sábado, 27 de março de 2010

Com a palavra, os poetas

Uma pequena amostra dos depoimentos de Chacal, Alice Sant'Anna, Carlito Azevedo e Gregorio Duvivier sobre a criação poética, neste vídeo-convite para a apresentação do "Estrondo", o primeiro espetáculo produzido pelo selo Lado7:

sexta-feira, 26 de março de 2010

Lado7 apresenta ESTRONDO = Poesia + música + vídeo



Talvez por isso a música:
Para calar o estrondo

Gregorio Duvivier

Uma nova forma de veicular a poesia brasileira será lançada com Estrondo pelo selo Lado7, da editora 7Letras.

O espetáculo traz os consagrados poetas Chacal e Carlito Azevedo e os jovens Alice Sant’Anna e Gregorio Duvivier interpretando ao vivo seus poemas com o acompanhamento musical do grupo Lado7.

A versão de estúdio de Estrondo, com produção musical de Newton Cardoso e Nelson Duriez, será lançada no formato de audiolivro durante o evento, que comemora os vinte anos do CEP 20.000.

Local: Espaço Cultural Sérgio Porto – Rua Humaitá 163 – tel. (21)2266-08696
Data: quarta-feira, dia 31 de março de 2010
Horário: a partir das 20h30.

terça-feira, 23 de março de 2010

LANÇAMENTO: CALCANHAR, de Laura Liuzzi



Leia aqui um poema do livro Calcanhar


Calcanhar


Vai ser assim:
entre sílabas e silêncio
poucos móveis, ângulos retos
feito a camisa dos arquitetos.
Frequentarei a janela antiga
branco amarelento da sala
e descansarei uma perna
vez outra.
Meu calcanhar.
Você repara, fotografa sem filme.
Eu não percebo,
fumo sem fumaça.
Preferimos o som da vitrola
para substituir o crepitar da lareira.
Moramos num país tórrido
abandonado por Deus.
Eu vou até a estante
não procuro, já sei qual.
Me acomodo no sofá junto ao gato
a que demos o nome de Gato.
A luminária tem o ajuste certo da coluna.
Você me beija a nuca, calafrio.
Minha boca azulada.
Você tem a blusa pra fora da calça.
Te acho lindo, lindo.
Troca o disco. Me surpreende.
This is not a love song
Vou para a cozinha.
Caminho como as francesas pelo corredor.
Aperto bem o avental,
marco a cintura.
Temos ervas frescas.
Lá na sala você sacou a rolha.
Manteiga de sálvia, você vem
– tim tim
Amanhã temos que acordar cedo.
Seu despertador não tem números.
Isso me enlouquece.
Dentro do quarto tem uma pia de louça
pintada à mão, meio campesina.
Nunca a usamos.
Vitrolas são inteligentíssimas.
Fecho a janela datada de madeira.
O gato a sono solto
dou de beber às flores.
Você me chama
eu me atraso.
Meu calcanhar.
Você me enlaça.
Acordamos todos os dias
com um relógio sem rosto.



Laura Liuzzi nasceu no Rio de Janeiro em 1985. Calcanhar é seu primeiro livro.

quarta-feira, 17 de março de 2010

LANÇAMENTO: RASTEIRA NO CAMPO DE CANIÇOS

Suicídio com livros, de Olga Bilenky (foto: Mauro Holanda)

Leia um trecho do conto "O universo transformado em tarde de domingo", do livro Rasteira no campo de caniços, de Narjara Medeiros.

