quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Trecho de "Diário Vazio"


João é mais um rosto no retrato de uma jovem zona sul carioca, tão distante do glamour do passado em meio à decadência e à violência urbana. Entre festas e farras, a  juventude de João escoa, vertiginosa, até a maturidade, quando seus sonhos se chocam com a realidade mesquinha ao redor. Descobertas e perdas pontuam sua passagem para a vida adulta, até que um atropelamento o força a parar e repensar sua história. O ritmo fluido e o imaginário vibrante da literatura beatnik ecoam ao longo deste romance de formação, traduzindo a busca desenfreada por todo tipo de euforia, barato, emoção. Rafael Leiras expõe os ritos de passagem, os erros e acertos de um grupo de jovens de classe média, escancarando o vazio existencial de uma geração embalada a drogas, música pop e (des)ilusão.

Leia abaixo um trecho selecionado do romance de estreia de Rafael Leiras, "Diário Vazio":

"Terminou o primeiro semestre de aulas na faculdade, mas não havia nada realmente interessante a escrever sobre isso. A universidade era um reflexo do mundinho em que fingimos viver: veteranos disputando o troféu de babaca do ano, calouros arrogantes metidos a gênios precoces, burocratas disfarçados de professores. Além dos personagens corriqueiros: vagabundas, bichos-grilos, patricinhas, nerds, esquerdistas radicais de butique, viciados, bichas enrustidas, pseudointelectuais. Em torno dessa fauna girava o teatro de vaidades com dezenas de jovens atores canastrões reunidos, todos com seus pequenos egos inflados pela conquista de uma vaga na conceituada instituição. Grande merda. Confesso que algumas vezes sentia um impulso quase irresistível de explodir uma bomba no auditório lotado, durante uma daquelas palestras insuportáveis de alguma sumidade do jornalismo. Mas tudo bem, eu sobreviveria. Não cometeria um desatino. Quatro anos não demorariam tanto assim. Depois, adeus. Faculdade nunca mais.

Não esperava mesmo grande coisa quando pisei pela primeira vez naquele equívoco arquitetônico na zona norte do Rio, vizinho do estádio do Maracanã. Desde o primeiro dia tudo me pareceu uma grande farsa. Impossível esquecer de uma sexta-feira na segunda ou terceira semana de aula, após aquele lapso de tempo que os veteranos usavam para fazer os calouros acreditarem que estavam livres do trote. A turma inteira caiu na cilada. Era a data marcada para a festa de boas-vindas, organizada pelos veteranos com o dinheiro arrecadado por nós. Estava animado com a perspectiva de uma noite regada a álcool e moças com pose de futuras jornalistas. Só me dei conta de que tinha caído na armadilha quando, no fim da última aula, um veterano entrou na nossa sala e pediu licença ao professor para dar uma palavrinha aos novos colegas:

– Oi, pessoal. Hoje, vocês devem se lembrar, é dia da nossa festinha. Mas antes teremos outra atividade. Quando a aula terminar, podem esperar aí mesmo, sentadinhos e comportados. Até logo!

O porta-voz dos poderosos reprimidos tinha um ar malicioso e doentio. Nos olhava como um maníaco deve olhar uma criança indefesa: friamente, mas antevendo o gozo do seu sadismo. Senti uma séria apreensão ao perceber que aquela era sua única plateia possível; portanto, ele teria que aproveitar ao máximo a oportunidade. Uma perspectiva inquietante, levando em conta o barulho crescente e hostil no corredor ao lado da sala. Não havia por onde escapar. Pela janelinha de vidro da porta, apareciam rostos zombeteiros, mãos carregadas de ovos, gestos e caretas ameaçadoras. Quando o líder da gangue saiu, o barulho se tornou intolerável. Dentro da sala, o nervosismo tomou conta dos calouros. Alguns conversavam resignados com o que estava por vir. Outros enfiavam seus cadernos nas bolsas e espiavam a baderna do lado de fora, agarrados à esperança de que ainda houvesse uma saída. Eu olhei para a janela e lembrei que estávamos no décimo andar; dava pra ver o Morro da Mangueira tranquilo e iluminado do outro lado da Avenida Radial Oeste. Na véspera, um tiroteio pesado transtornara a aula. Olhei para os colegas e vi a inquietação em seus rostos. A porta tremia com o ímpeto que vinha de fora. O professor interrompeu o palavreado estéril e começou a arrumar seus papéis na pasta surrada. Teoricamente faltava meia hora para terminar a aula, mas ele se levantou e saiu sem dar uma palavra.

Antes que sumisse por trás do batente, uma horda invadiu a sala urrando palavras de ordem que não consegui compreender. Eram uns dez babacas, todos com aspecto valente e decidido. Atrás deles entraram duas veteranas, uma loura com cara de vagabunda e uma morena gostosa com semblante estúpido. Empurravam um carrinho de supermercado atulhado de compras: ovos, farinha, ketchup, mostarda, tinta. Filhos da puta, pensei. Havia prazer em seus olhares. Os calouros estavam subjugados, prontos para receber ordens e suportar humilhações.

Não havia para onde fugir. Me resignei e sentei numa cadeira no fundo da sala. As gargalhadas de nossos algozes tornavam o ambiente sufocante. Uma garota disse que estava se sentindo mal e pediu pra sair. Precisava respirar um pouco. Um veterano magro, completamente chapado, de ombros caídos e barba rala, fez pouco caso da garota. Mandou-a se sentar. A caloura deu sua última cartada, desabando no choro e suplicando que a deixassem sair. Conseguiu o que queria, mas o líder daquela babaquice se apressou em advertir:

– Agora acabou a colher de chá! Ninguém mais sai daqui! Ninguém!"


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