sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Uma história à margem

A história deste artista que circula na contramão da indústria cultural e da Academia não poderia ser uma narrativa linear. Para dar conta de tantos mergulhos, viagens e saltos mortais na matéria da arte, esta só poderia ser uma história à margem.
A memória é uma coisa muito difícil. Você tem uma imagem do que aconteceu na sua adolescência, mas na hora de contar, nada chega aos pés da sua vivência. A memória é o fio condutor de Uma história à margem, romance autobiográfico do poeta Chacal. Uma autoficção singular, como a própria vida deste ícone da poesia marginal.
 
Poemas, artimanhas e aventuras se revezam ilustrando os primeiros encontros de Chacal com a poesia, ainda adolescente, até a expansão da sua verve poética para além das fronteiras do papel na música, performance e teatro.
Sua palavra vívida joga luz sobre a geração mimeógrafo, a poesia marginal e sobre os mais emblemáticos movimentos culturais cariocas das últimas décadas. Sobre a trajetória de todos os personagens que o acompanharam, ao longo dos últimos 40 anos, nessa aventura que é fazer arte pela arte.
 Não sou um estudioso, um sociólogo, nem ao menos um jornalista, nem Heloísa Buarque nem Ruy Castro sou uma pessoa que viveu isso. E é isso que eu queria: poder contar essa história do meu modo. Sem pretensão analítica, intelectual, ou de ser fiel aos fatos, que é uma coisa mais jornalística – a minha coisa é mais afetiva, emocional – comenta.
  Alimento para as novas gerações
Na linguagem ágil que marca sua poética, Chacal revela a gênese de grupos emblemáticos como Asdrúbal Trouxe o Trombone e Nuvem Cigana, recorda os áureos tempos do Circo Voador, conta detalhes dos bastidores da Blitz, do movimento de performance dos anos 90, até a criação do CEP 20.000, o Centro de Experimentação Poética que comemora vinte anos de efusiva atividade. Relembra as peripécias e aventuras artísticas dos eventos da Souza Cruz, do Miscelânea Odeon e de outros movimentos que têm em comum o impacto na produção cultural do país e a quase total ausência de registro. Afinal, não são considerados coisas sérias, explica Chacal.
O poeta também passa a bola para figuras essenciais na efervescente cena cultural da cidade maravilhosa, que contribuem com os seus depoimentos. Fiquei muito receoso, porque chamei pessoas com quem nem tenho mais tanta intimidade, mas todos toparam. 
O resultado? O livro não fica só nas lembranças, o texto se amplia.
Acho importante registrar memórias contemporâneas de coisas recentes ainda, importante para as novas gerações saberem o que aconteceu anteontem. Porque hoje em dia o ontem já é tão distante que o anteontem é quase um passado pré-histórico explica Chacal. Waly Salomão falava muito (em) alimento para as novas gerações.

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