quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Leia um trecho de "Nona", novo romance de Erika Mattos da Veiga


“Mostra! Mostra como você faz o truque” gritou abandonando as pernas soltas no ar, sustentando o peso do corpo no pescoço da negra, um cacho de flores amarelas esparramado no chão, um longo galeio para trás e a temerária brincadeira de criança alçando um inesperado voo destemido, de costas, pernas magrelas de menina defeituosamente esticadas como as de uma bailarina amadora, a saia da camisolinha inflada, branca, feito um balão, os pés, por último, afundando descalços na lama resultante do que fora vento e chuva inundando, na madrugada, o quintal, e as mãos fiandeiras da negra que buscavam contê-la, e ela empinando o rosto à maneira de um desafio, o esplendor dos cabelos louros varrendo a curta distância entre as duas rivais, e depois os pezinhos descalços marcando de lama as pedras acinzentadas compondo a extensa varanda, ganhando, emporcalhados, a cozinha, onde quatro mãos rústicas, visivelmente mais ágeis que aquelas que a perseguiam, preparavam o almoço, e ela fugindo, a barra da camisolinha suja de lama obstruindo a desordem atabalhoada dos passos em disparada rompendo a penumbra desabitada do andar térreo no sobrado, subindo o esplendor superlativo da escadaria de mármore, atravessando, no pavimento superior, magníficos cômodos iluminados pelo calor da manhã, sucessão de aposentos interligados por pares de portas monumentais, altíssimas portas que ela escancarava afastando as metades de madeira inteiriça, deixando entrar o amarelo do sol amornando o quintal, evaporando a chuva acumulada nas folhas da árvore abrigando a tumultuosa orquestra de passarinhos, restituindo firmeza à terra encharcada fixando a verdura do gramado no pátio, clarão amarelo iluminando a camisola de algodão, dois cordões desamarrados pendentes da altura da gola meticulosamente rendada, dois cordões e o evidente desleixo da gola desbeiçada no ombro, as mangas compridas escondendo ambas as mãozinhas rechonchudas afastando cortinas, descortinando portas-janela, ‘Mostra! Mostra! Mostra!’
seguia bradando, e a voz distante da negra tentando impedi-la, e ela cada vez mais rápida, descalça, deslizando sobre a tábua corrida no chão, ganhando varandas, mosaicos de pedras acinzentados represando água da chuva, dissolvendo a cada passo a lama incrustada nos pés, espécies de pãezinhos de leite donde brotassem pequenos dedinhos sujos, fenômenos de capilaridade alastrando a nódoa castanha no algodão enfartado da camisola, e ela voando, as mãozinhas dedilhando arabescos das grades de ferro impedindo mergulhos, fossem ou não acidentais, de crianças destemidas desde a sacada até os canteiros folhudos no chão, os volumosos cabelos louros esvoaçando até a linha da cintura, embaraçando-se de tão leves, deixando para trás, qual pluma que o vento indiferente carrega, fios presos às circunvoluções de um gradeado, ao espaldar de uma cadeira, e ela incansável, e outras gigantescas portas que se abriam no imenso sobrado, e os enormes olhos verdes inquietos, perscrutando outros inopinados rumos, novos desconhecidos pequenos espaços por que se esgueirar, e ela correndo desvairada, uma criança precocemente louca, chocando- se contra tudo o que se encontrasse em seus impensáveis novos tresloucados caminhos, e a linda mãezinha no centro de tudo, forma materna de olho enfermiço do furacão, sentada muito ereta e firme em frente à suntuosa penteadeira, as rendas da camisola, branca, idêntica à da criança, impecavelmente engomadas, dois cordões de extremos simétricos cuidadosamente atados num laço vistoso, as três bandas de espelho dispostas à maneira de um biombo, e ela, a linda mãezinha no centro de tudo, segurando um antigo espelho de toucador, a mão destra ora escovando os lustrosos cabelos louro-cinzentos, ora acomodando, uma a uma sobre a cabeça, o mau presságio das horrendas flores cor de abóbora pousadas sobre o tampo de pedra, (...)

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