quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Paisagem com cavalo

Um crime, um assassinato, um mistério, num romance ousado e original, que abre as portas de uma metaficção e leva a linguagem para paisagens distantes. Transitando na fronteira do fato e da ficção, a escrita afiada de Halley Margon segue longe no tempo em busca de vestígios de um crime talvez nem acontecido. Pontuada pelas experimentações e transgressões formais, esta narrativa instigante flerta com o gênero policial para destilar algo de filosófico ao tocar na essência e nos limites da existência.

Leia um trecho de Paisagem com cavalo:

"Depois de tê-la matado só o que desejou foi dormir. Fechar os olhos para sempre. Apenas dormir. Não é o mesmo que morrer, você pensou. E não é. Mas ter cometido o crime fez com que quisesse dormir daquela forma. Tão próxima da morte. E porque ele a encontrou (à mulher) seu corpo passou a se submeter à escravização daquele desejo compulsivo: somente dormir. Vamos ver o que acontece durante o sono, você disse como se pedisse socorro, porque na verdade não consegue ver. Os elementos se misturam e você não sabe se o anseio de dormir veio depois de ter cometido o crime/o assassinato ou se antes disso, muito antes/séculos antes, quando a encontrou pela primeira vez. O fato é que houve essa primeira vez, não houve. Você desejaria despertar porque ao abrir os olhos a verdade iria se mostrar/ revelar, é o que você deveria dizer, mas não consegue abrilos. O sono é muito maior que qualquer outro desejo que ele (você) já tivera. Era o maior de todos os desejos e sufocava os demais. E à parte essa impossibilidade (dramática, você reconhece) há ainda a necessidade de relatar, necessidade cuja origem desconhece. Um impulso (nebuloso), uma atração (misteriosa), a (inexpugnável) força da gravidade atuando sobre um corpo em queda livre rumo ao fundo de um abismo, uma ocupação/ atividade rotineira, mas aparentemente inevitável."

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