terça-feira, 21 de setembro de 2010

"A Casa dos Outros" premiado pela UBE-RJ


A obra A Casa dos Outros, do estreante Marcílio França Castro, recebeu o primeiro lugar no Prêmio Clarice Lispector, categoria de contos do Prêmio Literário Internacional da UBE-RJ.

Leia a seguir um pequeno trecho da narrativa que dá nome ao livro:


Sempre imaginei, de modo nada original, que a memória de Peraus me levaria a um romance. Há cerca de quinze anos, na época em que Estela e eu éramos apenas amigos de faculdade (mas com sua alegre fúria ela se apaixonava pela promessa de escritor que vira em mim, e que eu, não refutando, acabava por alimentar), cheguei a esboçar um plano e reunir algumas notas. Era o esforço de pôr no papel, pela primeira vez, as impressões de um mundo que (ainda não me dera conta) estava prestes a desaparecer.


A tentativa tinha os seus precedentes. Nos tempos de criança, quando achava que o simples fato de estar em Peraus constituía já uma ficção, eu passava um bom tempo das férias fazendo listas com palavras locais e desenhando o rosto de pessoas na praça. Com um gravador velho que ganhara de presente de minha mãe (hoje uma relíquia de sua carreira), cheguei a registrar conversas de feira e sons do interior da casa de João Fonseca, o patriarca (como o barulho de pessoas entrando e o rangido da porta do quintal). Se me perguntavam o que significava aquilo, dizia (ingenuamente) que era uma reportagem e encerrava o assunto. Todo esse material de infância, porém, se perdeu. Outro dia, depois de alguma hesitação, pedi a Estela que me mandasse o pacote com os rabiscos de faculdade que tinha ficado no nosso antigo apartamento.
O envelope chegou pelo correio. Reconheci as duas ou três folhas de caderno amareladas, presas por um clipe, e um punhado de papeizinhos soltos, borrados de café. No alto da primeira folha, à direita, um esboço de roteiro. A ideia era para um conto, no máximo uma novela. O provável parágrafo de abertura ocupava o centro da página, redigido em letras bonitas, com um capricho ingênuo. O crepúsculo, uma estrada de terra, o muro de um cemitério. Enquanto caminha para a cidade, o protagonista, com um saco de sementes na mão, planeja mais uma vez a venda do retiro e o destino que dará ao dinheiro (o leitor suspeitaria logo de uma obsessão). Nada menos perturbador. Cinco linhas bem compostas, e uma imagem que não cabe mais nas minhas retinas. Duas ou três variações do mesmo texto vinham na sequência.
Descendo pela borda da página e em letra miúda, um comentário sobre o protagonista prolongava-se até a margem inferior, onde fazia uma curva e continuava na outra extremidade, conduzido por uma seta (ainda tenho a mania de escrever em espiral). Eis o homem: cinquenta anos, alto e luminoso, reflexivo, com um trejeito no pescoço. Lembro-me dos exercícios de estilo que, estimulado por Estela, fiz para dar a esse personagem uma dicção notável, que não caísse no regionalismo nem fosse caricatural (nem tio Joaquim nem tio Jairo me serviram de inspiração). Mas o resultado foi uma sintaxe meio gaga e soluçante, que não convenceria nenhum leitor.
Havia ali uma escrita polida, mas sem rumo - e lírica em excesso. De qualquer canto era possível ver a paisagem espessa que a janela recortava no escuro. Uma visão redentora da literatura contaminava o texto, e talvez eu achasse que escrever bem era dizer coisas sublimes. Paus e verdes sobrepostos, à espreita, palavras desaparecendo, um abrigo infinito. O rumor de coisas que nunca desabrocham, mas estão ali. Uma narrativa sóbria podia compensar o tom impressionista, mas eu teria que desistir de pôr o animal como fio da história. A idéia da cabra criada dentro do quarto por algum motivo sobrevivera desde a infância naqueles rascunhos, e caíra no gosto de Estela. Agradavam-lhe os animais e as pequenas depravações.
A verdade é que, no conjunto, aquele desgastado maço de papéis continha uma ficção precária e convencional, com a crença de poder unir o realismo social ao fantástico. Eu sempre acreditei que nas sombras da casa do avô uma história inesperada pudesse emergir, sem recorrer a ciganos, fantasmas ou coronéis. Mas a verdade é que eu não sabia que história devia ser contada.
O trabalho de jornalista-burocrata me ajudou a afastar as velhas ilusões. Uma crosta de gelo parece cobrir hoje a minha imaginação. Às vezes pressinto que sou uma vítima lenta da esterilidade e temo ver meu cérebro contaminado irreversivelmente pelos relatórios e boletins de imprensa. Aquele monte de palavras se repetindo nos textos da Secretaria, uma meia dúzia delas, sempre as mesmas. De vez em quando, como antídoto, abro um livro de botânica ou de zoologia e refresco a cabeça com palavras bonitas, sem me preocupar com o que significam. Fico pensando na reação de tio Jairo lendo uma das coisas que escrevi. 

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