tabuleiro de xadrez: a rainha se matando na horizontal e na diagonal, para ganhar o jogo, enquanto o rei não passa de um grande peão com honrarias. Ah, e sem falar que volta e meia fica em xeque, chamando a esposa para salvá-lo. Lamentável.

Não, certamente a jaula dos leões não era a que mais lhe interessava. E havia tantas coisas interessantes para serem vistas ali. Onde será o setor dos répteis?, pensou, olhando para uma placa. Ficou examinando.

“Você está aqui.”

“Não, quem está aí é essa bola amarela. Eu estou aqui, em frente à placa!”

Não eram somente os leões que a incomodavam: o didatismo das placas de informações também.

Uma coisa era fato: estava por demais estressada. E quando ficava estressada, tudo passava a ser um problema.

“Tire alguns dias para você mesma” — dissera Larry. “Não pode fazer mal a ninguém descansar um pouco.” Não entendia para quê! Para que perder tempo descansando, se ela estava ótima? As pessoas veem problema onde não existe.

— Pipoca! Pipoca! Pipoca! — gritava um vendedor, passando com seu carrinho próximo à placa diante da qual ela estava parada. Os gritos eram acompanhados de uma incessante música infantil, repleta de tons agudos. Irritante.

Será que quero pipoca?, pensou. É, o programa não estaria completo sem pipocas.

— Quanto é a pipoca?

— Dois e cinquenta a pequena, e quatro a grande.

— Uma pequena, por favor.

— Qual sabor?

— Como? Sabor? — perguntou, distraída.

— É, sabor! Natural, queijo, bacon, chocolate ou Mendolatium?

Mendolatium! Embora já devesse ter se acostumado com aquilo, ainda parecia estranho. Se ao menos as pessoas soubessem de toda a verdade! Todo esse Mendolatium sendo consumido ao redor do planeta! Uma hora, as consequências virão à tona, mas aí, provavelmente, já será tarde demais — pensava em questão de segundos.

— Natural, por favor.

Comprou um saquinho e seguiu em direção aos répteis. “Proibido alimentar os animais”, estava escrito no saco, acompanhado de um desenho (riscado) de um homem dando pipoca aos macacos. Aquilo a irritou também.





Lucas Viriato de Medeiros, carioca de 26 anos, é formado em Letras pela PUC-Rio, com habilitação em produção textual. Atualmente cursa o mestrado em Literatura Brasileira na mesma universidade. Desde 2006 edita o jornal literário Plástico Bolha, que já publicou centenas de autores, entre novos e consagrados. Em 2007, lançou Memórias Indianas (Ibis Libris), sobre sua primeira viagem para a Índia. Retorno ao Oriente (7Letras), de 2008, deu continuidade ao projeto poético sobre o leste do mundo. Contos de Mary Blaigdfield, a mulher que não queria falar sobre o Kentucky (e outras histórias) marca sua estreia na prosa.

 

satara