Naquela terra apartada do Brasil a presença do cigano trigueiro com cara de vampiro apertou no coração dos nativos a sensação da novidade. Até aí a Alemanha, para os loiros de Três Forquilhas, era o lugar mais desejado depois do colo de Lutero.
Para mim, além da sensação gostosa das músicas do violino, dos antúrios estendidos em suportes especiais, o cigano trouxe também o desleixo da paixão na mocidade. Sim, eu estava mesmo apaixonado pelo estrangeiro. Não parecia correto que eu, um menino, me apaixonasse por um homem feito. A natureza escolhe bem os seus pares e parece desnecessário invertê-los. Então pensei o seguinte, confiante nas leis eternas da natureza: se eu, que sou homem, me apaixonei por outro homem, então esse outro homem não era homem de fato, dado que minha masculinidade já fora averiguada tantas vezes nas horas do banheiro. Sendo assim, o cigano só podia ser mulher e, portanto, dissimulava nas roupas esquisitas os verdadeiros traços. E o embuste era perfeito. Os seios escondidos atrás do tecido de flanela bojuda, a calça de árabe forasteiro formava na região do ventre um saco largo onde não era possível distinguir a protuberância do sexo. A voz treinada para enganar, o rosto não despontava sinal de barba e os cabelos encostavam-se na metade das costas.
Em Matacavalos, égua guerrida, a estética robusta das mulheres que se atinam para os mistérios das cidades. A mulher viageira tem a cara diferente e talvez também por isso o rosto de Matacavalos fosse tão peculiar.
Se Matacavalos se confessasse mulher meu empenho na conquista seria tão grande que Matacavalos também se apaixonaria. Ele contava as histórias sobre viagens e sua voz atingia a postura exata das coisas do passado, a eloquência poderosa transformava em objeto o sonoro da palavra. Não só os ouvidos deviam estar atentos às conversações, mas sobretudo os olhos, pois Matacavalos se exaltava nas interpretações e às vezes acontecia de saltar tão alto que parecia voar. O violino encaixado no ombro intervinha enriquecendo o contorno das palavras. Eram frequentes esses encontros na saída da escola. De todos os rapazes eu era o mais extasiado e, sobretudo, o mais orgulhoso. Quando Matacavalos me contasse o seu segredo, eu confessaria o meu amor e o pediria em casamento.


Narjara Medeiros nasceu em 1983, em Rondônia. Estudou Filosofia e Botânica e escreve roteiros para audiovisual. Rasteira no campo de caniços é o seu livro de estreia.

quinta-feira, 11 de março de 2010

NO PRELO: SILÊNCIO EM SIENA

Em Silêncio em Siena, Flávio Wild percorre 15 cidades europeias em fotos e contos.

Leia um trecho do conto O velho do Parc Güell
Abri o mapa de Barcelona ao pé do monte Tibidabo, procurando o Parc Güell. Um canil exalava fedor de carne e urina. Os terríveis latidos dos cães ficaram mais baixos após subirmos a ladeira. Mas o calor e o vento trouxeram o cheiro, desnorteando-me a cada passo.
Não é por aqui, Laura comentou, com os olhos cravados no caminho. Enxuguei o suor do rosto na camisa enquanto ela confirmava: estamos perdidos!
Na volta, os mesmos cães moribundos ladeira abaixo. A cor de tudo era vermelho e amarelo, a boca sem saliva. No outdoor, uma praia da Andaluzia convidava para o sonho. Apenas ali havia azul e verde.
Abordei um taxista, que mexia no motor do seu carro, para saber o caminho correto. Ah, Parc Güell... é difícil chegar por aqui, ele disse. Mas... vejam, sigam aquele velho. Ele vai para lá todos os dias.
E fomos atrás do ancião, bem devagar. Sereno, ele segurava a bengala com uma das mãos. A outra mão no quadril. As sandálias quase ocultas pelas calças sem bainha. A barba grisalha contornando a cabeça até o boné. Entrou por ruas estreitas, becos, como se o caminho a traçar naquele labirinto, menos que real sabedoria, fosse apenas um costume. Cada aroma, à beira da calçada, lhe determinava o rumo a seguir. Primeiro, a tabacaria. Demorou-se lá dentro, a vasculhar os charutos. Depois, o vendedor de crepes com sua
carrocinha branca, a quem apenas cumprimentou e seguiu. Dois escarros precederam um charuto e ele o levou aos lábios murchos com ansiedade. Soltava mais baforadas de fumaça do que passos no caminho.
Parou, segurando o fumo entre os dedos, e virou à esquerda numa longa escada-rolante. Chegar ali dessa forma era algo inusitado. Mas o velho parecia saber, ou fora atraído pelo cheiro da panadería da esquina. A escada nos levou até o nível de entrada do parque. Nenhum logotipo, nenhuma grande placa atestava o acesso. Apenas a certeza daquele velho nos conduzia, cipreste após cipreste. O calor sufocante, o ar seco, e paramos para descansar. Tentei fotografar o rosto dele com o zoom, mas estava todo na sombra.
E sumiu numa curva do caminho.

