segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Todos os cachorros são azuis - 2ª edição

O romance de estreia de Rodrigo de Souza Leão Todos os cachorros são azuis chega à 2ª edição pela 7Letras.  Já nas livrarias, a segunda edição inclui, além do novo projeto gráfico da capa, a nota do editor Jorge Viveiros de Castro:


Recebi os originais da primeira versão de Todos os cachorros são azuis em 2003, e fiquei bastante impactado pela leitura. Na ocasião, não tínhamos condições de investir na publicação (as mesmas dificuldades de sempre para distribuição e comercialização de autores estreantes), mas entrei em contato com o Rodrigo para comentar minha impressão positiva sobre o texto, tentar uma parceria para viabilizar a edição e incentivar o envio também a outras editoras maiores, pois se tratava de um dos melhores originais que já havia recebido.

A partir dessa primeira conversa, assumi o compromisso de publicar o livro logo que tivéssemos condições para isso – o que só veio a ocorrer cinco anos depois graças ao apoio de uma bolsa oferecida pela Petrobras, que permitiu ao Rodrigo trabalhar na versão final do texto e à editora produzir uma tiragem inicial de 1.500 exemplares.

Durante esses anos, conversamos algumas vezes por telefone (ele não saía de casa) e fiquei impressionado com a lucidez e a clareza com que ele me contava sobre sua condição – a esquizofrenia, os remédios, as paranóias, as internações –, o que só fez aumentar minha admiração pelo seu talento e pela sua arte.


No período em que trabalhamos no livro, o contato mais estreito do Rodrigo passou a ser com a Valeska de Aguirre, que foi a editora responsável pela preparação final do texto e se tornou uma espécie de amiga – os dois se falavam, sempre por telefone, quase diariamente, sem contar uma extensa troca de e-mails sobre os outros projetos literários do escritor, que acabaram ficando póstumos.

Apenas no dia do lançamento de Todos os cachorros são azuis – uma tarde de autógrafos marcada para o playground do prédio onde Rodrigo morava com a família – pudemos enfim nos conhecer pessoalmente. Ali já era possível perceber o reconhecimento de várias pessoas do meio literário ao trabalho dele, cultivado e divulgado nos contatos via internet. Da primeira edição, o próprio Rodrigo ainda adquiriu uma boa cota de livros para enviar a diversos críticos, escritores e jornalistas, sempre confiando no próprio taco.

Alguns meses depois, veio o anúncio da indicação da obra entre os 50 finalistas do Prêmio Portugal Telecom. O livro dele foi citado especificamente (em meio a nomes de alguns dos mais consagrados autores de língua portuguesa) como um sopro de renovação e originalidade na literatura brasileira, na noite em que os concorrentes foram anunciados. No dia seguinte liguei para o Rodrigo – que a essa altura andava saindo mais de casa, fazendo um curso de pintura no Parque Lage – para comentar a boa notícia. Durante o telefonema ele se emocionou bastante, ficou com a voz embargada e conseguiu dizer apenas: “é muito sofrimento”. Repetiu a frase e não conseguiu dizer mais nada, talvez eu mesmo tenha ficado sem palavras antes de desligarmos.

A notícia da morte do Rodrigo caiu como uma bomba na editora. Confirmando, de certa forma, uma previsão do próprio autor (numa mensagem que misturava sua lucidez delirante com uma pitada de ironia), só depois de morto seus livros iriam fazer sucesso. Pelo menos acho que ele pôde ainda sentir um pouco em vida a reação positiva dos primeiros leitores e críticos, que souberam perceber a força e a dimensão de sua prosa contundente.

Não foi possível compartilhar com o Rodrigo a alegria de ver a primeira edição do livro esgotada (sucesso raro para um estreante neste país de ainda poucos leitores), mas posso imaginar que ele ficaria feliz e realizado ao ver esta nova edição circulando, ganhando vida a cada novo leitor – assim como imagino que cada novo leitor irá sentir o mesmo impacto que tive ao descobrir esta obra tão densa, rica e original, e que ainda redescubro melhor a cada nova leitura.

Jorge Viveiros de Castro

junho/2010 

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