quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Leia um conto do livro "O professor de piano"

O cavalo

1
Com a insônia, me levantei, fui até a cozinha, bebi um copo d’água. Atravessei a sala, aproximei-me da varanda do apartamento, fiquei olhando a noite. O mar, a uns oitocentos metros, atirando-se nas areias alvas. A luz do poste refletindo nas palhas da palmeira no pátio do prédio, o fundo azulado da piscina tremendo. A rua deserta, arborizada, o asfalto comido em alguns trechos.

Notei que de um terreno baldio, perto de outro onde estão erguendo um edifício, saiu um cavalo do meio de alguns arbustos, veio andando na direção do meu prédio, os passos calmos, a cabeça, vez por outra, sondando ao redor. Achei que o dono de alguma carroça – as casas humildes do outro lado da avenida, não muito distante – largou-o na noite para um devido descanso. Um cavalo altivo, avermelhado.
Batia um vento bom e, de repente, na esquina, apontou um carro vindo dos lados da praia, entrou na rua. O cavalo, na calçada, dobrou o pescoço, observou o carro passar com velocidade, uma leve poeira partindo dos pneus.

O homem parou diante do portão de uma das casas da rua (moro aqui já tem três anos, após me aposentar como advogado, mas não havia reparado no belo jardim da casa), acionou o portão eletrônico, que foi abrindo lentamente. Em pouco tempo o homem entrou com o carro na garagem. Olhei a nuvem arroxeada se aproximando da fatia de lua, lá adiante, sobre o mar. O cavalo vinha andando pela rua, apagando-se nas sombras, sempre lento.
O homem demorou a sair do carro e a fechar o portão. Após alguns minutos, finalmente deixou a garagem escura e, esquecendo que o portão se encontrava aberto, ficou no terraço tentando abrir devagar a porta principal da casa. Pareceu não ter meios, em certo momento, de penetrar na casa, saiu para o jardim, sentou-se na cadeira de ferro, perto de um anjo alto, pôs o rosto entre as mãos. Vez por outra olhava para o primeiro andar da casa, esquecido de vez de fechar o portão da garagem, parecendo também que poderia, a qualquer momento, sair de novo para a rua. Por que não chamava alguém? Deixou a pasta (vinha do escritório?) sobre a mesinha de centro do jardim, encoberta por algumas ramas, saiu arrodeando a casa. Enquanto o homem pesquisava ali as janelas, o cavalo veio, passou pelo portão, baixou a boca, foi arrancando tufos da grama do jardim. O homem agora estava lá nos fundos, empurrando portas, espreitando paredes. O cavalo raspou outra vez a boca no chão, apanhou mais grama e foi para debaixo da sombra da pequena árvore no canto mais escuro do jardim. O homem afinal encontrou uma janela aberta, entrou na casa, veio, abriu a porta principal, pegou a pasta na mesinha do jardim e acionou novamente o portão eletrônico, que começou a fechar com ruído.

O cavalo ali na sombra, imóvel. O vento atiçando as folhas da árvore.



Achei engraçado que o cavalo tivesse ficado no interior da casa. Até que, solto na rua, correndo risco de atropelamento, ele merecia mesmo um recanto mais isolado, aprazível, seu. Achei também que ele não incomodaria, pois parecia mesmo cansado, entorpecido.

O homem ligou uma luz no andar superior (estava no banho?) e, após alguns segundos, vi que outra luz da casa se acendeu. Então ouvi um barulho, movimentos bruscos, objetos sendo atirados, a luz do terraço também foi acesa. Percebi logo a briga, era pois esse o receio, a indecisão de chamar alguém, ele tinha chegado muito tarde. Um sapato partiu uma vidraça.

Os olhos do cavalo brilharam embaixo da árvore.

 2
O casal pulou para a grama do jardim, ele ameaçando ela, ela acertando-lhe o ombro com a perna de um móvel. Ele pedindo calma, ela gritando-lhe palavrões, patife, peste, e o mais incrível é que, talvez pela hora (duas e vinte da madrugada), nenhuma luz de quarto foi acesa na rua. Ela plantando-lhe a perna do móvel nas coxas, nos braços, ele se firmando nas colunas, cadeiras, rodopiando na grama. De repente, e depois de receber um golpe firme, com as duas mãos, ele agarrou o pescoço da mulher, derrubou-a na grama, apertou-lhe a garganta, depois socou-a com força, socou-a mais, até ela ficar imóvel, estendida perto do anjo. Ele aí entrou na casa, ficou três ou quatro minutos, saiu de calça e camisa trocadas, veio, abriu o portão da garagem, pegou novamente o carro. Na rua ficou um pouco da poeira.

