segunda-feira, 6 de setembro de 2010

taxiando

"noite. escuro. frio. madrugada. silêncio. um-motor-ligado. um carro me esperando para a longa jornada. vez por outra, algum carro risca o ouvido. o som no presente deixa seu rastro na memória. o passado do presente ainda tátil. de novo o silêncio. outro carro risca o silêncio. pelo jeito, um ônibus. já é passado.
imagens acústicas. acontecendo no tempo. o-motor-ainda-ligado. só ele e o silêncio frio da madrugada. um carro me esperando para a grande jornada para dentro da minha memória em busca de mim. quem é eu? quem sou mim? um-motor-ligado. a porta do carro fecha. o motor acelera. o carro parte.
silêncio. não fui naquele carro. ou fui? um-motor-ligado.

o som é sempre um clarão no escuro do silêncio. imagem acústica. imagem acústica que muitas vezes se superpõe a outros inúmeros infinitos ruídos no silêncio. sons superpostos. que se emaranham a pensamentos feitos de palavras. que também riscam o silêncio do cérebro no meio da noite fria. e no meio do dia quente? imagens acústicas emaranhadas, engalfinhadas, se amalgamam com imagens visuais. imagens visuais que podem ser a imagem de são jorge ou o metralhar da janela de um ônibus. de um trem. de um trem-bala. às vezes som e imagem parecem se sincronizar quando vemos alguém falando. falácia. embora o som saia daquela boca que o produz, o som nos risca o ouvido e a imagem, o olho. não tem nada um com o outro. ou tem? se vc der três pulinhos e pedir pra são longuinho, a memória, que vc perdeu num jogo na noite anárquica, a memória pode aparecer (nica era o nome dela? ou dico?)?

um-motor-ligado no meio da noite fria, vazia, silenciada. outros motores riscam o asfalto da noite. outros seres empreendem a jornada. entre o passado e o futuro. entre o futuro e o passado. tudo-no-presente. tudo-no-presente. tudo-no-presente. o som que risca o silêncio aqui, agora, deixa um rastro na memória e vira linguagem. o silêncio não aparece. nada aparece. está escuro e silêncio. apenas o-motor-ligado me esperando para a longa jornada. aos seios de duília? melhor não. uma tumultuada, uma indecifrável jornada para dentro de mim. da linguagem. da minha linguagem. da minha vida. um-motor-ligado me espera no silêncio da noite. tudo escuro. o-motor-ligado e uma porta de carro que fecha. o carro parte. e risca o silêncio. acende a linguagem. eu continuo aqui. ou não?

agora não há mais noite, silêncio, frio, madrugada, carro, motor, ponto e vírgula. melhor assim. mato a linguagem no peito e escorro pro chão. vamos nessa, querida? partimos."

Trecho do livro Uma história à margem, de Chacal

Lançamento : 5ª feira dia 9/09, na Travessa de Ipanema

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satara