sexta-feira, 20 de agosto de 2010


Em "Chamada para o embarque" (NósOtros) Renata Magdaleno inspira-se em Mis dos Mundos, do escritor Sergio Chejfec, para refletir sobre a relação viagem e literatura.

"Diana Klinger, em Escritas de si, escritas do outro (2007) afirma que a presença do autor na obra, em autoficções, poderia ser vista como um jogo, que brinca com a noção do sujeito real. O leitor encontraria neste tipo de obra um “efeito” de vida real, que se relacionaria com uma falta, uma fome de real presente no mundo contemporâneo, cercado por virtualidades. Um jogo que apresentaria, portanto, um questionamento do sujeito e da verdade. Existe esse real cuja presença podemos sentir ao ler sobre pessoas e fatos verídicos em obras de ficção? Existe esse autor que respinga suas marcas no texto? Ou tudo, no emaranhado de elementos, faz parte da construção ficcional? E ela conclui: “Assim, o que interessa na autoficção não é a relação do texto com a vida do autor, e sim a do texto como forma de criação de um mito, o mito do escritor” (klinger, 2007, p. 50).

Chejfec em seu romance de viagem reflete sobre essa questão. Vemos esse mito sendo construído ao longo das páginas. Ao sair do congresso, o seu protagonista declara: “Quise olvidar el motivo de mi visita a la ciudad y hasta me tentó la idea de olvidar mi proprio nombre y tratar de ser otro, alguien nuevo” (chefjec, 2008, p. 12). Tanto a viagem quanto o aniversário apontam para uma possibilidade de recomeço. Um novo ano que se inicia e uma nova cidade, com ruas nunca antes percorridas, cruzando com pessoas que provavelmente nunca viram seu rosto estampado numa página de jornal.

O autor-personagem ainda anseia por mudanças em sua escrita. Ele está em desacordo com sua vida e obra. Os personagens que criou parecem ressentidos e sem vontade própria, presos em uma rotina equivocada. Ele próprio, ao ansiar por mudanças, parece se identificar com seus personagens. Ele é mais um desses personagens, ressentido e sem vontade própria. E, ao ressaltar esta questão, o protagonista nos leva a pensar em como a figura do escritor pode ser construída na cultura contemporânea. Esse escritor em movimento, atendendo a constantes demandas do mercado, viagens, encontros, congressos... Tendo que lidar com uma herança histórica, que parece não fazer mais sentido no mundo encurtado da internet, homogeneizado das paisagens urbanas, facilitado pelas viagens... Mas que ainda está presente nas suas lembranças.

Ao longo das páginas acompanhamos a construção desse “mito do escritor”. Sentado na mesa de um café o protagonista pensa em tirar o seu caderno de notas e começar a escrever uma história, o mesmo que dois amigos escritores que escreveram reflexões sobre a vida às vésperas de um aniversário alegam ter feito: escrito livros inteiros em lugares públicos como cafés e restaurantes. Nesse momento, temos a sensação de que esse livro escrito em público é o que temos em mãos. Nós somos esse público, que presencia a escrita em processo. Sensação que o narrador faz questão de desconstruir logo em seguida. Ao começar a escrever, ele se sente intimidado pelo olhar dos presentes, como se pudessem pegá-lo em uma mentira.

Ya no temía no ser publicado, ni vivir alejado del éxito o del reconocimento, ya sabía que esas cosas estarían siempre a mi alcance, para bien o para mal; temia que alguien, pasando al lado de mi cuaderno abierto, me desenmascarara como um simple y deliberado impostor. Las hojas de mi cuaderno no contendrían frases, ni siquiera palabras, solo dibujos que buscaban simular caligrafías, o páginas repetidas com la palabra “qué”, sobre todo “cómo”, o con sílabas desconectadas que nunca hacían sentido (idem, p. 119)

Em público, ele finge que escreve em seu caderno de notas. Mas, se alguém chegasse perto, veria que ali não estão mais do que rabiscos. Assim, ele desconstrói essa sensação de escrita em tempo real, a ideia de que estamos vasculhando seu diário com as anotações da viagem. A escrita em tempo real seria uma farsa, uma encenação. O narrador faz questão de afirmar que prefere escrever às escondidas. O que presenciamos e o que presenciam os personagens que passaram ao lado de seu escritor-viajante é simplesmente uma construção ficcional. Talvez seja justamente a isso que se refere o título do romance: Mis dos mundos. O confronto entre o mundo interior do personagem e o exterior. O escritor e o personagem. O real e a ficção. As muitas ficções presentes com a roupagem de realidade."

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