sexta-feira, 4 de junho de 2010

"A máquina das mãos" ganha Prêmio ABL de Poesia

Nesta última quarta-feira foram anunciados os nomes dos vencedores dos Prêmios Literários ABL de 2010, entre os quais está A máquina das mãos (7Letras), de Ronaldo Costa Fernandes.

A obra do poeta maranhense foi premiada na categoria poesia pela comissão de acadêmicos formada por Lêdo Ivo, Affonso Arinos de Mello Franco e Alberto da Costa e Silva. Os vencedores nas categorias ficção (conto, romance, teatro), literatura infanto-juvenil e tradução foram, respectivamente, Rodrigo Lacerda, Ângela-Lago e Milton Lins. A cerimônia de entrega dos Prêmios será o Petit Trianon, dia 20 de julho, data do 113º aniversário da ABL.



A máquina das mãos é o quinto livro de poesia de Ronaldo Costa Fernandes, maranhense criado no Rio e radicado em Brasília, que estreou em 1997 com Estrangeiro. A poética de Ronaldo Costa Fernandes é dotada de um sentimento trágico da vida, criando um repertório conceitual e imagético de força impressionante a partir de elementos cotidianos. Em A máquina das mãos, este sentimento trágicocômico face às futilidades do dia a dia é revestido pela agudeza crítica, humor afiado e lirismo surpreendente.

“Trata-se de um livro em que a experiência pessoal do poeta, convertida em linguagem, se transmuda em poemas de excelente nível, e nos quais se casam a emoção e a execução apurada, sob a regência de um rigor que não exclui a aventura e a transgressão”, disse no parecer a comissão da ABL.


Leia dois poemas de A máquina das mãos

Dormência
O sono falso da dormência:
esta morte momentânea dos membros
pode atingir a memória:
todo o passado se converter em perna
ou a lembrança virar braço.
O cérebro cheio de formiga,
a cabeça dormente como trilhos
de trem de brinquedo
que roda em círculos.

Hopper
Em Hopper, não há a solidão que todos dizem.
Aquele casal na lanchonete,
as moças no quarto
ou no vagão de trem
estão imobilizados de vida
—de vida tão grave
que nada escapa (como nos buracos negros)
de seu campo de gravidade.

Ali estão os autômatos de Hopper
em sua fantástica viagem em torno de si mesmo.

Não é a vida americana
que é criticada.
O que nos desnorteia em Hopper
— e nos fascina —
é que nos vemos na lanchonete,
na parada de ônibus ou no vagão de trem.
Estamos imobilizados — hopperianos —
em têmpera e colorido,
fixos na tela do tempo,
e, irremediavelmente, presos a nós mesmos,
a vida como um quadro americano
do qual não podemos escapar.

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