terça-feira, 1 de junho de 2010

"Monodrama" no Prêmio Portugal Telecom

 
Lançado em 2009 Monodrama veio quebrar o jejum de 13 anos de Carlito Azevedo, um dos mais importantes poetas brasileiros da atualidade. Finalista do Prêmio Portugal Telecom 2010, este é considerado o livro mais político, irreverente e emocionado do poeta carioca. Dos seus poemas extensos surgem personagens múltiplos nos quais predomina a figura do imigrante, do clandestino que esbarra com as portas fechadas do mundo hostil. O desencanto político dos poemas iniciais dá lugar à ironia e a emoção em “H” — dedicada à experiência da doença e morte da mãe do poeta, a série inaugura uma pauta mais autobiográfica, uma novidade no estilo do autor. Sobre este poema, Bernardo Carvalho escreveu: "Se alguém ainda quiser saber para que serve a literatura, a resposta está dada: para que de vez em quando alguém escreva um poema como esse H., do Carlito Azevedo."

“garota com xilofone e flores na telegraph av.”
Quando ela
tão incrivelmente linda
como você dizia
escrevia os poemas que escrevia
e eu entendo que não levássemos tão a sério os poemas que ela
tão incrivelmente linda
escrevia
sacando de dentro de uma bolsa ácida com pins coloridos
                                                                           [e motivos op
os menores lápis de cor que vimos em toda a vida
para improvisar
a qualquer hora e sobre qualquer superfície
os poemas que ela escrevia
nós dizíamos que não havia mesmo nada ali
além do pitoresco
nada mesmo
ao menos para dois rapazes passados dos trinta
bebericando café entre desespero e risos explosivos
indo e vindo de países diversamente destruídos
e equilibrando entre os dedos
as moedas contadas
e o fim do amor
e com vontades contrárias e confusas
de deslocamento
e invisibilidade
mas refletidos no espelho de um café em Berkeley
e tendo sim provavelmente toda a razão
ao dizer que não havia mesmo nada ali
quando ela escrevia os poemas
sempre os mesmos
que ela escrevia com aqueles dedos que nos impressionavam
cheios de anéis de pedra bruta
e aqueles olhos
chapados
olhos verde-rã
não havia nada ali
a não ser talvez um homem
sempre o mesmo
que reencontrava enfim uma garota
sempre a mesma
e dizia sou eu
e sempre uma revoada de tão incrivelmente fantásticas
                                                 [flores repetia sim veja é ele
e no fim das contas uma
sempre a mesma
garota concordava sim sim é você mesmo e todos os seus colares
só para depois tornarem a se perder um do outro
como numa espécie de outra mágica revoada
e isso sim havia
em todos
em absolutamente todos os poemas dela
tão incrivelmente linda sim
e lá se vão dez
ou treze anos
e eu simplesmente nunca
os/a
consegui esquecer

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