quinta-feira, 1 de julho de 2010

Nova edição de "Todos os cachorros são azuis"

"Todos os cachorros são azuis" — o único romance publicado em vida por Rodrigo de Souza Leão (1965-2009) — sairá numa nova edição da 7Letras em julho. Leia um trecho da obra, que foi finalista do Prêmio Portugal Telecom 2009, e receberá em breve uma adaptação para o teatro.


"Tudo se apaga. As velas se apagam. Os fósforos se apagam. Nem sei se tem sol lá fora. Fumo um cigarro que não se apaga. Bebo uma vitamina do tempo que não me engorda. Ela me diz que sou bonitinho. Saio de mim duzentas vezes ao dia e volto. Cada vez, saio menos de mim. Contagem regressiva. Cinco, quatro, três, dois, um. Fui de infinito a ínfimo. De ínfimo a infinito. Senti um cheiro do bolo de laranja de mamãe. Sexta-feira.

Quando cheguei em casa nunca havia ouvido tamanho silêncio no meu quarto. Havia recebido alta há poucas horas. Dessa vez o nosso carro não foi seguido por ninguém. Não via Rimbaud e Baudelaire há alguns dias. Quando se tem companhias tão fortes assim, e se tem uma vida em comum, sentimos falta dos amigos. Meu cachorro azul estava lá, encardido pelo tempo, contando muitas histórias.
Andava pela casa e me sentia um ser livre. A liberdade estava nas pequenas coisas: ver os e-mails, abrir a geladeira. Agora era preciso ser mais saudável. Abrir as coisas. Fui abrindo a caixa de fósforos. Abri o gás. Abri o fogo. Abri a caixa com incenso. Fui abrindo, abrindo, abrindo como se estivesse abrindo e descobrindo as coisas pela primeira vez. Parecia que tinha ficado um século fora de casa. Estava tudo igual, mas diferente.
Era uma borboleta borboleteando pelo campo minado, pela zona de força, pelo local onde ocorreram todos os meus escândalos. Estava de volta à minha vida.
Botei uma pizza no forno. Finalmente, ia comer alguma coisa que me apetecia. Devorei a pizza feito um viking comedor de codornas assadas. Depois, deitei-me pra dormir.
Os remédios me faziam tremer e babar.
A noite chegou veloz. Bati um prato de legumes e salada, de lanche. Fui para o meu quarto e dormi.

Homens com crina de pássaro falavam um idioma que eu não entendia. Eu tinha uma teoria estranha: a de que cada animal da Terra tem um planeta onde sua inteligência é igual à humana e eles sobrevivem como nós. Assim, os besouros tinham a besourolândia; os patos, a patolândia. Será que não estava sonhando com a Disneylândia? Havia uma liga que congregava todos os seres do universo. Mas cada um falava a sua língua. K d pocua besourfez biologic Todog.
Acordei de súbito, ouvindo o eco da palavra Todog. Anotei o código e colei na cortiça. O sonho se repetia, mas sempre com uma palavra nova. Sentia-me especial por estar recebendo aquelas mensagens. Achava-me um vidente universal. Alguém que ia ter respostas para o cosmos. Botei um recado no jornal, procurando outras pessoas que tivessem o mesmo poder e a mesma área de atuação.
Apareceram dez pessoas. Resolvemos fazer reuniões chamadas Todog. Ficamos encarregados de criar uma nova língua pelo qual os seres se comunicariam entre si."

2 comentários:

  1. Rodrigo era uma pessoa dotada de lucidez superior, o que lhe permitiu, ver e ouvir mais além, infinita e perigosamente mais além que o real imediato e aparente dos fatos. Quero dizer mais além da consciência que a consciência habitualmente guarda dos fatos. A consciência é seletiva, apaga o que não lhe interessa mas, Rodrigo ultrapassou esse crivo da percepção. Ele não selecionou, não recortou, pois é o murmúrio deste universo psiquiátrico que ele viu e ouviu.
    Rodrigo,com sua poesia, com sua escrita - "levando os homens a se verem como são, faz cair a máscara, põe a descoberto a mentira, a a baixeza, o engodo; sacode a inércia asfixiante da matéria que atinge até os dados mais claros dos sentidos" Artaud
    Essa é a sensibilidade do escritor, a sensibilidade capaz de registrar os desfalecimentos, os acontecimentos por vezes intoleráveis, todo esse rumor.
    De agora em diante é impossível não voltar a Rodrigo !
    Nietzsche dizia que o artista e o filósofo são médicos da civilização. É nesse sentido que o escritor, para Deleuze, através dessa sua saúde frágil, ao colocar –se à mercê de forças cuja visão e audição o esgotam, em contraposição a uma gorda saúde dominante, o escritor revela a doença da civilização.
    Esse é um dos sentidos em que podemos afirmar que a Literatura é uma saúde. Ela inventa e acompanha processos e denuncia tudo aquilo que emperra, que aprisiona .
    O escritor vê e ouve através das palavras, entre as palavras. De cada escritor é preciso dizer: é um vidente, um ouvidor, “mal visto mal dito” com um objetivo CRÍTICO E CLÍNICO : captar forças, tornar sensíveís forças invisíveis e inaudíveís, e libertar a vida de uma prisão.
    A Literatura é uma atividade clínica !
    “ … NOS ESCOMBROS DE MIM - FUNDEI MEU MÉDICO – NA POESIA DA RECEITA…” Rodrigo de Souza Leão in Sindrome de plumas

    O escritor como tal não é doente, mas antes médico, médico de si mesmo e do mundo. O escritor, ao criar seu procedimento literário e tornar-se capaz de ver e ouvir, age como um diagnosticador. Assim, todo grande escritor é um clínico, um clínico da civilização: alguém que analisa a doença ou os sintomas do homem e do mundo e avalia suas possibilidades de cura. A literatura é uma saúde.
    ALINE DRUMMOND

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  2. Tem data para o lançamento dessa edição? Aguardo ansiosamente.

    Um abraço,
    Vicente

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