quarta-feira, 14 de julho de 2010

Lançamento de "A volta", de Ítalo Ogliari


O novo livro de Ítalo Ogliari será lançado hoje, 14 de julho, na Livraria Cultura de Porto Alegre a partir das 19h.
Em A volta, o autor de Um sete um e Ana Maria não tinha um braço mostra porque é considerado uma das vozes mais marcantes da prosa contemporânea nacional neste romance sobre um amor juvenil – que retorna anos mais tarde, mostrando o quão insólita e incerta é a trajetória da vida.

Leia um trecho do livro:

Marina, para mim, era única, mesmo sendo alguém comum, mesmo sendo apenas uma menina simples e sem graça na multidão de uma escola pública central. A questão é que todo mundo é comum. Você é comum até que uma outra pessoa descubra sua singularidade, uma singularidade que nem você conhece. É a lei da alteridade. E a singularidade de Marina não estava na tatuagem nem no sinal. A tatuagem e o sinal me deixavam bobo, mas não faziam de Marina uma pessoa única. Uma tatuagem não faz ninguém único. A singularidade de Marina era um pequeno gesto de pressionar o lábio inferior com os dentes superiores enquanto estava distraída, enquanto estava em um mundo próprio, que é o lugar onde estamos quando estamos assim, distraídos. Marina promovia uma pressão mediana com os dentes no lábio inferior que, quando era solto, fazia com que pequenas marcas permanecessem por um ou dois segundos naquele contorno vermelho e que logo se desfaziam. E isso era uma das coisas que mais me roubava a atenção dentro da sala de aula. Uma das coisas mais belas que eu já presenciara. Uma coisa delicada. A forma como Marina mordia de maneira inconsciente seus próprios lábios, olhando quase sempre para o nada, me tirava toda a atenção e me transportava para o meu próprio mundo, ou para o mundo próprio de Marina.

Apesar de estarmos na mesma classe durante o ano todo, foi somente na primeira semana de outubro que nos falamos pela primeira vez. Somente em outubro que dissemos coisas um para o outro além do trivial. Foi quando eu tentava entrar no ônibus para voltar para casa, quando estava subindo pela porta de embarque que alguém me puxou pela pasta, pela mochila que estava em minhas costas. E não se enganem. Não estou, agora, falando da Marina. Estou falando de Pedro, garoto baixo, metido a forte. Foi ele quem me puxou, numa brincadeira que era moda naquela época. Foi ele quem me puxou de dentro do veículo que começava a partir e fechar suas portas. Foi o Pedro quem me fez cair sentado de costas no ponto do ônibus. Foi aquele puxão idiota que me fez esfolar as palmas das mãos e rasgar minha calça de abrigo atrás, bem onde qualquer um pudesse ver a cueca azul e os pedregulhos encravados na carne das minhas nádegas. Foi aquele puxão estúpido pela mochila que me fez passar uma das maiores vergonhas que já passei em meu tempo de escola. Que mostrou a todos o quão ridículo alguém podia ser. Que fez voar as moedas do meu bolso e que fez com que cerca de sessenta, setenta ou oitenta abobados rissem de mim enquanto eu não levantava a cabeça devido ao peso da desonra, devido ao peso da humilhação.
Foi esse puxão imbecil que me fez esfolar a bunda, que me fez morrer de vergonha, que me fez não ter força para erguer a cabeça, não ter coragem de juntar as moedas que ainda rodopiavam em torno de mim num balé de escárnio; foi esse mesmo puxão que me fez pegar na mão de Marina pela primeira vez. Foi ela a única pessoa ali a esticar o braço e dizer para eu levantar. A única que perguntou se eu havia me machucado. Marina foi a única pessoa a esticar a mão e me erguer. E eu o fiz. Mas levantei sem olhar para ela. Eu estava chorando. Pensem no significado um sujeito desta idade, dezesseis anos, em uma escola, passar por isso. E eu continuaria pensando no assunto por muito tempo ainda. Por isso eu não olhava para Marina. Enquanto ela perguntava se estava tudo bem, eu não a olhava. Eu apenas soluçava sem dignidade. Dignidade era a última coisa que eu tinha naquele momento. Eu não tinha dignidade nem coragem para olhar para o rosto de Marina. E não olhei. Juntei o que estava mais próximo e saí caminhando, sem me virar para trás, sem olhar Marina, nem escola, nem colegas, nem o filho da puta do Pedro. Ninguém. Não olhei para nada. Minha visão se limitava aos meus pés e um perímetro que me permitia andar sem tropeçar e passar por outro vexame. E assim abandonei tudo e todos. Assim eu fui para casa a pé. Demoraria muito para chegar, mas seria um tempo importante para que eu pudesse me recompor. Para que eu pudesse chegar em casa e esconder de minha mãe a humilhação pela qual havia passado. Tempo suficiente para que eu pudesse inventar uma desculpa qualquer, pensar em algo ligado ao futebol, assim como tempo para desinchar o rosto e os olhos do choro covarde.
Eu era um covarde. Eu sempre fui covarde.

Ítalo Ogliari nasceu em Porto Alegre em 1977. É professor do Curso de Letras da Universidade Luterana do Brasil – ULBRA, onde mantém uma oficina de criação literária. É autor dos livros de contos A mulher que comia dedos (WS Editor, 2004) e Ana Maria não tinha um braço (Instituto Estadual do Livro – IEL/RS, 2005) – um dos vencedores do prêmio Coleção 2000/Caixa RS – e do romance Um sete um, publicado em 2007 pela 7Letras.




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