sexta-feira, 28 de maio de 2010

"Boa noite, senhor Soares" no Prêmio Portugal Telecom

A 7Letras apresenta hoje mais um trecho de um dos semifinalistas do Prêmio Portugal TelecomBoa noite Senhor Soares. A obra do escritor português Mário Cláudio é mais uma aposta da 7Letras na prosa contemporânea que se faz do outro lado do Atlântico. De forma original e sedutora, Mário Cláudio estabelece um diálogo com a obra de Fernando Pessoa a partir do seu heterônimo Bernardo Soares. A narrativa gira em torno de António, empregado no armazém de tecidos, e do enigmático tradutor Senhor Soares.

Fazendo ficção da própria ficção, Mário Cláudio descreve o cotidiano de Soares e explora, através do olhar de António, a atmosfera social e emocional que envolve o narrador do Livro do Desassossego.

Além de Mário Cláudio, a editora publica pela primeira vez no nosso país obras de nomes essenciais da literatura lusitana, como Ana Hatherly, Jorge de Sena e Teresa Veiga.


Leia um trecho de Boa noite Senhor Soares

"No armazém havia além de mim, do patrão Vasques, e do senhor Soares, que trabalhava como nosso tradutor, o senhor Moreira, o guarda-livros, o senhor Borges, o caixa, os três rapazes, caixeiros de praça, e o moço de recados. Os três rapazes eram o José, o Sérgio e o Vieira, a quem chamávamos o Alfama por morar a Santo Estêvão, e o moço que tinha a graça de António como eu. De quando em quando apareciam os caixeiros-viajantes, o senhor Tomé e o senhor Ernesto, e tínhamos também o gato, o Aladino, constando que fora o senhor Soares quem lhe pusera o nome. O senhor Moreira, um homem muito engraçado que vivia ao pé da Avenida, não conseguia pronunciar os erres, e fazia-nos rir à socapa com aquelas frases que nós, os rapazes, nos não cansávamos de repetir, e de que nunca mais me esqueci. “O peço do meto do pano cu” fora uma dessas suas saídas que usávamos, se nos apetecia um bocado de pagode. O guarda-livros andava por regra muito mal vestido, fora sempre um enorme comilão, gastava o ordenado com a esposa, a dona Lalá, a encher a barriga, e não me lembro de segunda-feira em que ele não chegasse com saudades dos petiscos da véspera, “Comi cá ontem umas eiroses em Alcochete que nem vos digo, nem vos conto”, ou “Bebi cá ontem uma pinga em Colares que ainda lhe trago o sabor na língua”. Via-se bem que o senhor Soares gostava do senhor Moreira, achando-lhe graça talvez, ou percebendo no seu íntimo que se tratava de um tipo de bons sentimentos, o que de resto se revelava naquela cara bolachuda, coberta de suor no Verão, mas um pouco roxa no Inverno. Embora teoricamente ocupasse o lugar de chefe do tradutor, o senhor Moreira nunca puxava dos galões com ele, nem aliás com ninguém, e apenas censurava a indiferença que o senhor Soares sentia por tudo quanto fosse comida. “Aquilo é uma tristeza”, desabafava o guarda-livros, “o único petisco que lhe passa pelas goelas é uma canja de galinha, e de longe a longe uma postazinha de pescada cozida.” O tradutor parecia não acusar tais brincadeiras, e só muito raramente se divertia a caçoar como senhor Moreira, alcunhando-o de Dom Barómetro. De facto não existia quem como ele se preocupasse com as condições atmosféricas, não porque isso lhe desse qualquer abalo no tocante aos dias da semana, mas porque temia que o almoço dominical, festejo em que depositava as suas alegrias de glutão, se lhe tornasse impossível, devido ao mau tempo."

Um comentário:

  1. Muito interessante, muito interessante! Gostei deveras! Assim que o tempo me permitir, adquiri-lo-ei.

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satara