sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922 - 2010)

Saramago por Sebastião Salgado


"O primeiro som, aquele de que todos os outros virão a nascer, filhos, discípulos ou gomos, ou bagos de romã justapostos, ou favos que se respondem como a luz de uma vela entre espelhos paralelos, o primeiro som, em tão grande silêncio nascido que poderia ser a primeira de todas as vagas quebrada sob os nevoeiros e as sombras do mundo recém-criado
o primeiro som é apenas o da corrente de ar que nos foles do órgão se
introduz,
ou talvez não,
o primeiro som será o da respiração necessária para que a donzela aia faça o tão pouco esforço de levantar o punho do fole, e neste e nos pulmões o ar circulando com o secreto rumor da seda arrastada na lua, que por longe ser não ouvimos mas sabemos, e sem que percebendo-se percorre o interior das narinas húmidas e vivas, e docemente inflando os pulmões e também a escuridão interior do fole de pele curtida, ainda cheirante ao fartum quente dos gados nos currais ou no chão solto e macio das grandes sestas sob as árvores, e quem sabe se distante contendo o tilintar finíssimo das campainhas dos rebanhos em manhãs também de névoa de um mundo muito mais velho.
Esse, ou este, ou ambos porque mutuamente se requerem, são o primeiro som. A música ainda não se ouve, esta é a última pausa viva, o segundo final de consolação dos afogados que no ponto de morrer revivem: todos os sons estão neste primeiro, e todos são o mesmo silêncio, ou a mesma demonstração da sua impossibilidade. [...]"

trecho de "O ouvido", de Poética dos cinco sentidos revisitada (7Letras)

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