segunda-feira, 8 de novembro de 2010

"Monodrama" no Portugal Telecom 2010

O Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa – um dos principais prêmios literários do Brasil – vai ser entregue esta segunda-feira, em São Paulo, às 20horas. O poeta Carlito Azevedo (Monodrama, 7Letras) é um dos nove finalistas da edição de 2010 deste prestigiado prêmio, que contempla três vencedores.

Sobre Monodrama, Bernardo de Carvalho destacou na sua coluna no jornal Brasil Econômico:

Se alguém ainda quiser saber para que serve a literatura, a resposta está dada: para que de vez em quando alguém escreva um poema como esse H., do Carlito Azevedo. – Bernardo Carvalho

Leia um poema de Monodrama:

Rua dos cataventos
After “grammatische konfession”
de Eugen Gomringer


Quando explodiram a sinagoga, digo, a mesquita, digo, a
discoteca, ele podia ter estado presente, ele estava presente,
ele esteve presente, ele foi considerado suspeito, ele poderia
ter sido considerado suspeito, ele poderá ser considerado
suspeito, ele colaborou, ele poderia ter colaborado, ele
vai colaborar. Bebeu o café que lhe ofereceram. Passaram a
se referir a ele como “o bebedor de café”.

Quando os conflitos de verdade começaram e tiros de grosso
calibre e até uma ou outra explosão de relativa magnitude
puderam ser ouvidos ele podia ter estado presente,
ele estava presente, ele esteve presente, ele foi considerado
suspeito, ele poderia ser um provável suspeito, ele será
arrolado entre os suspeitos, ele colaborou, ele podia ter
colaborado, ele vai colaborar, ele jogou toda a culpa sobre
o grupo, ele confirmou que ali se falava o tempo todo na
grandeza de cair em martírio, ele fez o jogo do agente duplo,
ele vai dançar conforme a música, ele vai colaborar,
ele colaborou, ele dançou conforme a música. Passaram a
se referir a ele como “o bailarino”.

Quando os conflitos tomaram tal proporção que já se tornava
um cruel eufemismo referir-se a eles simplesmente
como conflitos e os desaparecimentos de pessoas tornaram-
se tão rotineiros que não havia mais, sob o céu dos
vaticínios, quem não houvesse perdido pelo menos um
parente ou um amigo, ele colaborou, ele podia ter colaborado,
ele ia colaborar, ele vai colaborar, ele cantou a música
inteirinha, nota a nota, ele recitou o poema todo, verso
a verso. Passaram a se referir a ele como “o cantor” e “o
poeta”, alternadamente.
Quando despejaram a seus pés, de dentro de grandes caçambas
brancas que estavam no caminhão, as cabeças dos
possíveis responsáveis, ele estava presente e colaborou, ele
esteve presente e ia colaborar, ele podia ter estado presente
e ele vai colaborar, ele foi chamado, ele tinha estado presente,
ele disse que tinha estado presente, ele afirmou que ia
colaborar, ele colaborou, ele bebeu a água mineral que lhe
ofereceram, ele disse que sim que reconhecia todas e cada
uma aquelas pessoas.

Um comentário:

  1. Indicação mais do que merecida.

    Sou suspeito para falar de Carlito, um ídolo.

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satara