sexta-feira, 14 de maio de 2010

Atire em Sofia

Sonia Coutinho é uma das mais importantes escritoras brasileiras da atualidade, tendo ganhado duas vezes o Prêmio Jabuti. Em Atire em Sofia, a autora rompe mais uma vez os tabus da “literatura feminina”, num romance que retrata uma geração de mulheres que desafiam os papéis tradicionais e ousam escrever a própria história.


Leia aqui um trecho de Atire em Sofia:


Ele folheia devagar o álbum de fotografias que está em seu colo, observando com cuidado cada foto amarelada, com rostos e ambientes do seu tempo de escola. Numa das páginas, um grupo de jovens, que ele vai identificando: Sofia, João Paulo, Júlio César, Josué, Maíra, Matilde, Tom, ele próprio. A turma que se encontrava sempre, em locais variados, os grandes amigos de vinte anos atrás.
Dois foram embora da Cidade, Sofia e João Paulo, que tinham um caso de amor crônico, mas interrompido. Os demais ficaram.

Menos Josué, que partiu de outra maneira – morreu de leucemia, aos 30 anos. (...)

Procura lembrar onde essa foto do grupo foi tirada, mas não consegue. Pelo que parece, na avenida à beira-mar, um dos pontos de encontro deles, em frequentes fins de tarde. Estão encostados numa amurada recortada e pintada de branco, a mesma que ainda existe lá.
Examina outra vez a fotografia, detendo-se agora em Sofia adolescente, já um rosto de época, com sua maquilagem pesada, as sobrancelhas muito largas obviamente pintadas a lápis, os cabelos duros de laquê e um vestido sem dúvida comprado numa loja de departamentos no Centro, a mais elegante da Cidade, naquele tempo.

E, rabiscado num pedaço de papel, entre as páginas do álbum, ele encontra de repente um texto misterioso, que ela escrevera ou copiara para ele, e lhe enviara, alguns anos atrás. Lê:

Eu, Lilith. A primeira companheira de Adão, a mulher suja de sangue e saliva que lhe perguntou: “Por que devo deitar-me embaixo de você? Por que devo abrir-me debaixo do seu corpo? Por que ser dominada por você? Também fui feita de pó, sou sua igual.”

Voei então para muito longe, para as margens do Mar Vermelho, e Jeová decretou: “O desejo da mulher é para seu marido. Volte para ele.” Ao que respondi: “Não quero mais nada com meu marido.” 

Jeová mandou à minha procura uma formação de anjos, que me alcançaram nas charnecas desertas do Mar Arábico, cujas águas atraem os demônios. 

Eu estava cercada de criaturas das trevas, quando chegaram os anjos enviados por Jeová. Eu lhes disse: “Não vou, este é meu lugar.” E fiquei, e conquistei minha liberdade e minha solidão.
Sofia, uma pessoa muito especial, pensa Fernando. Deixou um marido advogado e fazendeiro sem cobrar nada, saiu sem tostão.

Era talentosa, atriz, pintora, embora acabasse não desenvolvendo nada disso. No Rio, segundo soube, mesmo sem o diploma tornou-se uma jornalista profissional. Teve notícias, também, de que ela continuava “infeliz no amor” – ou, pelo menos, era o que as pessoas pensavam a seu respeito.

Sofia, que continuava alvo de uma condenação geral na Cidade, por ter deixado suas duas filhas, ainda bebês; embora tenha tentado, em repetidas viagens para cá, de alguma forma recuperá-las – o que nunca conseguiu, diante da oposição do seu ex-marido e até da sua própria mãe, já viúva.

Uma sina determinada, ele sabe, por vários acontecimentos da infância de Sofia, traumas, maus-tratos. Mas ninguém na Cidade pareceu jamais levar isso em conta, todos sempre prontos a falar mal dela.

Daí sua imensa surpresa quando soube, alguns meses atrás, da volta de Sofia à Cidade. Logo ao chegar, ela lhe telefonara, marcando um encontro. Outra surpresa, a volta de João Paulo, que não entrara em contato com ele, só se encontraram mais recentemente, e por acaso.

Fernando examina mais uma vez a foto do grupo. Sim, são seus Antigos Amigos, os personagens de um verão esquisito que, de alguma forma, reuniu a todos, quase vinte anos depois.

Verão que ele procurou ignorar, mas que agora lhe volta, com seu perfume de violetas murchas, com um brilho fanado de sol ao entardecer ou com a acre carícia do vento cheio de poeira avermelhada. A poeira que doura a Cidade, sob um céu inesperadamente escuro e relampejante.


Sonia Coutinho nasceu em Itabuna (BA) e mora no Rio de Janeiro. Jornalista e tradutora, é autora de Os venenos de Lucrecia (Prêmio Jabuti — 1979) Os seios de Pandora (Prêmio Jabuti —1999), O último verão de Copacabana, entre outros. Participou de diversas antologias no Brasil e no exterior.

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