Flavio Wild nasceu em 1964, em Porto Alegre. É designer gráfico e fotógrafo. Silêncio em Siena é o seu livro de estreia.

terça-feira, 2 de março de 2010

LANÇAMENTO EM BH: MONODRAMA, de Carlito Azevedo, e AMBIENTE, de Walter Gam




Monodrama
Monodrama vem quebrar o jejum de 13 anos de Carlito Azevedo, um dos mais importantes poetas brasileiros da atualidade. Poemas extensos e uma multiplicidade de personagens surgem deste que é o livro mais político, no sentido amplo, do autor, mas também o mais irreverente e emocionado. A pauta autobiográfica da série "H." é uma novidade no estilo do autor.

Se alguém ainda quiser saber para que serve a literatura, a resposta está dada: para que de vez em quando alguém escreva um poema como esse H., do Carlito Azevedo.
Bernardo Carvalho

Ambiente
Walter Gam surpreendeu muita gente quando, aos 19 anos, foi o vencedor do Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, promovido pela Revista Cult, com o livro Variações de um movimento íntimo, de 2002. Sete anos depois, o autor volta mais amadurecido em Ambiente. Com referências contemporâneas, a originalidade de Walter Gam reside, em parte, na porosidade entre seu trabalho poético e seu trabalho como artista plástico, na incorporação de materiais e matérias não muito frequentes em poesia.

Leia um poema de Monodrama, de Carlito Azevedo, e de Ambiente, de Walter Gam

Uma tentativa de retratá-la [Carlito Azevedo]

Num dancing é mais difícil
pela chuva de ouro nos cabelos,
e a viagem circular absoluta pela
pista. Mas o século 21 preservou
ainda as bibliotecas, sistema de
sistemas que nos permite pressupor
que em sua bolsa convivam,
como dois faunos se encarando,
Lancôme e La Celestina.
Mas bibliotecas são também
esforços infinitos, fluxos imparáveis,
luminescentes, olhos em
ziguezague, vibração de mãos
pousando em páginas antigas,
com mandíbulas de bolor, e
todos os relâmpagos que há nisso.
Um derradeiro “motivo” seria o da
Jovem Em Um Carro Veloz
Falando Ao Celular; clausura
móvel onde soletrar palavras de
amor e perder tudo, manipular
as intermitências do desejo (e
perder tudo), imolar violetas
retardatárias. O planeta também
imola seus retardatários. Entre
operários na calçada, no frio,
aguardando a sirene da mudança
de turno? Talvez, talvez. De
certo modo ela se parece cada
vez mais com o que escreveu
o seu poeta favorito:
“Piccolo, sempre piú piccolo.
Pigmeo, sempre piú pigmeo”.
Por isso nem dancings, nem
bibliotecas nos bastam. Nem
a balada do automóvel insone.
Isso, e nem a cama alta onde
agora, contudo, sorri
esse shakespeariano animal
que logo existe.

Aka [Walter Gam]

1

uns dias de prazo e é certo
o que busca
nas marcas do último que andou por aqui.
não há serviço secreto e ainda que
falhasse o plano b
essa de remontar os fósseis
desvenda muito pouco
antes disso conhece o
trajeto dos capinzais
é que uma hora
é que o isolamento repete
e que nada pra já
conecta parte das elipses
mas as versões são uma chance
uma visita repentina com
listras e jeans
e o brilho? não digamos que
seja uma fonte disso, tampouco
que a vista não cubra
mais de 200 graus
daqui como saber o norte ou
melhor, também teve uma camiseta de alvo.
e se as coordenadas indicam pra lá
ou o que te parece

2

eu assisti quando vamos pra casa
pouco depois de terem colhido cogumelos e
olhado em troca
comentando porque
atravessar esse tempo só
pra registro do que
pensa antes que a ocasião dos latidos
tome conta.
eu precisava, algo como
mudar a estratégia
como quem tentasse sair de um chão
coberto com água e batesse os pés e provocasse
bases de áudio
close, textura digital.
essa que se torna a
confluência que você quis criar
com a órbita composta
pelo espiral no lago


Dados dos autores
Carlito Azevedo nasceu em 1961, no Rio de Janeiro. É autor de Collapsus Linguae, As banhistas, Sob a noite física e Versos de circunstância. Em 2001, publicou a antologia Sublunar, que reúne poemas dos seus livros anteriores publicados ao longo de dez anos (1991-2001).

Walter Gam nasceu em 1983, em Belo Horizonte. Em 2002, recebeu o prêmio publicação concedido pela revista Cult, de São Paulo, com o livro Variações de um movimento íntimo. É formado em artes plásticas e desenvolve trabalhos com vídeo, instalação, desenho, pintura e fotografia.
 

satara