quinta-feira, 11 de novembro de 2010

"Amores Lado B"

No site da Blooks, Mauro Siqueira escreve uma "pequena resenha afetiva" sobre o livro Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras histórias de amor) . Leia a resenha completa sobre o livro de José Rezende Jr., vencedor do Jabuti 2010 na categoria "contos":

Li do início ao fim: General Osório-Saens Peña – sem pena, numa assentada só. Passei duas estações além da minha, mas valeu: a leitura de Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras histórias de amor), de José Rezende Jr, ed. 7Letras, livro premiado com o Jabuti na categoria “Contos e Crônicas” de 2010, me tomou por completo – há um certo tempo que buscava contos assim. É curto, direto, atinge e vence o leitor por nocaute – como diz Cortázar, ao teorizar sobre o gênero. Fui pego, ainda, pelo livro na sua bela capa e projeto gráfico, sobretudo, o seu título – o ruído causado por ele chama a atenção: “Como um título assim pode combinar o amor?”, perguntei para mim mesmo. Lembrei positivamente de outros livros que brincavam com o conceito do amor, como por exemplo o livro de Marçal Aquino, “Do amor e outros objetos pontiagudos” (e do meu próprio que vem a caminho), não pensei duas vezes ao comprá-lo, após algumas folheadas e frases escolhidas a esmo e lidas em voz alta, ainda na livraria.

Doze contos. Amores incomuns e seus aspectos idem, José Rezende Jr mostra ao leitor que há nuances e camadas outras detrás das possíveis formas de um relacionamento amoroso, ou fraterno, ou cordial, ou atemporal, ou afins; há o vermelho da paixão e/ou o rosa romântico e há também um certo amarelado e cinzento embaçamento, confundindo sentimentos e impressões, apontando para fins melancólicos, trágicos, violentos entre eles por todo o livro. O interessante para o leitor é buscar que tipo de amor há; é daí que o ruído da relação do título e seu subtítulo se justificam, nessas histórias você termina algum dos contos com essa questão, na releitura você parte em busca das respostas. Como no conto de abertura, intitulado “Eu morrendo e você pintando as unhas de vermelho”, onde um moribundo observa a futura viúva se arrumar para a noite, enquanto ele definha sobre uma cama e aos poucos nos damos conta que os seus comentários depreciativos querem nos dizer algo além. Ou na relação submissa, tipicamente asiática, do conto “Origami”, um contrato de tolerância mútua de duas tristezas mediadas pelo corpo e pelo dinheiro. Uma tristeza bem diferente da mãe  de “Um conto de horror”, mãe esta que dorme com um punhal debaixo do travesseiro, por medo do filho. E não há como não se chocar com a história de Maria de Lurdes, em que o título já antecipa o fim da história da moça que faz um esforço para agradar o namorado. Ou se sensibilizar com o resgate de um amor perdido no tempo em “Desvio; desvão” ou a discussão silenciosa de “O amor surdo, mudo, morto”. Poderia me deter em todos os outros contos – uns mais outros menos –, mas fazê-lo seria tirar do outro o prazer de descobrir por si só esses pequenos detalhes engendrados por José Rezende Jr – como no conto título. Como num tapete bem tecido, todos os contos juntos formam uma bela imagem de uma das várias formas de se ver o amor.


Sem recorrer a floreios e jogos intricados de linguagem, mas nem por isso sem alguma poesia, Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras histórias de amor) é um livro ágil em que sua força está na maneira de dizer que o amor é mais um sentimento como os outros, algo que fica escondido e reservado a quem quer ir mais fundo, como num lado B de um velho LP, mas menos dedicado àquela bela imagem e mais reservado às viscerais considerações do sentimento.
“…você sedenta de vida e meus lábios ressecados, minha garganta seca e você desfilando pelo quarto com a leveza de Debbie Reynolds dançando na chuva, meu pijama encharcado de suor e urina e você limpa, saudável e linda, sua cabeleira bailando feito um açoite, meu corpo todo lanhado, minha cabeça quase sem cabelo, eu já quase sem dentes, eu quase sem tempo, a areia do meu tempo escorrendo ligeira entre os dedos e você com todo o tempo do mundo se enfeitando diante do espelho, você rodando a saia antecipando festas para as quais eu nunca mais serei convidado, você enorme na frente do espelho e no fundo do espelho eu minúsculo no leito de morte, eu em meus catéteres, até que no espelho eu vejo você só de sutiã e saia rodada flutuando de salto alto na direção da cama, até que sinto seu frescor no mau-hálito da minha boca, meus últimos suspiros e você suspirando no meu ouvido, descendo até minha virilha, colhendo meus bagos feito um cacho de uvas secas…”
– trecho de Eu morrendo e você pintando as unhas de vermelho
Resenha de Mauro Siqueira: além de colaborar com a Blooks, Mauro escreve ainda no site O BULE, além de escrever no seu próprio blog, De VERMES & outros ANIMAIS rastejantes

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