A mulher continuava estendida na grama, a casa e o portão da garagem abertos. Nada se mexia – só as folhas mais altas da árvore. O porteiro do meu prédio parecia dormir. Eu também tive vontade de ir me deitar. De repente, o cavalo deixou a sombra, deu alguns passos, coçou o pescoço na coluna, olhou calmo para a mulher caída, desgrenhada. Veio, pisou na roseira ao pé do anjo, dobrou-se, cheirou os cabelos da mulher, que continuava imóvel. O cavalo ficou ali, ameno, ao lado da mulher. Voltou a cheirar-lhe os cabelos, a orelha. Aí assoprou forte, bateu com o casco no chão. Ia partir? A mulher se moveu um pouco. Isto me aliviou. O cavalo levantou um pouco o pescoço, mas em seguida girou, foi, deitou de leve a boca nos pés da
mulher, no tornozelo, e, quando olhou para o portão aberto, a mulher se ergueu, sentou-se na cadeira, as mãos nos olhos. Soluçou, deu pancadas na mesinha de centro, procurou com a mão o braço do anjo: “Porra! Patife!”. O cavalo ali, observando-a.

E ouvindo a mulher gritar: “Tu me paga, cretino!”.

O cavalo se assustou com os palavrões da mulher, deu cabeçadas, mas depois ficou quieto, parece que indeciso se saía de vez ou se voltava para a sombra. Foi então que a mulher o observou. Teve um susto, saltou para o terraço, atenta nos movimentos do bicho. Mas ele a olhou com calma, torceu um pouco o pescoço, dando-lhe alguma certeza. Ela, contudo, ficou parada. Gritou: “Cachorro! Viado!”. O cavalo a olhava como quem queria lamber-lhe os cabelos.

A mulher afinal percebeu que o cavalo não estava ali para incomodar – e se interessou por ele, inventou um caminho por entre algumas plantas para se aproximar do animal. Sorriu-lhe, talvez agora com algum receio, tentando agradá-lo. Quis espantá-lo, mas ele apenas rodou sobre si próprio, voltando a observá-la com serenidade. Ela se aproximou. O cavalo mordeu a roseira como quem quer arrancar uma flor.

A mulher se aproximou de vez do animal. Ele, num gesto breve, baixou a cabeça, roçou o pescoço no anjo. Ela então passou-lhe a mão temerosa na testa, alisou-lhe as costas. Ele ficou parado, acolhedor. A mulher, de repente, abraçou-se ao pescoço do cavalo, apertou-o firme – e começou a chorar, os dedos prendendo-lhe as crinas: “Demônio! Patife!”. O cavalo lambeu o anjo.

Agora a mulher soluçava ainda mais alto, dando gemidos, a cabeça amparada no cavalo. Teve um momento em que ela, num movimento de ida e vinda agarrada ao pescoço do animal, pareceu que ia entrar com ele na casa. Mas, num passo brusco, ágil, ela subiu na cadeira e, erguendo-se com ímpeto, montou no cavalo, que a aceitou prontamente nas costas. Ela se segurou nas crinas e, batendo de leve na barriga do animal, foi indo na direção do portão. Saiu para a rua e, em poucos minutos, ainda montada, atravessava alguns quarteirões, antes de ir dar, um pouco distante, na avenida da praia, vazia às três da manhã. Por entre dois edifícios vi-a cavalgando no calçadão da orla, as sombras ao fundo. Seguiu, muito corajosa, para a outra ponta da praia, os prédios agora me impedindo um pouco de vê-la. Desapareceu entre as palhas girando dos últimos coqueiros, a luz fraca de um poste tremendo antes da curva. A casa toda aberta, um gato preto chegou, parou no portão, lambeu o ferro do ferrolho, não quis entrar. Tive vontade de rir.

Dia seguinte, viajei para o Rio de Janeiro, fui visitar meu neto. De volta, soube da notícia do desaparecimento da mulher do médico. Vi-o dando entrevista na tv, o rosto rosado. Dizia ao repórter que a polícia tinha que ser mais ágil, que a mulher tinha sido vítima de um sequestro relâmpago, mas que já não era mais tão relâmpago assim, pois já tinham se passado oito dias. Queria sua mulher de volta. Era a coisa mais importante de sua vida. E chorava diante da câmara: “Achem minha mulher, por favor!”.

Observei, na manhã seguinte, do alto da minha varanda, que um carro da polícia ficava parado permanentemente na porta da casa, sempre fechada. Deu vontade de descer, de dizer para um policial, olha, posso parecer um velho imbecil, que vive ali sozinho, mas a mulher não foi sequestrada coisa nenhuma, ela fugiu montada num cavalo. Mas eu tinha receio de os policiais (tinha um gordinho alegre entre eles, sempre rindo) zombar de mim. Aí eu ri, eu ri comigo mesmo. E resolvi que não ia me meter nisso, pra quê? Quero é meu sossego.

Alguns meses depois, a mulher ainda sumida, soube pelo jornal que deram o caso por encerrado. A casa permanece ali trancada. A grama alta. O anjo, antes branco, agora amarelecido. Nas noites, olho para a árvore no canto do jardim.

O cavalo me assopra ali da sombra.





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